Do Estadão

Tenho impressão, Senhor Redator, sem negar a afeição, que privei da amizade dos dois maiores leitores do jornal O Estado…

Tenho impressão, Senhor Redator, sem negar a afeição, que privei da amizade dos dois maiores leitores do jornal O Estado de S. Paulo em Natal. Naqueles anos setenta e oitenta, eram os mais fiéis às suas páginas e editoriais: meu sogro, Dr. Omar Lopes Cardoso, capitão-farmacêutico da reserva do Exército e revolucionário de trinta, como gostava de se apresentar; e Luiz Maria Alves, o amazonense genial e implacável nascido no seringal Bom Futuro, às margens do Manicoré, afluente do rio Madeira.

Doutor Omar era cliente da banca de Seu Severino, ali na esquina da Rio Branco com a General Osório, e Alves da banca Tio Patinhas, na calçada do antigo Cinema Rex, hoje morto. Era impossível não encontrá-los com os olhos derramados nas páginas do jornalão hoje quase duas vezes centenário, sisudo e sem gracejos. Foi lá e lendo de carona o exemplar do sogro, que descobri Luiz Martins, um cronista que só assinava L.M., e escrevia crônicas contando histórias das noites da boemia paulistana.

Lembrei de tudo isso quando vi no Jornal Nacional a denúncia do Estadão pautando as rádios e tevês de todo o país no caso da compra pela Petrobrás de uma refinaria de Petróleo nos Estados Unidos com valores não apenas cinco vezes acima do preço correto, como a inusitada obrigação de comprar a segunda metade. E o mais estranho: tudo isso a partir de um contrato que omitiu as cláusulas principais que fixavam cálculos e deveres que acabaram por gerar um prejuízo que já ultrapassa os dois bilhões.

A notícia cairia no colo de alguns técnicos e suas tramas e por ai adormeceria nas gavetas dos arquivos judiciais não envolvesse o próprio conselho superior da Petrobrás e sua então presidente, hoje presidente do Brasil, à época chefe da Casa Civil do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. E sobretudo se não tivesse deixado a sempre metálica Dilma Rousseff tão amarela na sua resposta. E não se acuse o Estadão de fazer um jornalismo apressado e oposicionista, quando colheu documentos incontestáveis.

Não significa dizer que só por isso, por presidir um conselho que unanimemente aprovou uma compra com sobrepreços astronômicos, a presidente há de ser acusada de leniência com atos lesivos ao patrimônio público. Mas é inacreditável e muito desgastante que aquela administradora de ferro tenha sido tão pouco zelosa com a coisa pública. Ela que já paga o preço de não ter controlado como ministra e como presidente os apagões de energia do país, mesmo depois do aviso de que ‘apagão nunca mais’.

O jornalismo impresso, no Brasil e em vários países, mantém sua credibilidade, imune ao risco daquela informação que embora se pulverize rapidamente, e de forma avassaladora, não tem o poder de desmonte que só na denúncia formal e por escrito de um Estado de S. Paulo pode gerar um poder de impacto capaz de paralisar o governo. Para um velho dinossauro, como este cronista, não deixa de ser prazeroso olhar o Estadão mantendo sua tradição de um jornalismo acima do medo e da conveniência.

 

CHAPÃO – I

Será sexta-feira, dia 28, no Hotel Praiamar, anúncio oficial do chapão majoritário com Henrique Alves, para governador; João Maia, vice; Wilma de Faria para o Senado; e Flávio Azevedo primeiro suplente.

NOMES – II

Não há mudança no conjunto de nomes do bloco majoritário, assim como nas dez siglas que formam o G-10 liderado pelo senador Paulo Davin. Mas, o chapão ainda terá novas adesões nos próximos dias.

ESPERA – III

As alianças com o DEM e o PSDB em chapa proporcional à parte, se é que a lei permite, vão aguardar as definições que ainda estão na pauta. A ideia é não comprometer o discurso de oposição do chapão.

SINTONIA – IV

Mesmo assim o chapão terá desafinação se a ex-governadora Wilma de Faria mantiver seu discurso de oposição como tem feito na tevê. Mas acordão cala palavras e gestos, principalmente um acordão forte.

WILMA – V

A presença da ex-governadora Wilma de Faria na chapa será confirmada também sexta-feira com a sua presença no Praiamar. Será o argumento do prefeito Carlos Eduardo justificando seu apoio ao chapão.

SOBE – VI

A candidatura de Henrique, como sempre esteve no noticiário, abre espaço para candidatura de Walter Alves, agora herdeiro natural das bases do tio. E ninguém sabe se Felipe Alves será deputado estadual.

PESO – VII

O PROS, do deputado Ricardo Motta, e até pela densidade de votos de sua bancada, também vai apoiar Henrique e manter seu espaço na presidência da Assembleia. É o que já ficou acertado com o PMDB.

JORNAL

Em ritmo de finalização as conversas do empresário Flávio Azevedo com o jornalista Cassiano Arruda em torno do controle acionário do Novo Jornal. Mas Cassiano continuará como seu principal colunista.

LIXO

O auditor Cláudio Emerenciano sentiu que sua posição na questão do lixo estava passando do limites diante das exigências do TCE, todas atendidas pela Prefeitura. Nesta aldeia tudo tem causas e efeitos.

LEGADO

Tem toda razão a vereadora Júlia Arruda quando abraçar a campanha do Varela Santiago pela compra de um tomógrafo para um hospital público infantil. É o único gol de placa que a cidadania pode fazer.

HISTÓRIA

Edição de março de História, da Biblioteca Nacional, uma reportagem revela como imigrantes alemães viraram brasileiros, além de um ensaio sobre a influência de Dante no romance de Machado de Assis.

DOSINHO

A morte de Dosinho, 87 anos, vivendo o sonho de conhecer o primeiro neto que só nasce em setembro não passou sem registro pelo obituário da Folha de S. Paulo. Na edição de ontem lhe dedicou o perfil.

LÍNGUA

Cimo a Copa vem assim com vários sotaques gringos a revista Língua Portuguesa escolheu como tema de capa este mês a semelhança de pronúncia e grafia de palavras estrangeiros com significado diverso.

K

Sai o quinto número de ‘K’, um pequeno, bem, bem informado e bem escrito jornal natalense só sobre cinema com distribuição gratuita. Em março foca Murnau, aquele de Nosferatu, ‘o rigor na inovação’.

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