A estreia de Levino – Alex Medeiros

Dez anos e um mês hoje. O site Sanatório da Imprensa já estava há quatro anos no ar, pioneiro na…

Dez anos e um mês hoje. O site Sanatório da Imprensa já estava há quatro anos no ar, pioneiro na aldeia em se tratando de espaço internético coletivo, administrado por um jornalista. Dividia o feito com o Poder Online, do colega Augusto Fontenele.

O SI era uma homenagem em forma de blague que eu prestava ao Observatório da Imprensa do mestre Alberto Dines, onde, aliás, eu publiquei diversos artigos e que ainda hoje podem ser resgatados nos arquivos do portal ou nas buscas do universo Google.

Foi Casciano Vidal quem me apresentou e sugeriu aquele moleque gordinho, com os primeiros pelos de barba brotando irregularmente no rosto, um jeitão tímido quebrado quando exibia a eloquência rara para um cara de pouco mais de vinte anos.

Rodrigo Levino era estudante de Direito que depois se jogou no jornalismo, estimulado pela paixão que tinha por literatura, acumulando na pouca idade um atípico volume de leitura. Convidei-o de imediato para escrever um blog no site, que ele disse já acessar.

E lá foi juntar-se a Zuenir Ventura, Juca Kfouri, Augusto Nunes, Gaudêncio Torquato, Lula Vieira, Bráulio Tavares, Gerald Thomas, Olavo de Carvalho, Ipojuca Pontes, Palmério Dória, Zevi Ghivelder, Taumaturgo Rocha, Mário Ivo e Rubens Lemos.

Era um timaço de colunistas e blogueiros, onde o estudante Levino se incorporou presenteando os leitores com seu texto de gente grande. Do Sanatório, foi me substituir na tela da TV Tropical ao lado de Jânio Vidal e Daniela Freire, e deu um show.

Sugeri seu nome a Marcos Aurélio de Sá para assumir a editoria do caderno cultural. Sem qualquer experiência com o velho mundo de uma redação de jornal e o fechamento diário de matérias, passou no crivo até de Vicente Serejo, um professor no assunto.

Não demorou, saltou da aldeia para a revista de Joyce Pascowitch e depois para a Veja e logo estava na Folha de S. Paulo, que com pouco tempo lhe entregou a editoria de capa do badalado caderno Ilustrada. Hoje está nos brindando com belos textos na VIP.

Rodrigo Levino, apesar de ser filho da geração da internet, não contraiu a febre das redes sociais, abandonou o Twitter quando o blue bird iniciava voo. Nos falamos pelo e-mail, e ontem, ao responder uma mensagem dele, lembrei dos dez anos de Sanatório.

Segue abaixo o texto de estreia dele em julho de 2004. (AM)

 

BLÁ-BLÁ-BLÁ!

Por Rodrigo Levino

23 de julho de 2004

 

Dois livros de Bukowsky em cinco dias e três insônias. Uma dezena de carinhas com quem havia transado na primeira noite. Seis deles no banheiro da sua boate preferida. Uma coleção de cigarros baratos comprados em rodoviárias e cigarreiras de beira de estrada. Recordações das suas incontáveis fugas em busca de si mesma. Origami. Kirigami. “Apertar” cigarros. Seios nus no teatro arena. Sexo grupal com José Celso Martinez Correia. Foi.

Tudo de uma só vez. Passando como se fosse um vídeo-clipe do Radiohead. “In your head”. Fixação por janelas cegas. Dessas casas antigas que são abandonadas e os donos tapam com tijolos impessoais as enormes janelas. Um gosto apurado por mamilos. Mamilos. Pra ela quase uma obra de arte. Não gosta de bichos. Mas adora sapatos. Prozac duas vezes ao dia. Itamar Assumpção sempre antes de levantar.

Não gosta de relógios. Odeia telefones. Telefones servem pras pessoas que estão longe. “Se você está perto, por favor venha até minha casa. E a gente ri um pouco enquanto faço um bolo de chocolate. Se não pode fazer isso, por favor, não precisa me ligar…”. Ópio com vodka. Flores amarelas num jarro tímido no chão logo quando você abre a porta. Gosta de portas entreabertas. De roupas entreabertas. De pernas abertas.

