Estreia na Copa – Rubens Lemos

Na estreia contra o México, em 1950, a euforia agasalhava o país inteiro representado pela décima parte da população do…

Na estreia contra o México, em 1950, a euforia agasalhava o país inteiro representado pela décima parte da população do Rio de Janeiro (2 milhões de habitantes na época) superlotando o gigante Maracanã, nosso motivo de berrar aos continentes que tínhamos algo maior do mundo.

Ademir Menezes, duas vezes, Jair Rosa Pinto e Baltazar, o Cabecinha de Ouro, do Corinthians, cravaram 4×0 nos representantes de Pancho Villa. O meio-campo sinfônico – Danilo Alvim e Jair Rosa Pinto – demorou a encontrar o tom da orquestra.

Nos depoimentos exibidos em documentários e séries sobre o funeral coletivo do Maracanazo em exibição às vésperas de a bola rolar em 2014, sobreviventes revelam a angústia dos jogadores vestidos de branco (até 1954, seria este o uniforme), assombrados pela massa compacta como a prontidão de um exército de formigas humanas espremidas no concreto belo e ameaçador.

O Brasil jogou com alegria de primeira vez em todos os jogos de 1950 até perder para o Uruguai na catástrofe em que o mérito foi do adversário.

O jornalista holandês de tabloide está coberto de razão. Quando o brasileiro perde, é sempre por defeito do time, um erro, um detalhe. O adversário nunca merece.

O México era o Chile de antigamente nas Copas do Mundo. O Chile é freguês de malandro. Paga para apanhar. O saco mofado de pancadas.

O México, por nós foi pisoteado nos primeiros jogos de 1954, enganosa goleada de 5×0 e em 1962, em desempenho apenas regular da seleção do bicampeonato, salva por Pelé em sua única partida por inteiro e pelos dribles de Mané Garrincha. Zagallo – é Zagallo mesmo – fez o primeiro, um gol de cabeça. Salto de peixinho.

O otimismo alucinógeno de 1966 enganou a milhares de quilômetros de distância. A seleção era um bordel sem graça. Homem que é homem gosta ou apreciou noites rútilas de cabaré.

Ex-jogadores teimando em continuar, craques de talento dispensados – Carlos Alberto Torres, Djalma Dias e Amarildo – e uma desorganização de fazer inveja a uma Rua 25 de Março, centro do comércio popular e de infiltração marginal de São Paulo.

Dois gols de falta, um de Pelé e outro de Garrincha, contra a Bulgária, deram a pista sobre o que viria pela frente. A desclassificação ridícula na primeira fase.

Foi a última partida dos dois maiores jogadores do mundo juntos e com eles – o Brasil jamais perdeu uma partida. Pelé se machucou e não enfrentou a Hungria na derrota por 3×1 e Garrincha, deprimente espectro do passado – ficou fora da derrota para Portugal.

Na Alemanha, em 1974, a Iugoslávia, sempre formadora de times técnicos e de latinidade no toque de bola, foi o Brasil de azul e branco e o Brasil de amarelo e azul parecia uma Suíça fechada e satisfeita pelo 0×0 que antecedeu outro 0×0 na partida seguinte contra a Escócia.

Zagallo reduzira a pôsteres em papel madeira as lembranças de 1970. A estreia, outra vez, prenunciava o fim, muito bem pago com o quarto lugar, seis gols marcados e quatro sofridos, campanha de seleção de Oceania. Escaparam Rivellino, Marinho Chagas, Marinho Peres, Zé Maria e Jairzinho.

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Todas as histórias anteriores me foram narradas e exageradas em bares, farras, assisti na TVC, ouvi no rádio, li em bons livros e outros nem tanto, compêndios de estatística produzidos por chatos de mesa-redonda, pedantes pelo conhecimento infalível da cor da cueca de Cruijff quando fez o gol da Holanda nas semifinais de 1974.

Ao vivo e com alguma capacidade de percepção, assisti meu primeiro mundial, encantado, em 1978. Imaginava uma festa de gols e dribles, de tabelas e trivelas, chutes de curva e um Brasil disparado o tetracampeão.

Encaramos os suecos e aquele jogo, anos depois tive a certeza, selou a incongruência entre Zico e Copa do Mundo. Estava 1×1. Os suecos fizeram 1×0, numa falha de Cerezo que todo mundo esquece, Reinaldo empatou no finalzinho do primeiro tempo.

O campo de Mar Del Plata esburacado, parecia a Normandia depois da invasão aliada, destruída e intransitável .Aos 45 minutos do segundo tempo, escanteio para nós.

Nelinho, lateral-direito que a memória tacanha omite em preferência por Cafu, bateu de curva e Zico meteu a cabeça, mergulhando para fazer 2×1 e se enroscando nas redes do goleiro Hellstron.

O árbitro Clive Thomas anulou o gol. Apitou o fim do jogo com a bola no ar. O crápula nascido no País de Gales, quem sabe, para se vingar do golaço de Pelé em 1958, abafou meu grito histérico. Minha explosão detonando o peito ossudo.

Clive Thomas, o nome dele, banido do futebol. Assassinou a consagração do Galinho. A Copa não gostava dele, tripudiou em 1982 e, mais ainda, em 1986.

Pior para história. O melhor jogador que meus olhos contemplaram, emprestaria muito mais charme ao troféu do que um Dunga, um Cafu, um Matthaus, um Deschamps ou Fábio Canavarro.

A estreia de Zico iniciava a síndrome de minha geração maltratada por Paolo Rossi em 1982 e o goleiro Batts em 1986. Contra a Croácia, será mais uma largada a apontar evidências sobre glória ou fracasso. Serei frio. Obediência tática é lei retranqueira.

Edson desabafa

Na recente edição da Revista Placar, Edson Arantes do Nascimento desabafa. Ele foi o corpo usado pela entidade Pelé nos gramados. Edson não aceita que aleguem omissão de sua parte em relação a Garrincha e critica Paulo César Caju “que só quer aparecer”.

Dadá Maravilha

Edson estava tão chateado na entrevista que comparou o atacante Hulk com o folclórico Dario, o Dadá Maravilha da Copa de 1970. Nesse ponto, é preciso uma reflexão. Nem Hulk é tão ruim quanto Dadá nem faz gols quanto ele.

Até onde ir

Dois ou três ingênuos me perguntaram até onde poderiam ir sexta-feira pouco antes do jogo Camarões versus México na Arena das Dunas. “No máximo, até o banheiro, se morar em apartamento, ou ao quintal, se for em casa. É prudente verificar câmera secreta da Fifa”.

Oscar

Se arrebentar contra os croatas, Oscar queimará minha língua com pólvora. Faz meses que a imitação de Dirceu e Zinho Enceradeira não joga nada.

Clima

Tensão havia em 1982, antes de Brasil x União Soviética.

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