Exílio do futebol

Um churrasquinho de gato. Sonhei com um espetinho no ardor de uma fome de refugiado no deserto. Carne adormecida, lustrada…

Um churrasquinho de gato. Sonhei com um espetinho no ardor de uma fome de refugiado no deserto. Carne adormecida, lustrada de óleo apavorante pelo barraqueiro a bafejar cachaça, mergulhando meu desejo em farofa retardatária de dois ou três dias, de um amarelo chegando ao esverdeado.

O papo depois de um jogo inesquecível, ganho ou perdido, regado ao sabor de corar maître francês, sempre foi tão normal, tão frugal numa noite de domingo, que os domingos ganhavam ares simpáticos em suas manifestações celestes. Hoje, domingos são imagens de sarcófagos inacessíveis para quem testemunhou e viveu a atmosfera do futebol empolgante e vibrante.

Imaginei pelo simplório do futebol, abismado de paixão renascida, se haveria carrinhos de vender churrasco de gato às portas do suntuoso Estádio Santiago Bernabeu, em Madrid, nomeado basílica do futebol mundial acima de religiões e crenças, após a vitória de Messi sobre o Real por 4×3, o grito de olha eu aqui do esporte sobre a covardia das correntes que lhe aprisionam como se enormes campos fossem masmorras.

Quem viu Real Madrid 3×4 Barcelona, tem direito a uma reprise a cada três horas e meia. Está alforriado de livros de ponto, de cobranças horárias, está em pleno reencontro com o amigo distante há 20, 30 anos, aquele sujeito de confidências e travessuras que, de repente, lhe aparece com um livro de crônicas de Carlos Heitor Cony de presente.

Todos os governos mundiais poderiam parar suas negociações sobre projetos atômicos e nucleares e instituir na grade escolar de suas crianças e seus adolescentes universitários, a agradável obrigatoriedade do prazer.

O piano de Ennio Morricone seria a musicalidade perfeita. O samba idem, o tango à perfeição do passional portenho.,Da confirmação óbvia de o mundo tem dono e ele se chama Lionel Messi.

Participou dos quatro gols e a imaculada constelação galáctica é sua vítima predileta, a que sofreu mais em suas redes, como tigre transformado em bichano indefeso e miando de medo aos pés da dondoca proprietária.

Peço a quem não assistiu a partida do ano, duvido que na Copa do Mundo aconteça outra igual, não se exaltar na discussão tampouco insistir no ufanisto bobo de contrariedade pela exaltação de Messi, a Pulga. Não, não vamos comemorar o pênalti sofrido por Neymar e esquecer do principal.

Neymar sofreu o pênalti caviloso ao receber, como noiva ganha, docemente seu anel, um passe medido. Uma coleção de joias estava guardada no calção comprado em loja de criança e usado pela Pilga Hermana. Messi entregou um colar de canhota para Iniesta fuzilar aos 7 minutos e fazer 1×0.

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Um espetáculo de sufocar de espanto desaguando em alegria. Aos 28 minutos, o Real Madrid virou. Sua torcida, inutilmente, comemorou . Messi, rosto indecifrável de Esfinge de Gizé, empatou . Empatou entrando área dentro. Tão fácil.

Lembro do menino quando chegava ao parque de diversão e determinava ao pai, sem chatice, na liberdade infantil dos criados sem mimo: “Pai, quero um algodão doce que eu vou ali atirar de espingarda de chumbinho”. Acertava, beijava o pai e ainda ganhava moedinhas.

Barcelona x Real Madrid foi visto por cerca de 500 milhões de telespectadores em todo o planeta. Colossal. Xiixtas gritam: “Bom é Fred, Bom é Jô, quero ver é na Copa!”. Pobre cegueira dos despeitos. Barcelona x Real Madrid é a referência mundial, é a peleja de dois times e a luta de dois povos. O espanhol e o catalão.

A Catalunha é um país não reconhecido e se um dia for, Messi bem poderia sair candidato único a primeiro-ministrou ou a presidente. Nascido na Argentina, ele é universal. Só alguns brasileiros mantém o ranço contra os hermanos que também conservam a imbecilidade odiosa de jamais reconhecer a superioridade infinita de Pelé. Pelé será maior do que todos, sempre.

Messi hoje é inalcançável é já ultrapassou Maradona e Di Stéfano, símbolo do Real Madrid. Eles que vão reclamar do rapaz. O jogo do Santiago Bernabeu contrastou com o ridículo repetido terça, quarta, sábado e domingo pelo Brasil.

Em campeonatos estaduais, na participação pífia dos nossos times na Libertadores, no Mundial Interclubes, na insistência dos velhinhos de chuteiras e bengalas vagando entre asnos formados nas escolinhas de professores de Javanês Boleiro.

Humildade. A nação patropi, discretamente, deve encomendar cópias do jogo transmitido pela ESPN Brasil e buscar, do fundo do baú do orgulho, um consentimento de isenção. Espetáculo, grandeza, malícia, emoção, gols, sete, sete gols num clássico, é proeza de distância oceância.

O futebol não foi abduzido do Brasil. Ele pediu exílio e está longe, feliz da vida, espelhando Messi, um gênio cercado de craques preciosos. É perder tempo insistir na ilusão das falsificações destruídas ao sopro virtuoso da perfeição.

Noel Rosa

Messi brilhou tanto que faltou uma menção pra lá de honrosa para o argentino Di Maria, do Real Madrid. Magro e espigado, armador referencial. É a cara narigal do grande compositor carioca Noel Rosa. Em versos espanhóis.

 

Arthur Maia

Vestiu a camisa vermelha e saiu por aí. Até fazer um dos gols mais bonitos das terras potiguares. América mandou no jogo.

Jogo tranquilo

Inspirado, o camisa 10 do América comandou a partida domo diretor de bateria. Guiou a escola de samba sem perder a harmonia em tempo algum. Fácil.

Alecrim vence

É preciso comentar a vitória do Alecrim. O Alecrim venceu e não foi o ABC que perdeu. Além de injustiça com o Verdão, o ABC perdendo está virando hábito nefasto aos alvinegros.

Copa do Nordeste, miragem

Com a derrota para o Alecrim, outra vez o técnico Zé do Carmo punindo o menino Moisés e o goleiro Bruno Fuso errando feio, o ABC vai desperdiçando a Copa do Nordeste. No ano em que fará 100 anos. Triste.

Memória

Outros tempos. ABC 4×0 Mixto (MT), Brasileiro de 1985, dia 24 de março. Estádio Castelo Branco, público de 6.438 pagantes. Gols: Três de Arildo e um de Tião.

Times

ABC: País; Vassil (Jaílson), Luís Oliveira, Zé Adilson e Valdeci; Baltasar, Alex e Márcio Ribeiro (Arié); Capanema, Arildo e Tião. Técnico: Sebastião Leônidas. Mixto: Ronaldo; Valdemir, Ramiro, Gilson e Laércio; Cláudio Barbosa, Humberto e Luís Carlos (Luisinho); Gilson Bonfim, Geraldão e João Paulo (Valdevino). Técnico: Natanael Ferreira.

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