Falcão sofre

Espreguiçar é ato olímpico de liberdade e deveria ser tornado universal por Barack Obama, pela ONU ou a bateria da…

Espreguiçar é ato olímpico de liberdade e deveria ser tornado universal por Barack Obama, pela ONU ou a bateria da Balanço do Morro, escola de samba lá do bairro praiano das Rocas em Natal. Em plena espreguiçada de feriado, consegui ler a entrevista de Paulo Roberto Falcão, gênio dos meus passados futebolísticos e comparável à elegância de um senador romano em campo.

Bem parecida com a Caras, em conteúdo e formato, a Revista Placar vem perdendo charme faz tempo. Não é mais o time de Juca Kfouri, Carlos Maranhão, Alberto Helena Júnior, Sandro Moreira e aqui e acolá os artigos afiados do mestre dos mestres, João Saldanha.

Falcão é desse tempo. Seu futebol transpunha ao campo à categoria dos escribas da revista semanal que ganhava dos livros de Matemática de 100 a 0 no Ibope da meninada que a aguardava toda quarta-feira.

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A Placar, enorme e bem diagramada, chegava quentinha de reportagens longas, fotos dos clássicos disputados no Ex-Maracanã e aqui no Castelão, trazia o inesquecível tabelão, cujo acervo inteirinho mantenho, sem perder uma edição sequer, com resultados de jogos, rendas e público, cartões amarelos, atestados de fanatismo.

Foi rolando de tédio e leniência que li o texto bem feito sobre o drama de Falcão. É, Falcão está vivendo um problema pessoal que resolveu abrir a todas as torcidas. Está frequentando psicanalista, psiquiatra para descobrir a razão de não ter dado certo de técnico ou não ter sido espetacular como jogava.

Paulo Roberto Falcão abriria o meio-campo de meu time imaginário, dos jogadores que cheguei a ver atuar em seleção brasileira acima da média. Seria assim o quarteto; Falcão, Sócrates, Zico e Rivelino. Na frente seriam escalados Romário e Reinaldo do Atlético Mineiro, Romário e Rivaldo ou Romário e Careca do São Paulo e do Napoli.

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Ronaldo Fenômeno, não. Ficaria assistindo, do banco, contando cédulas e decorando bajulações aos homens da FIFA, seus empregadores. Ele e Bebeto. Ronaldo Fenômeno e Bebeto formaram uma boa dupla que me faz calar qualquer questionador do talento de Romário. É só eu dizer assim:

- O que ganhamos com Ronaldo e Bebeto juntos no ataque? Nada. Perdemos Olimpíada para os nigerianos e ambos tremeram contra a França no passeio de 1998. Romário ganhou 1994. E sozinho.

A discussão para. O craque Falcão sofre um dilema terrível que eu, sem o menor juízo também, já desisti de enfrentar. Falcão quer ensinar aos jogadores de hoje o que eles não podem aprender. Sem a categoria de um Zé de Neném, velho investigador da delegacia de Furtos e Roubos de Natal, vai dando pistas que chegam ao ponto central do seu mau momento psicológico.

Falcão – campeão gaúcho pelo Internacional e também com passagem pelo Bahia, conta que buscava insistir nos fundamentos básicos aos seus comandados. No futebol, são o controle de bola, o passe, o chute, os deslocamentos inteligentes, o cabeceio, o drible já é para os privilegiados.

Falcão, por exemplo, driblava a passos de gazela. Dava um toquinho, desmontava dois ou três marcadores que tinham de ser repostos em oficinas de concessionários no esplendor da mecânica de mulher nua pregada em pôster nas paredes sujas de graxa e homens mal-encarados devastando motores.

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O Rei de Roma, como ficou conhecido nos anos de ouro de 1982 e 1983, quando luziu como o guia de um timaço, gosta de ensinar a obtusos. É um idealista confuso: “No Inter, peguei os zagueiros que eu tinha e fiquei 20 minutos com eles. Disse que gostaria que ficassem petecando a bola antes do treino. É a diferença entre o começar jogando e o sair jogando. Começar é só mandar o chutão para frente. Sair jogando é diferente. O detalhe é o diferencial.”

O diferencial que Falcão insiste em sonhar como marisco espremido em rochedo, é a falta de talento nato. Falcão teve em seu time, dois dos maiores zagueiros que passaram pelo país: Em 1975 e 1976, no bicampeonato brasileiro, quem saía jogando e não começando era Elias Figueroa, chileno que pode ser escalado em qualquer seleção dos melhores da história. Falcão queria o mesmo das tarântulas atuais?

No tricampeonato de 1979, um menino de 17 para 18 anos parecia um cardeal, distribuindo hóstias na passagem da bola da defesa para o meio, para o Centro de Inteligência onde estavam os pés de Falcão em vida própria. O menino chamava-se Mauro Galvão. Que nunca desarmou na grosseria, na pancada. Desmoralizava os atacantes.

Falcão, fazendo a revista de divã, reclama do tratamento dispensando pelos grandes clubes aos velhos ídolos, citando a si próprio e a Zico no Flamengo. Falcão ainda sonha em ser técnico. É obstinado como cara que jogava nas três da armação e finalizava igual a artilheiro.

O que Falcão jamais entenderá é que seguirá inútil de Quixote loiro. Aluno despreparado não é salvo por professor competente. Ele sabe. Desde o dia em que entregou a camisa 10 da seleção a Neto, do Corinthians e hoje comentarista. Imperdoável. Já era preciso, em 1991, um divã para Falcão se deixar espreguiçar. Sabendo que prancheta não imita arte.

 

Recomeça
Com a apresentação dos novos times de ABC e América, volta o aquecimento do noticiário com a chegada de contratações.

ABC
O ABC não teve perdas significativas, dependendo do que ocorra com Rodrigo Silva. Bileu ter ido para o Náutico foi bom. Para ele e para o alvinegro. Foi bom enquanto durou.
 
O meia
Leandro Sena tem sua base pronta no América, se bem que a vinda do camisa 10 é tão fundamental quanto ter outros 10 em condições.

Arena
Inaugurar simbolicamente a arena com um teste de luzes é inovador. Bom dizer logo que é réveillon.
 
Em campo
Max, o Homem de Pedra, é um dos cotados para fazer o primeiro gol da Arena das Dunas. O América vai enfrentar o Confiança. E tem clássico ABC x Alecrim. Cuidado com os sergipanos.

Data histórica
26 de janeiro é uma data histórica, A Arena das Dunas será inaugurada exatamente 31 anos após a única partida do Brasil em Natal. Foi 3×1 na Alemanha Oriental no saudoso Castelão.

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