“Estourei champanhe”, comemora uma das vítima do médico Abdelmassih

Uma das 35 pacientes que o denunciaram por estupro, diz como contribuiu para as investigações que levaram ao paradeiro dele

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“Fui a primeira vítima a saber da prisão de Abdelmassih. Coordeno uma página na internet que reúne outras mulheres e familiares vítimas daquele monstro. Por meio dela, recebia informações e pistas anônimas sobre o paradeiro de Abdelmassih, como ele recebia dinheiro no exterior e quem o ajudava. Foram mais de 300 documentos. Vinham de muitas pessoas para quem ele fizera mal no passado: ex-funcionários, ex-empregadas domésticas, conhecidos e outros familiares e amigos de vítimas que, como eu, tinham sede de justiça. Eu compilava e encaminhava essas informações à Secretaria de Segurança do Estado de São Paulo, por meio do secretário Fernando Grella, à Interpol e a outros órgãos envolvidos na investigação, além de jornalistas que não haviam esquecido o caso.

Cada um estava fazendo a sua parte para tentar montar aquele quebra-cabeça. Foi uma força-tarefa. Parecia coisa de filme. Nos últimos meses, mantivemos trocas de emails e ligações quase que diariamente. Sabíamos que o cerco estava se apertando para ele. A cada dia, crescia em mim a expectativa de ele ser pego. Vai ser amanhã, ou depois de amanhã. O grande dia está chegando. Comprei até um champanhe.

Informava às outras vítimas, pela internet, sobre o andamento das investigações. Como a página é pública, comecei a receber ameaças de morte. Os telefonemas diziam: Você conhece o doutorzinho. Não vai sair viva dessa história. Não era a voz de Abdelmassih, mas não tenho dúvidas de que foi a mando dele. Seguindo orientações da polícia, para minha segurança e também para não comprometer essa fase final da investigação, passei os últimos 20 dias no exterior, em silêncio. Não queria morrer antes de ver aquele monstro preso.

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Esperei 20 anos por justiça. Meu marido e eu procuramos a clínica de Abdelmassih em 1993. Eu já tinha uma filha adotiva, mas ainda sim insistia em engravidar. Optamos pela fertilização in vitro. Passei pelas três tentativas de aplicação dos embriões fecundados no útero. Sempre sedada, como as outras pacientes. Lembro que acordei no meio da terceira, sentindo dor no ânus. Ainda meio anestesiada, percebi que ele havia ejaculado sobre as minhas pernas. Ele fez sexo anal comigo enquanto eu estava sedada. Em decorrência da penetração, tive uma peritonite aguda, infecção causada pela bactéria Escherichia coli, comum em casos de estupro. A doença me fez perder as trompas e parte do ovário. O embrião não vingou. Meu casamento, assim como o de outras tantas pacientes abusadas por ele, também não.

Ele não violentou só a mim. Agrediu a minha família. Fiquei deprimida, tive síndrome do pânico. De alguma forma, ele ainda me assustava, me coagia, mesmo à distância. O medo não passava. Pensei que meu caso fosse isolado. Mais de dez anos depois, começaram a vir à tona denúncias de outras mulheres. Eu acreditava no que elas diziam porque havia passado pelo mesmo pesadelo. Decidi que precisava lutar por justiça. Denunciei, expus meu rosto na imprensa. Entrei na faculdade de direito – ato que considero de legítima defesa.

Quando recebi o telefonema com a notícia da prisão, estourei o champanhe que estava na geladeira. Vou brindar ao início de uma nova vida que está começando para mim.

Somos vítimas, não coitadas. Agimos racionalmente. Nosso grupo ganhou força e vítimas de outros médicos, padres pedófilos e estupradores estão começaram a nos procurar. Nós vamos ajudá-las. A luta não acabou. Ele, sim. Não vai mais sair de lá.”