Isso tudo dentro de uma tentativa frustrante de se adequar aos padrões ocidentais-judaico-cristãos-medievais de culpa matrimonial e todo esse blá-blá-blá imbecil de “felizes até que a morte nos separe”. Esqueceram que também se morre em vida.

“Minha casa é o mundo. Entenda. Se quiser. Ou exploda. Mas eu não. Cansei. Cansei do seu mundo pequeno, onde eu até parei por puro cansaço. Não me apareça com bons argumentos. Enfie todos onde você achar mais excitante. Os problemas são os livros? Afogue-se tentando decorar os versos de Badeulaire que eu já sei de cor e salteado. Adeus.” (RL no Sanatório da Imprensa)

 

Petrobras

Tremedeira e ranger de dentes no PT e Palácio do Planalto com a delação premiada que fará o ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa. O cara substituiu o então presidente Sergio Gabrielli 24 vezes durante o período em que ocorreu o esquema de Pasadena.

Marina

Quem conta é o colunista Lauro Jardim, de Veja. Um interlocutor quis saber de Lula sobre as possíveis preocupações do PT com Marina Silva: “Conheço Marina mais do que conheço Dilma. E posso garantir que ela não ganha essa eleição”, respondeu.

Debandada

Pelo menos três candidatos majoritários que votavam em Eduardo Campos se afastaram de Marina Silva, entre eles o de Alagoas, Benedito Lira (PP), que está com Aécio Neves. Mesma coisa já acontece no Rio Grande do Sul e em Mato Grosso do Sul.

Pesquisa

O PMDB recebeu nesse sábado mais uma rodada de pesquisa do Ibope sobre a eleição no RN, material para uso interno e não registrado no TRE. Na terça-feira, uma outra pesquisa Ibope será divulgada pela Inter TV, dentro do pacote exclusivo da TV Globo.

Previsão

Acusado por muitos de ter editado entrevistas em que apontava a derrota da seleção brasileira e a chegada de Alemanha e Argentina na final da Copa, o vidente Carlinhos de Apucarana está de volta à mídia numa entrevista dada ao programa Arena SBT.

Previsão II

No programa da Lívia Andrade, o vidente chamou a atenção da plateia fazendo uma previsão sobre a eleição, com a vitória de Aécio Neves e já falando em Marina Silva como terceira colocada. E avisou: “A partir do dia 13 agora o Brasil vira o caos”.

Estranho

Pelo menos duas autoridades do universo jurídico já confessaram ao colunista que acharam muito estranho o assalto seguido de sequestro (ou vice e versa) do senador suplente José Bezerra Junior. Uma suspeita natural em se tratando do Brasil de hoje.

Poderoso

O ministro do Supremo, Luís Roberto Barroso, batizado na chegada de “noviço” pelo decano Marco Aurélio Mello, disse na OAB que da advocacia o que mais sente saudade é dos “honorários”, e que no STF “é como estar no céu, sem precisar morrer”.

Marinho Chagas

O jornalista Luan Xavier está concluindo nos próximos dias a biografia do craque Marinho Chagas, obra continuada a partir do seu trabalho de conclusão de curso na UFRN. O livro “A Bruxa” deverá ter mais de 300 páginas e algumas fotografias.

O defunto e a carpideira

As três principais revistas semanais do Brasil reproduziram em suas capas desse sábado, 23, a viuvez eleitoral pós falecimento do candidato Eduardo Campos, seguindo um roteiro natural e ao mesmo tempo forçado, como a nação assistiu no sepultamento do líder pernambucano. No sábado passado, uma mesma estampa de Eduardo quase coincidiu numa mesma fotografia nas três capas de Época, Veja e IstoÉ. E hoje, as bancas brasileiras amanheceram com as três revistas trazendo Marina Silva, a substituta do PSB na corrida eleitoral que parece embolada com a entrada da carpideira amazônica. No atual processo político nacional, a luta vai esquentando entre PT, PSDB e PSB. Só o defunto ainda é fresco. Mas, quem está assim tão preocupado com ele, né não? A imagem das capas, representando um espaço de apenas uma semana, mostra o terrível e verdadeiro ritmo da vida moderna, onde não há mais sequer espaço para a saudade. O poeta Mário Quintana percebeu esses tempos décadas atrás quando escreveu o poema “Viuvez”:

– Ele está morto. Ela, aos ais.

Mas, neste lúgubre assunto,

Quem fica viúvo é o defunto…

Porque esse não casa mais.

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