Ex-secretário nacional de Segurança diz que Ronda do Quarteirão “é fracasso”

Segundo coronel, Ronda é “exemplo de uso político na segurança”

José Vicente: “Se o Ronda do Quarteirão desse certo, o Ceará não tinha um dos maiores índices de violência do Brasil”. Foto: Divulgação
José Vicente: “Se o Ronda do Quarteirão desse certo, o Ceará não tinha um dos maiores índices de violência do Brasil”. Foto: Divulgação

“Se o Ronda do Quarteirão desse certo, o Ceará não seria um dos estados com os maiores índices de violência do Brasil. Então, quem apostar nessa estratégia está apostando errado”, aponta o ex-secretário nacional de Segurança Pública, coronel da Polícia Militar de São Paulo, José Vicente Filho. José Vicente é hoje um dos mais respeitados consultores em segurança do Brasil.

“O Ronda do Quarteirão é um exemplo de uso político da segurança. Ele pode até sensibilizar e enganar o eleitor desavisado, mas não traz resultados na prática”, analisa o coronel José Vicente, evidenciando que até o nome Ronda do Quarteirão é “puro marketing”.

A ideia de trazer o Ronda do Quarteirão para o Rio Grande do Norte está presente no plano de governo do candidato do PSD, Robinson Faria. O vice-governador da gestão Rosalba Ciarlini tem defendido a implantação como forma de diminuir os índices de violência do Estado. A se confirmar o que aconteceu em Fortaleza e no interior do Ceará, a proposta não renderá bons frutos ao Rio Grande do Norte.

De acordo com o coronel, os números da segurança pública do Ceará depõem contra a implantação desse tipo de iniciativa, seja no Rio Grande do Norte ou em outro estado do Brasil. Detalhe: José Vicente foi convidado em 2006 pelo então governador eleito do Ceará, Cid Gomes, para coordenar a implantação do programa e não aceitou porque “sabia que não ia dar certo”.

Levando em consideração os números da violência no Ceará, José Vicente tinha razão. Apenas em 2014, o número de homicídios cresceu 11,4% naquele Estado, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Ceará. Quando se compara os números dos últimos anos, a conclusão não é mais animadora. Desde 2009, o número de assassinatos saltou de 2,6 mil para mais de 3,5 mil por ano.

Dados do Mapa da Violência também atestam o descontrole na escalada da violência no Ceará, berço do Ronda do Quarteirão. O Mapa da Violência 2014 mostra que a taxa (assassinatos por 100 mil habitantes) cresceu 136,7% na última década. O índice faz do Ceará o quarto estado com maior crescimento. Quando comparadas as taxas de 2011 e 2012, o crescimento de 36,5% deixa o Estado em segundo no ranking das taxas de homicídios.

Além de ineficaz, o Ronda do Quarteirão é considerado caro. No Ceará, os gastos com segurança quase duplicaram, frente a um resultado prático ineficaz. Em 2011, a verba para segurança ficou em R$ 964 milhões (4,88% do orçamento) e, em 2012, passou para R$1,4 bilhão, 7,51% do total do orçamento.

Os pontos negativos do Ronda do Quarteirão não ficam apenas na seara estatística. Nos primeiros nove meses de implantação, em 2007, a população cearense se animou com a presença dos carros luxuosos comprados pelo Governo local para patrulhar as ruas.

Depois, só decepções. O programa foi alvo de críticas: ora pelo alto valor dos veículos “Hilux” usados no patrulhamento, ora pelo fardamento de luxo, curto tempo de formação dos policiais, entre outros problemas. “Não é carro Hilux ou farda importada que vão dar resultados para a segurança. É preciso atacar o problema de fato”, fala José Vicente.

 

Equívoco

Para o coronel José Vicente, o Ronda do Quarteirão ataca o problema da insegurança de maneira equivocada. A ideia do Ronda é fazer um patrulhamento em todos os bairros, independente da quantidade de crimes cometidos em cada um deles, mas, segundo o coronel, a metodologia da polícia em todo o mundo coloca como foco das ações policiais os bairros mais violentos.

“O patrulhamento da polícia precisa ser feito a partir dos relatórios de incidência de criminalidade. Precisa ir aonde está o problema. Há bairros onde os índices são menores e outros onde os índices são maiores. Você prover o mesmo policiamento para todos eles de maneira homogênea é uma ideia equivocada”, explica o ex-secretário nacional de Segurança, para quem é necessário colocar a polícia de maneira concentrada nos locais mais visados pela criminalidade.

Programas como o Ronda do Quarteirão ainda provocam uma divisão dentro da PM. Os escolhidos para trabalhar no programa, no Ceará, recebem equipamentos como farda e viatura diferenciados, além de uma gratificação. “Isso divide a corporação. O policial que fica de fora não vai ver com bons olhos esse tratamento diferenciado, o que causa uma cisão dentro da PM”, aponta o coronel José Vicente.

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