A faca e a lâmina

Os olhos sisudos sempre procuram rimas na poesia. Mais por vício do que por tradição de saber. Como se fossem…

Os olhos sisudos sempre procuram rimas na poesia. Mais por vício do que por tradição de saber. Como se fossem suas entranhas essenciais. Quando não acham, imaginam-se diante da poesia moderna. São olhos que não sabem. No poema, só o ritmo é essencial à tessitura das metáforas livres das cadeias dos gêneros lírico, épico ou dramático, tão caros à ciência e seus métodos.

A quem procura flores perfumadas sobre a escrivaninha, lamento informar: não há versos rimados no chão desses becos e nos vôos desses sonhos de Nassary Lee.
Em O Arco e a Lira, uma das mais eruditas exegeses sobre a criação poética, Octavio Paz avisa como se fosse um pórtico sob o qual, à sombra de suas arcadas, o leitor devesse meditar antes de entrar na leitura do livro: ‘A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono’.

Para ele, é um método de libertação interior que exige um exercício de experiências diante de algo que é o pão do espírito e, ao mesmo tempo, o alimento maldito. Só a profunda consciência de vivê-la é capaz de levar o caminhante à sua compreensão.

A poesia de Nassary Lee não cabe no olhar vago e circunstante do leitor temeroso de tentar a caminhada para sua descoberta. De morder esse pão em forma de versos fermentando nas mãos de uma jovem poetisa de 26 anos.

Os que procuram rimas hão de dizer que seus poemas são modernos e por isso são meros jogos de palavras. Como se as palavras não fossem as pedras do jogo da criação. Muito mais no seu caso, a ferir a candura da alma feminina descarnada de tudo, como revela no poema Mulher:

Já fostes morena, menina, menarca… madura
Envelhecestes em cor, mãe, avó… viúva

E joga outra pedra:

Incréu de tua sorte, mas forte, foras puta
Abandonas, pois, de ti, qualquer postura turva

Para concluir corajosamente inconclusiva, como quem larga a mão e abandona o leitor ali, já perto dos últimos versos, numa tática de dissimulação:

Sangue percorre a tua fornalha virginal
Banhando o mundo de tua seiva acolhedora: um boldrié

Na sua arte, dissimula como um bom comportamento e reinventa um rio. Quem sabe, talvez seja mesmo o Potengi. E nele navega entre barcos e becos, cascos e cercos, cacos e embargos. E em mais uma parábola, agora feita de ferros-farrapos, de trecos de tocos, céus de paus, colunas, verdumes, como se tudo fosse metáfora na tática da incompletude. Mas, de vez em quando, solta uma senha-âncora, silenciosa como as águas adormecidas em palafitas de longas dicções:

E os barcos, nos medos, viram como o renhir do não das virgens quando gozam
E as canoas, nas encostas, trepam com o furar de chão dos vermes quando atolam
É como se a poesia de Nassary Lee tivesse aquele claro enigma drummondiano, entre o lobo e o cão. Feita de coisas figuradas e não figuradas. Aparentemente reais e irreais, mas, sobretudo, de adornos que são verdadeiras iluminuras numa bem urdida renascença poética. Leitora de Umberto Eco, ela acredita e tenta com o destemor de quem não teme entregar ao leitor em múltiplas escolhas o que deseja dizer. Como no poema Obra Aberta, entre as cordas finas e misteriosas de enigmáticos alaúdes em tons de velhas cantigas de amor:
Só quis a entrega tua como fiz de minha doce amora!
Volta, Ulisses, volta?

Nem no poema Incompletudes Constantes a poetisa abre mão da tática de ser incompleta. Pelo contrário: é o testamento de sua partilha com o leitor. É tanto que avisa: instante é semblante. E é. Cada expressão é mutante e reinventa a fisionomia das palavras que usa como pedras de um instigante jogo de criação que joga no poema seguinte com o título exato de Jogo de Palavras:

Agora reticência nas arraias das palavras
Que nos cercam de saudade e medo

Ou, ainda, no poema Vem, no ódio de um amor enlouquecido:

Vem e me deixas beber também
Que é água de cólera.
Vem, me adoece.

Ou ainda em Iguais com seu jogo de rimas aparentemente inúteis e banais:

Feliz é a mosca
A vida, não; é tosca

Eis Nassary Lee que embora disfarce e dissimule muito bem, não é frágil como um enfeite natalino, para usar uma das suas belas metáforas. Da sua varanda varada de versos simula pedir o repouso, mas não deseja repousar. Sua alma tem o azul inquieto que fascinou Crusoé em longas viagens entre palavras-cardumes. Por isso mergulha no azul seus desejos. Perigosamente.

Vencedora de vários concursos, e com poemas já incluídos em antologias nacionais, Nassary Lee chega ao primeiro livro sem fazer da poesia uma máquina de rimar. Chega com as credenciais de uma verdadeira poetisa. Poetizando. Com a chama encantada dos seus versos, a faca e a lâmina luzindo nos becos e nos sonhos de uma grande poesia.

Vicente Serejo
Novembro de Nossa Senhora da Apresentação
do ano da graça de 2012.

 

Vozes poéticas

Espanto é a palavra certa. Foi a sensação que tive, na primeira leitura dos originais do livro “Entre Becos e Sonhos”, de um poeta ou poetisa, sob a máscara de um pseudônimo, que não guardei na memória. Eu fazia parte da comissão julgadora do Prêmio de Poesia Professor Oscar Pereira, da Cooperativa Cultural Universitária do Rio Grande do Norte, ano de 2007, juntamente com o poeta Lívio Oliveira, e presidida pelo escritor Bartolomeu Correia de Melo. À época eu me iniciava nos labirintos da internet, e a leitura do livro- que vim saber, depois, ser de uma talentosa aluna, de nome tão exótico quanto sonoro, Nassary Lee – causou-me aquela sensação inicial. Que permanece ainda, cinco anos depois, quando releio o seu livro.  Uma poetisa (gosto desse nome) que em seu livro me desvenda um mundo – o seu mundo -, para onde convergem vozes poéticas, de outros tempos e espaços, e outras mídias e suportes: o jornal impresso ou digitalizado, o livro, o e-book, o youtube. Em todo o seu livro perpassam os vestígios da tecnologia voraz e virtual, em tempo real. E surreal. Rastros da oralidade, em poemas para serem recitados, cantados ou gritados.

Ou salmodiados em seu lirismo sacro e dilacerante, ecoando  desde os tempos da poesia da Índia e os milenares Hinos do Rigveda. Indícios dos primeiros dias em que, na Grécia Antiga, a poesia foi fixada na escrita. E, séculos e séculos depois, impressa e reproduzida industrialmente para o êxtase das massas. Ecoam aqui vozes antiquíssimas e contemporâneas, poetas e poetisas: Madeviaca, Catulo, Safo, Sóror Juana de la Cruz, Santa Tereza d’Ávila, Marianne Moore, Ezra Pound, E.Dickinson, e.e.cummings, Alice Ruiz, Ana Cristina César – que a poesia é coletiva como já praticavam os hacaistas japoneses, e profetizava o francês (ou uruguaio) Lautrèamont. Despaisada desde os primórdios da criação, em seu não-lugar, ela atende por nomes de divindades que celebro, aqui, neste inútil escrito. Chamem-na pelo nome da paraense (ou natalense) Nassary Lee, da paulista Rita Lee (que me enfeitiçou numa noite fria e distante). Ou  Anabel Lee, nome pungente de musa.

 Jarbas Martins

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