“Estamos mais próximos da cura do HIV”, diz pesquisador de vacina brasileira

Nesta semana, USP divulgou dados que mostram avanço em pesquisa

Resultados das pesquisas se mostram promissores e vacina poderá ser testada em humanos em três anos. Foto:Divulgaçaõ
Resultados das pesquisas se mostram promissores e vacina poderá ser testada em humanos em três anos. Foto:Divulgaçaõ

Nesta terça-feira, pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) divulgaram que resultados positivos em relação à vacina anti-HIV, que está sendo testada na universidade. A pesquisa foi realizada com quatro macacos. De acordo com Edécio Cunha Neto, professor de imunologia clínica da Faculdade de Medicina da USP e pesquisador do Incor (Instituto do Coração), a resposta do sistema imunológico dos animais foi melhor do que os cientistas esperavam.

O especialista falou sobre os próximos passos do estudo, a importância da pesquisa para a possível cura e os testes em humanos.

Leia a entrevista na íntegra:

R7 – Como surgiu a pesquisa?

Edécio Cunha Neto — Há 12 anos começamos um trabalho em que queríamos juntar um conjunto de fragmentos do HIV que pudesse avaliar a intensidade da resposta imune em paciente com HIV. Após escolhermos a região em que o estudo seria realizado, sintetizamos pequenos fragmentos das proteínas do HIV, que eram 18, e fomos ver a capacidade das células do sangue de responderem a esses fragmentos.

R7 – Como foi a primeira etapa?

Edécio Cunha Neto – Fizemos teste com camundongos. Nossa impressão com o teste foi que as cobaias tiveram uma resposta forte, 10 % das células do camundongo eram capazes de identificar componentes da vacina. Então esse número grande nos estimulou para continuarmos a pesquisa.

R7 – Logo depois, o que aconteceu?

Edécio Cunha Neto – Mudamos para testes em primatas, onde os resultados foram muito melhores do que os em camundongos. Injetamos o DNA com a parte que decodificava os fragmentos do HIV. Depois de três imunizações houve uma resposta muito potente, essa resposta variou de quatro a dez vezes mais que nos camundongos. O macaco tem um sistema mais semelhante ao humano do que um camundongo. A gente usa o macaco rhesus, pois tem mais semelhança com os humanos. Nós esperávamos ter uma resposta mais fraca ou de magnitude semelhante ao que achamos no camundongo e essa resposta mais forte foi uma surpresa.

R7 — Quais são as próximas etapas da pesquisa?

Edécio Cunha Neto - A próxima etapa é fazer o teste com 28 animais onde teremos grupos que receberão vacinas do DNA codificando os fragmentos do HIV dentro de vetores virais atenuados. Basicamente são vacinas virais em que você coloca o fragmento do HIV e vamos administrar a variação dos vírus para saber qual a melhor combinação que podemos utilizar pra fazer a imunização dos macacos.

R7 – Haverá teste em humanos?

Edécio Cunha Neto — Os testes em humanos serão depois de três anos, pois é o tempo que levaríamos para fazer as adequações físicas.  Cogito que levaremos três anos pra ter todos os resultados dos vetores virais.

R7 – Quanto ao teste em humanos, os primeiros testados serão portadores da doença?

Edécio Cunha Neto - Primeiro teste será com pessoas não infectadas para vermos a resposta humana. Então, vamos analisar se é segura a imunização. E depois faremos o teste com pessoas já infectadas.

R7 – Essa vacina poderá atender todos os infectados?

Edécio Cunha Neto - Como toda vacina, ela não protege todos os pacientes. Nosso objetivo é proteger o maior numero possível de pacientes.

R7 – Quais são as opções de tratamento para portadores do HIV? Eles são suficientes para controlar a doença?

Edécio Cunha Neto - Os pacientes ainda precisam usar muitas drogas, mas existe um grupo de pesquisadores que estava tentando, com tratamentos muito fortes, prover uma cura funcional da doença.

O problema do vírus da Aids é que ele se esconde em células que não são alvos do coquetel e essas células mudam de um período a outro. Se você da um coquetel muito forte para uma pessoa, ele vai matar todas as células que vão replicar o vírus, mas não vai matar o vírus dentro das células que chamamos de reservatório.

R7- Comparado ao passado em que HIV era visto como “o passaporte para a morte”, como o senhor avalia o panorama de pesquisas hoje em dia?

Edécio Cunha Neto - Existem muitas outras vacinas em testes humanos em estágios avançado e que tem chances de dar resultados mais cedo. Existe outro grupo de cientistas que quer produzir uma vacina que induza a produção de neutralizantes, esse tipo e anticorpo seria capaz de bloquear qualquer tipo de HIV impedindo que ele se conecte a célula. Mas isso ainda é uma possibilidade muito remota.

Nossa vacina tem uma premissa de funcionamento diferente de todas as pesquisas conduzidas hoje. Estamos mais próximos de uma cura funcional do HIV do que estávamos a dez, 15 anos atrás. A diferença dessa vacina é que ela foi a primeira a ser criada e desenvolvida aqui no Brasil.

Fonte:R7

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