Estreia de Fernanda Torres na literatura é um dos melhores livros dos últimos anos

Obra traz história de sexo, drogas, traições e arrependimentos na esbórnia carioca

Conrado Carlos
Editor de Cultura

Entre as páginas 26 e 27 de “Fim”, primeiro romance da atriz Fernanda Torres, eu imprimi minha marca. Uma marca sebosa e indelével, apesar da reação imediata de passar um pano nas folhas. A narrativa já tinha me provocado dois ou três sorrisos nasais, mas naquele momento veio a primeira gargalhada. Eu estava com a boca cheia de café e aquilo tudo explodiu na hora em que Álvaro, um ancião na casa dos oitenta, amaldiçoava dois sobrinhos pequenos com todas as pragas possíveis. Os meninos saíram de Rita, sua filha “ignorante e fútil”, casada com um radiologista de Uberaba – “uma besta quadrada”.

Os netos herdaram “metade dos genes medíocres” do pai. Banco o maníaco do trechinho para ilustrar a cafeína na brochura que rolou por aqui. “Os galhos estão podres, Felipinho e Marcelinho. Os seus filhos vão ser gordinhos que nem vocês, vão apanhar na escola, vão ser filhinhos da mamãe, riam bem alto, vocês nem sabem o que vem por aí: acne, p… pequeno [as duas letras a menos é de minha autoria], calvície, pressão alta, colesterol, tosse, mau hálito, pelo no ouvido, falta de ar, incontinência urinária, derrame, eu vou assistir de camarote. Qualquer garoto de rua tem uma genética melhor que a de vocês”.

Por falar em ‘brochura’, essa é a principal característica física de Álvaro, um dos cinco amigos que formam o núcleo do livro que tem arrancado elogios de meio mundo artístico – de Jô Soares a João Moreira Sales.

Fernanda Torres passa longe de ser uma oportunista que explora uma doença ou o fato de ser atriz consagrada no cinema, teatro e televisão. A mulher escreve mesmo. E escreve bem pra caramba, como se fizesse isso desde quando ganhou Cannes como Melhor Atriz, em 1986, por Eu Sei Que Vou Te Amar, dirigido por Arnaldo Jabor. Chamá-la de estreante é para quem não lê sua produção na Folha de São Paulo e nas revistas Veja Rio e Piauí.

Em um parágrafo com cerca de cem palavras, diria que “Fim” é a história de cinco homens que viveram no Rio Babilônia dos anos 1960 e 1970, porém doentes, alguns solitários, nos instantes finais de vida.  Além de Álvaro, brocha e triste, tem Sílvio, amargurado e outrora viciado em sexo; o Ribeiro, ex-praiano sarado que voltou à ativa com o Viagra; Neto, mulato careta, marido fiel até os últimos dias; e Ciro, o gatão da galera, invejado por todos. Desgraça e diversão andam juntas o tempo inteiro. Fernanda consegue falar de surubas, homossexualidade, cocaína, traições sem ser apelativa.

Tudo faz sentido no universo dos cinco cavaleiros da esbórnia carioca. Inclusive as mulheres que aparecem em capítulos menores, algumas “pioneiras na arte de dar sem pensar se valia a pena”. Em uma recente entrevista para o UOL, ela disse: “[...] acho fascinante como o homem é feliz com outros homens. Existe uma homossexualidade muito sadia entre amigos. A mulher é mais subjetiva, dada a melancolias”. São as Ruths, Ritas, Célias, Ciniras, Marias Claras, Suzanas que povoam as fantasias dos canalhas em questão (e as nossas) – passei a tomar goles rápidos de café, para evitar novas mechas amarronzadas no livro tão bonito, com a foto do Guarujá na capa.

