Estilista e exemplo – Rubens Lemos

Pensando nas opções tenebrosas do Brasil recordo Souza, o poeta dos Itajás, melhor jogador pelas eternidades do América e Ademir…

Pensando nas opções tenebrosas do Brasil recordo Souza, o poeta dos Itajás, melhor jogador pelas eternidades do América e Ademir da Guia caboclo em elegância, postura e timidez. Souza foi um camisa 10 maravilhoso e relevado pela mídia Sudoeste pelo formidável pecado de não fazer marketing pessoal.

Lembro Souza e enxergo o invisível sorriso das desgraças ao constatar o quanto pode ser escroque o futebol. Willian, Paulinho, Ramires, Bernard, Oscar, milionários e diminutivos de encantamento, festejados pela torcida cega como foras de série que nunca foram, são ou serão. Medianos, razoáveis, medíocres, equívocos ocasionais. Absolutos na camisa amarela vulgarizada.

Magro e mágico Souza da canhota em versos de Moyses Sesyon, lírico e boêmio de Assu, terra fronteiriça ao berço brejeiro do ilusionista sem vaidade. Souza jogou muito mais futebol do que toda – infinitamente toda a atual seleção brasileira – desde que começou a fazer embaixadinhas no ventre de sua mãe.

Nos ventos que sopram fantasmagóricos ao largo do sítio arqueológico do Estádio Machadão, ouvidos sensíveis saudosistas podem ouvir, de olhos fechados e em meio ao maior dos piores engarrafamentos, uma curva sinuosa de charme parida de um toque sutil de Souza.

Espetacular, avaro em publicidades, merchandisings e jabás, o dinheirinho sujo que(dizem os impuros) se paga à imprensa por elogios falsos, Souza brilhou dentro de todas as camisas que vestiu. No América, em 1993, ofuscou o veterano Mendonça, velho ídolo do Botafogo do Rio de Janeiro. A bola apreciava Mendonça. A bola se entregou, lasciva, ao primeiro contato com Souza, de dribles caprichosos.

O país já se drogava de Dungas, Dorivas, Gallos, Pintados, Bernardos e Nasas, no salão nobre da meiúca, restrito aos donos do cartão da arte nata. Souza passou voando baixo e driblando em tesouradas pelo Rio Branco de Americana(SP), de onde saiu para glorificar a camisa 10 consagrada por Rivelino, Palhinha e Zenon. Souza suavizava o Corinthians e o ator Marcelinho Carioca levava a fama.

Introvertido crônico, respondia em monossílabos os elogios dos comentaristas isentos. Certa noite, no Pacaembu, driblou tanto o xerife Ricardo Rocha do Vasco, um dos mais brilhantes zagueiros da história nacional, que encerrou o Globo Esporte do dia seguinte ao fundo musical da trilha perfeita para a cadência ritmista: Brasileirinho, choro de antologia.

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Falasse como um Neto, roliço e enganoso jogador, insuportável comentarista de televisão, Souza estaria entre os grandes do Parque São Jorge listados pelos historiadores nem tão preocupados assim com o sotaque patropi do trato com a bola. Souza a acariciava, era florista superando canhões humanoides.

Sofreu a primeira cutilada da injustiça após brilhar na seleção brasileira. Estreou contra a Tchecoslováquia abrindo o placar num golaço, balançando a cintura, derrubando zagueiros e encobrindo o goleiro inerte. Foi 5×0 e Túlio Maravilha, o falastrão, recebeu passes de amigo fraterno.

Souza representava a plástica do romantismo dos anos 1950, jogava como se estivesse de smoking no baile quadrilátero. Zagallo não iria perdoá-lo. Titular e autor de outro gol de fora da área contra o Peru no Pré-Olímpico, foi barrado por Beto, o Cachaça, à época voluntarioso e marcador, um fruto do poro do técnico tão vitorioso quanto conservador siderúrgico.