278 anos de prisão

Roger Abdelmassih era um dos mais renomados especialistas em reprodução assistida no Brasil. Casais de todo o país, entre personalidades, políticos e celebridades, procuravam a clínica do ex-médico nos Jardins, bairro de luxo da capital paulista, para ter filhos. A partir de uma série de denúncias de 35 ex-pacientes, foi condenado a 278 anos por 56 abusos sexuais. Após ser condenado, em 2010, chegou a ficar preso por quatro meses, mas conseguiu autorização do Supremo Tribunal Federal (STF) para responder ao processo em liberdade. A Justiça revogou o pedido de habeas corpus no início de 2011, quando Abdelmassih tentou renovar o passaporte. Desde então, não foi mais visto. Até que, na terça-feira (19), numa operação conjunta da Interpol, com as polícias do Brasil e do Paraguai, ele foi preso em Assunção, onde vivia com a mulher e dois filhos.

Doutor horror

As acusações de estupro não são as únicas contra Abdelmassih. Ele também é alvo de denúncias de manipulação genética dos materiais colhidos na clínica. Muitos casais passaram, da noite para o dia, a não ter a certeza se eram os pais biológicos de seus filhos. Outros viram seus bebês nascer com doenças genéticas e má formações.

A farmacêutica carioca Nelma Luz, de 50 anos, é uma delas. Ela e o então marido procuraram Roger Abdelmassih em 2008. Sonhavam em ser pais. Diferentemente de muitos casais que procuravam a conceituada clínica do ex-médico, nenhum dos dois tinha problemas de infertilidade. Só que como ela já estava mais “velha”, tinha 44 anos, queria minimizar os riscos da gravidez. “As clínicas do Rio de Janeiro cobravam um décimo do valor de Abdelmassih, mas eu não estava disposta a arriscar. Só queria o melhor para a criança que eu tanto sonhava em dar à luz”, diz Nelma. O casal vendeu um imóvel para pagar o tratamento.

Quando vieram à tona as primeiras denúncias de estupro e manipulação genética na mídia, Nelma já estava no final do segundo mês de gestação. “Engravidei de primeira. Passei pelo PGD (Diagnóstico Genético Pré-Implantacional), para identificar possíveis anomalias genéticas e evitar a implantação no útero de embriões com alterações cromossômicas. A clínica disse que estava tudo certo, que os resultados garantiriam que meu filho nasceria com saúde. Colheram 12 óvulos meus. Quatro foram fecundados. Apenas um fertilizou. Não tenho ideia de onde estão e do que aconteceu com os outros oito óvulos. Quem sabe, deram vida a crianças em outras famílias. Nunca vou saber.”

O filho de Nelma, Guilherme, nasceu aos sete meses, com a síndrome de Edwards — uma doença gravíssima. “Da minha barriga foi direto para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal. Lá padeceu por três meses. Não conheceu sua casa, o quartinho que havíamos decorado, nem mesmo o meu colo. Sofreu muito naquela incubadora.” Segundo a farmacêutica, o bebê foi submetido a inúmeras cirurgias e procedimentos penosos. “Coisas que muito marmanjo não aguentaria.” Depois de três meses, a criança morreu. “Foi justamente para não passar por isso que eu procurara Abdelmassih”, ela diz.

“Não fui estuprada, como outras dezenas de pacientes. Mas meu filho sofreu as consequências de minha escolha em ter procurado Abdelmassih. Não há palavras para descrever o que aquele homem fez contra mim, contra meu ex-marido e, principalmente, contra Guilherme. Dinheiro nenhum conseguirá apagar.” Nelma quer agora que a Justiça condene Abdelmassih e outros profissionais da clínica por crimes relacionados à biossegurança. Sobre esses delitos, há um inquérito policial, instaurado em 2009, após a finalização da investigação sobre os abusos sexuais. Agora que o ex-médico será trazido de volta a São Paulo, ele deverá depor à polícia sobre essas acusações. Reportagem de ÉPOCA de novembro de 2010 relatou as denúncias sobre os procedimentos médicos na clínica de Abdelmassih. “Que Abdelmassih morra na prisão. Acabou para ele”, diz Nelma.

Roger Abdelmassih sempre afirmou ser inocente sobre todas as acusações, de abusos sexuais e das relacionadas aos procedimentos médicos de sua clínica.

 

 

Fonte: Época

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