“Fim” foi comparado a “Quadrilha”, o poema de Drummond que encadeia pessoas e amores. “Então não precisava esticar uma história já contada?”. Borges diria que não, com sua concisão doentia, inimigo de se espraiar por 500 páginas, se podia fazer o mesmo em cinco – os mestres também erram. Mas Fernanda esticou até onde era possível e desejável, com frases brilhantes, tiradas engraçadíssimas e uma facilidade de oscilar narradores e fluxos de consciência como poucos na literatura brasileira atual. Ela consegue nos fazer rir e chorar sem esforço, como a própria confirma, ao dizer que o livro saiu psicografado. Só aconselho tomar o café antes de lê-lo, para evitar tragédias domésticas – até porque você encontrará de sobra, nas duzentas páginas viciantes.

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De volta ao planeta
Se organize aí que sábado que vem (25) tem uma das bandas pop mais queridas do Brasil aqui em Natal. Em fase de promoção e divulgação do albúm “Funky Funky Boom Boom”, a banda mineira Jota Quest fará um show especial na Arena Ecomax, em Pirangi, como preâmbulo da nova turnê, que leva o nome do álbum, programada para abril 2014. Intitulada A Última Festa do Verão, o fuzuê na casa praiana ainda terá Uskaravelho e Pura Tentação, na abertura dos mineiros que prometem tocar por aproximadamente duas horas. Os ingressos já podem ser adquiridos (R$50,00 a pista e R$100,00 o camarote) na Graciosa do Midway e no Praia Shopping, na própria Arena ou através do site www.ingressando.com.br.

Rastafeeling
Uma das principais bandas de reggae de Natal será a atração principal do luau do bar Macaco Pirata, na praia de Barra de Tabatinga (Av. Praia de Búzios, no litoral Sul. Por R$15,00 você ainda terá, neste que é o primeiro evento enluarado do ano, em um dos points da galera alternativa durante o veraneio, o show do DJ Missigena Sound System. O local também abre de quarta a domingo, das 09h às 18h, com petiscos, refeições e lanches. Telefone para contato: 084 8894-1051.

Clube do Blues
O projeto que é uma das marcas do Taverna Pub está de volta com o cantor e gaitista Flávio Guimarães. Nesta sexta (17) e sábado (18) ele, que é um dos fundadores do Blues Etílicos, a maior do gênero no país, mostrará por que já tocou com os ícones Buddy Guy e Magic Slim e gravou com nomes famosos, como Titãs, Cássia Eller, Zeca Baleiro e Luiz Melodia. Na abertura, Gustavo Concentino & Blue Montain fará o pré-lançamento do DVD “Ao Vivo no Fest Bossa & Jazz 2013”. Cada noitada custa R$30,00.

Verão Telepesquisa
No sábado (18) e domingo (19), a praia de Pirangi recebe mais uma vez o Verão Telepesquisa, evento promovido em parceria com as agências Innover e Coletivo Marketing e Propaganda. Na programação, atividades esportivas (pilates, dança, muay thai e exercícios funcionais), distribuição de brindes, degustações e ações culturais. E para incentivar um estilo de vida mais saudável e divertido, a central de informações criou o Espaço Saúde com ampla programação para crianças, jovens e adultos das 9h às 16h.

Livro
Nesta final de semana, começarei a ler “O Gosto como experiência” (Sesi Editora), do italiano Nicola Perullo, filósofo e professor de Ciência Gastronômica que em seu extenso currículo tem doutorado e pós-doutorado com Jacques Derrida. Para ele, comer não é uma ação banal, mas, sim, uma experiência complexa, algo a ser observado e analisado.

Livro – II
O lance de Perullo é instigar leitores a refletir sobre sua relação com o alimento e o que norteia escolhas. O autor aponta a importância de sabermos olhar nossos comportamentos gustativos para explorarmos melhor as relações humanas. Cabeçudo, não? A critica tem elogiado à exaustão.

Popeye – 85 anos
Um dos primeiros personagens ‘saudáveis’ da história, o marinheiro surgiu no dia 17 de janeiro de 1929 no The New York Journal, de William Randolph Hearst, como um dos personagens anexos à história da Família Palito. Daí em diante, o marujo ganhou vida própria e virou protagonista de tirinhas, filmes e bonecos para a criançada, sempre com Olívia e Brutus, criado três anos depois, o acompanhando. “Sou forte até o fim, com espinafre para mim!”, era uma de suas frases.

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