Estudantes assistem filme como reflexão sobre diferenças étnicas e culturais

uturos ‘nazifascistas’ são forjados durante o processo educacional, na infância e na adolescência

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Conrado Carlos

Editor de Cultura

Você está acostumado a ouvir piadas e xingamentos contra negros. Aliás, você conhece seres que dizem detestá-los, como a senhora (branca) que, na semana passada, entrou em uma farmácia em São Paulo, em plena avenida Paulista, e disse, primeiro, que queria ser atendida por alguém “da minha cor”. Insatisfeita, ela que, minutos antes, tinha chamado um porteiro de “macaco” e o mandou “voltar para a selva”, soltou, em direção a três pessoas, todos os demônios represados desde que uma princesa chamada Isabel assinou a tal da Lei Áurea: “Macaca, eu não gosto de negro; negro é imundo; a entrada de negros no shopping deveria ser proibida; odeio negros, negros são favelados”. Estas ignomínias reunidas em um único parágrafo são chocantes, mas comuns.

Quase sempre, os futuros ‘nazifascistas’ são forjados durante o processo educacional, na infância e na adolescência. Portanto, o papel da escola, como hospedaria intelectual de boa parte do dia de um jovem, ganha relevo a cada geração. Na tarde de ontem (12), alunos do Overdose Colégio e Curso foram confrontados com mais de duas horas de reflexão sobre o tema Preconceito Racial – ideia refutada por alguns pensadores, porém enraizada em um país que costuma vangloriar-se de sua miscigenação harmônica. Acompanhados por professores, meninos e meninas de nove turmas do Ensino Médio foram conduzidos ao Cinemark para uma sessão do filme 12 Anos de Escravidão, de Steve McQueen, vencedor de três Oscars, dentre os quais Melhor Filme e Roteiro Adaptado.

O filme foi inspirado no livro homônimo, escrito há mais de 160 anos pelo próprio Solomon Northup, negro escravizado à força, após ser sequestrado no norte do país. A ação multidisciplinar proposta pela escola quis germinar entre os alunos a ideia de igualdade, ao utilizar a arte como mola-mestre para um debate mais amplo, que envolve uma rede de cidadãos responsáveis por parte da futura estrutura social. “O papel de escola deve ter amplitude máxima na educação desses jovens. Tanto na temática do racismo, como na homofobia, juntamos as disciplinas de redação, história, geografia, física, sociologia e filosofia para trazermos essa discussão”, confirma Carlos André, professor e sócio-proprietário do Overdose, e também idealizador do projeto de unir cinema e respeito ao próximo e às leis em uma atividade extrassala.

Tudo começou com outro filme, cujo foco é o preconceito com a cor da pele. Após um episódio brutal que envolveu estupro da mãe e assassinato do pai, o jovem negro Eugene Allen é adotado por uma distinta senhora branca, que o transforma num especialista do bem servir. Até que ele ganha a oportunidade de trabalhar para o Presidente dos Estados Unidos e vira O Mordomo da Casa Branca (2013). Carlos André queria iniciar o projeto com esse filme, mas um velho problema do mercado das salas natalenses alterou seus planos. “Ele não passou aqui”. Com a vitória no Oscar, 12 Anos de Escravidão surgiu como substituto imediato. “Ao longo do ano, vamos trazer os alunos para outras sessões, ‘linkando’ com todas as matérias”.

A sala cheia foi a comprovação do interesse dos discentes. “Para você ter ideia do sucesso do projeto, as turmas que não vieram, como as do cursinho, reclamaram tanto que tivemos de inseri-los também, para as próximas vezes. Não tivemos como trazê-los para ver O Mordomo [da Casa Branca] aqui, mas vamos passá-lo na escola. E, para o ano que vem, queremos fazer o Ano de Mandela, em homenagem ao líder sul-africano”. Mais que religião e às próprias disciplinas lecionadas, a arte tem um poder moderador e difusor de pensamentos sem igual. Hipervalorização ou retrato fiel da realidade, ela tem a capacidade de extrair o máximo de percepção no interlocutor. Assim pensa Daivid Luan, de 17 anos, aluno do 3º ano.

Natural de Currais Novos, ele mesmo afirma ser fruto de uma engenharia social, através do esforço da mãe bancária, que o fez abandonar uma vida humilde no interior para estudar na capital. “A cultura é a parte espiritual do ser humano. Sem arte, somos como um computador cheio de informação, mas sem sabermos interpretá-las. A proposta de virmos assistir a um filme como 12 Anos de Escravidão merece parabéns. Nos faz ver como temos que mudar individualmente para o coletivo funcionar. O primeiro passo para a mudança é o estranhamento, vermos o quanto revoltante é o preconceito. De qualquer espécie. Todas as classes são iguais. Aliás, não existe classe, existe ser humano”.

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