O Brasil levou às Olimpíadas um time com Ronaldo Fenômeno, Roberto Carlos, Bebeto, Aldair, Rivaldo, Juninho Paulista e o goleiro Dida. Souza nem mereceu o ocaso da reserva. A Nigéria tratou de mostra no toque de bola envolvente, que é engenho e feitiçaria são armas dos privilegiados e virou para 4×3 uma semifinal de tremedeira.

São Paulo, Atlético Mineiro, Flamengo – no qual marcou um golaço de falta em vitória de 1×0 sobre o Vasco – Atlético Paranaense campeão brasileiro de 2001, futebol russo e a volta ao América de Natal, cores e cordas do seu coração.

Clarividente, desconcertante, conduziu o clube ao segundo acesso em menos de dez anos à primeira divisão, tornando-se o melhor jogador da Série B de 2006. Souza jogava por prazer e iluminava de classe as tardes no Machadão.

Uma seleção brasileira sem meio-campo, órfã de um armador criativo e capaz de subverter a lógica de uma partida é a imagem de Souza desfilando sua fleuma aliada à dignidade e à timidez de um menino sertanejo. Um camisa 10, da genealogia dos meias puros de origem. Guia e mensageiro das glórias artesãs.

21 de junho

Para fatalistas e supersticiosos, 21 de junho é data especial para a seleção brasileira em Copas do Mundo. Na alegria e na tristeza.

Tri

O Tricampeonato veio no dia 21 de junho de 1970, 4×1 na Itália, gols de Pelé, Gerson, Jairzinho e Carlos Alberto Torres. Boninsegna para a Azzurra com 107.412 pagantes no Estádio Azteca no México.

Seleção iluminada

Brasil: Félix; Carlos Alberto Torres, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo e Gerson; Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivelino. Itália: Albertosi, Burgnich, Cera, Rosato e Facheti; De Sisti, Bertini(Juliano) e Mazzola; Domenghini, Boninsengna(Rivera) e Riva.

Revanche

Derrotada em 1974, o Brasil bateu a Polônia quatro anos depois na Copa da Argentina por 3×1. Nelinho e duas vezes Roberto Dinamite enquanto Lato fez o gol adversário. Jogo em Mendoza(Argentina), para 39.586 pagantes.

Times

Brasil: Leão; Nelinho, Oscar, Amaral e Toninho; Batista, Cerezo (Rivelino) e Zico (Jorge Mendonça); Gil, Roberto Dinamite e Dirceu. Polônia: Kukla, Szymanowski, Gorga, Zmuda e Maculewicz; Kaspercczak (Lubanski), Deyna e Boniek; Lato, Nawalka e Szarmach.

Choro

No México, em 1986, 21 de junho do revés. Brasil eliminado pela França nos pênaltis após empata em 1×1 no tempo regulamentar e 0×0 na prorrogação. Zico perdeu um nos 90 minutos. Sócrates e Júlio César desperdiçaram seus chutes.

Escalações

Brasil: Carlos; Josimar, Júlio César, Edinho e Branco; Elzo, Alemão, Júnior (Silas) e Sócrates; Muller (Zico) e Careca. França: Batts; Amoros, Bossis, Battiston e Tusseau; Giresse (ferreri), Tigana, Platini e Fernandez; Rocheteau (Bellone) e Stopyra.

Em 2002

Bela vitória de virada sobre os ingleses pelas quartas. Foi 2×1, gols de Owen para o English Team, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho. Público de 47.436 pagantes no Estádio Ecopa (Shizuoka, Japão).

Escalações

Brasil: Marcos; Lúcio, Edmílson e Roque Júnior; Cafu, Gilberto Silva, Kléberson, Ronaldinho Gaúcho e Roberto Carlos; Ronaldo (Edílson) e Rivaldo. Inglaterra: Seaman; Mille, Ferdinand, Campblell e Ashey Cole (Sheringan); Sholes, Burr, Sinclair (Dyer) e Beckham; Heskey e Owen (Vassel).

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