Ex-atletas questionam ‘abalo’ da Seleção e capitão do Tri critica Thiago Silva

Carlos Alberto Torres estranha reações do time. Zagueiro se defendeu após ‘isolamento’ e choro, que levantam mais dúvidas sobre estado emocional da equipe

Thiago Silva, Felipão e Murtosa após partida contra Chile. Foto: Divulgação
Thiago Silva, Felipão e Murtosa após partida contra Chile. Foto: Divulgação

Thiago Silva caminhou com Luiz Felipe Scolari no campo do Mineirão, vazio, na sexta. Tentou aliviar a tensão, que o persegue desde dos dias anteriores à estreia, como sua própria mãe já contou. Na sexta, dia de decisão, com casa cheia, foi difícil segurar a pressão, que foi ao limite com as cobranças de pênaltis. O capitão Thiago pediu para ser o último a bater (depois de Julio Cesar) e chamou a atenção de todos no Mineirão por afastar-se do grupo na roda que antecedeu as penalidades.

A reação surpreendeu torcedores, ex-jogadores e até um ex-capitão, Carlos Alberto Torres, que ergueu a taça em 1970. Thiago Silva usou as redes sociais ontem para responder críticas e dizer que isolou-se, sentado numa bola, para uma oração. O capitão chorava no sábado. Poucos entenderam.

“Gostaria de ver o pessoal mais para cima, inclusive o Thiago. É uma critica no bom sentido. Ele tinha de estar no meio do campo gritando, não ficar para baixo. Ele é o capitão”, afirmou Carlos Alberto.

Vários atletas “desabaram” com a vitória nos penais no Mineirão. A questão emocional é vista como preocupante por Felipão, que tem a psicóloga Regina Brandão trabalhando com o grupo desde 26 de maio. E o técnico reconhece:

“A equipe é nova. Mesmo os mais experientes sentem em uma Copa do Mundo. Se disser que não sente está mentido. É um emocional diferente”, afirmou Scolari.

As lágrimas já apareceram até em Neymar, que mostra frieza em campo, como artilheiro do time (quatro gols) e dois penais convertidos: na estreia e nas disputas decisivas contra os chilenos. Quem já viveu o vestiário da Seleção, no entanto, tem ficado incomodado com as reações de Thiago Silva e dos demais jogadores brasileiros.

“Como ex-jogador, entendo um pouquinho das reações dos atletas e posso dizer que essa Seleção está abalada emocionalmente. Não é normal ver esse tipo de reação em diversos jogadores e a todo momento”, disse Ricardo Rocha, ex-zagueiro, que seria capitão em 1994 antes de se machucar. Zico, que jogou duas Copas do Mundo, já levantou o debate após o empate sem gols com o México.

“Foi um nível de tensão muito alto, mas isso pode nos fortalecer”, disse Fernandinho, à TV Globo, sobre a última partida.

Psicóloga não se manifesta

L!Net entrou em contato com a psicóloga Regina Brandão, que trabalha com Felipão na Seleção Brasileira. A profissional, apesar de ter dado entrevistas a respeito do seu trabalho antes da Copa do Mundo, afirmou que não pode dar declarações por questões de ética profissional. De acordo com Regina, não seria correto falar, principalmente, de um atleta em especial. Ela diz que existe um combinado com o treinador para não comentar o que é trabalhado. Ele também adotava tal postura no Palmeiras com Scolari.

Sâmia Hallage, especialista em psicologia esportiva, comentou as reações de Thiago Silva no último sábado.

“Quem não quer, não bate. Eu não critico o Thiago Silva, ao contrário, louvo a atitude dele. É um supercapitão e está sempre à frente, se impondo. Se fala que não quer bater é para aplaudir. Está tendo a humildade de reconhecer que não está bem e mostrando confiança no seu grupo, de que alguém está melhor e pode fazer isso”, comentou.

“Ele colocou o bem do grupo acima do individual. Isso passa uma imagem boa para os outros. A imagem de que ele sabe que é igual, que não é porque é líder que é maior que os outros. Os torcedores são muitos cruéis e julgam muito. Veem ele chorando e rotulam como fraco, covarde. O atleta é um ser humano”.

BATE-BOLA Carlos Alberto Torres – Capitão do Tri

‘Não é só o Thiago. Estou estranhando’

Você, como capitão de uma Seleção vencedora, como analisa as reações do time na Copa? E a postura do Thiago Silva?

Não é a primeira vez, né. Quando toca o Hino, não sei o que acontece. Estou estranhando esse comportamento, que não é só do Thiago. Estão colocando na conta da torcida, da empolgação. O time tem estar preparado para essa pressão, tem até psicóloga lá trabalhando. Tem de haver mais maturidade de todo mundo. Hoje não tem essa de ter 19, 20 anos. Hoje eles já têm experiência. Eu como muita gente estou estranhando essa reação para baixo.

O que fazer para não fazer com que isso prejudique o resultado?

Tem de colocar o pessoal para cima. Estamos na luta. O time não foi eliminado. O time está classificado, passou uma fase da Copa do Mundo, tem de ter alto astral. Não pode ter nhem nhem nhem, assim não vai ganhar p… nenhuma.

Como você vê desempenho?

O time está devendo. Não nos deu 100% a prova que está preparado, pode até ganhar. Mas não é aquela coisa. É a Copa no Brasil, com apoio da torcida, era para estar tinindo. Faltam três jogos e ainda se tem dúvidas se vai jogar Fernandinho ou Paulinho, Daniel ou Maicon… A Copa não espera.

O que você acha do Felipão?

Ele comanda o time bem, uma ou outra atitude que a gente reprova. Ele e o Parreira falarem que vai ser campeão, em mão na taça, colocam pressão nos jogadores. Queira ou não, jogar a Copa em casa mexe. Colocaram muita pressão nos atletas.

Como você avalia o Thiago?

É um baita jogador, é líder. Foi escolhido capitão porque tem todas as condições para isso. Não pode ficar para baixo assim, tem de vibrar, colocar os demais para cima.

Drama dos penais

Fim de jogo

Ao final da prorrogação, Thiago Silva sentou sozinho em cima da bola, na beira do campo. O capitão chorou muito, ficou isolado e pediu para não bater os pênaltis. “Quando você não está com confiança, não pode pedir para cobrar”, afirmou, depois do jogo, no Mineirão.

Na roda

Na palavra final de atletas e Felipão, Thiago Silva só apareceu ao ser levado por um membro da comissão técnica. Neymar, Fred, Julio Cesar e, principalmente, Paulinho, falaram. “Passei uma mensagem a todos jogadores, de alguma forma tem de contribuir. Muito se falou de não estar jogando muito, mas minha felicidade foi de ser um dos 23 convocados”, afirmou o volante reserva, que bateu no peito de alguns colegas e apontou o dedo na cara de outros. Ele falou cara cada um pensar nos familiares.

Erros e festa

Todos apoiaram demais os que erraram (Hulk e Willian), principalmente David Luiz. Com a vitória, a choradeira foi inevitável. Julio Cesar, que chorou antes, desabou depois. David Luiz o abraçou forte. Neymar ficou caído no chão.

Fonte: Lancenet

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