Falta de medicamentos na Unicat gera revolta, angústia e crises em usuários

Sesap reconhece problema e promete regularização da entrega de alguns itens para esta semana

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Alessandra Bernardo

alessabsl@gmail.com

“Preciso desse remédio para viver. Sem ele, já passei mal, fico muito cansado e com falta de ar, já vai fazer dois meses que venho aqui quase todos os dias e volto para casa sem nada. Só Deus para nos ajudar mesmo”, desabafou o aposentado Celimar Jerônimo, na manhã desta terça-feira (02), ao sair da Unidade Central de Agentes Terapêuticos (Unicat) sem o medicamento Alenia, que ele usa de forma controlada há três anos, por problemas respiratórios graves. Assim com ele, outras pessoas também voltaram sem os remédios que necessitam para continuar o tratamento médico que pode garantir a vida.

É o caso da dona de casa Eunice Silva, que precisa tomar diariamente o medicamento Bosentana 125 mg, indicado para o tratamento de hipertensão pulmonar. No entanto, ela está há dois dias sem tomá-lo, o que já rendeu uma crise da doença ontem à noite. “Pensei que ela fosse morrer nos meus braços. Os médicos já a desenganaram, deram apenas dois anos de vida a ela, mas com o remédio, ela já está viva há quatro anos, então, posso dizer que minha esposa precisa desse medicamento para viver, sem ele, ela vai morrer e não vai demorar”, afirmou o marido de Eunice, o comerciário Davi Albuquerque.

Ele explicou que era a segunda vez que ia à Unicat e que havia sido informado que o medicamento estava em falta e que não há previsão de chegada deste, que é importado. Hoje, ele recebeu uma declaração da unidade para procurar a Defensoria Pública e tentar garantir o recebimento urgente do remédio, que segundo ele, não é comercializado no país. “Mesmo que fosse vendido, não teríamos condições de comprá-lo, por ser muito caro. Infelizmente, foi feito o pedido para importação dele há mais de três meses, mas até agora, nada”, desabafou, desanimado.

Quem também deu viagem perdida até a Unicat, situada no bairro do Tirol, foi Francisco de Assis Silva, que viajou de Caicó para Natal, em busca de receber o Alenia, medicamento para um parente, que possui problemas respiratórios. Com a carteirinha da unidade nas mãos, ele disse que a última caixa do remédio foi entregue no dia 20 de julho e que desde então, não recebeu mais nenhum medicamento.

“Desde o dia 20 de agosto que venho aqui todos os dias, tentar receber, mas sempre me dizem a mesma coisa, que não tem e também não há previsão de chegada. Enquanto isso, os pacientes que necessitam dele estão à míngua, pelas mãos de Deus mesmo, porque, se for esperar que secretário ou governadora faça alguma coisa, está difícil. Não tem nem amostra grátis. Isso que estão fazendo com as pessoas é genocídio, estão tirando da saúde para investir em áreas sem prioridade popular, como o estádio para a Copa do Mundo”, afirmou.

A revolta também é presente na fala do servidor municipal Francisco Iremar, que viajou de Caiçara do Rio do Vento, distante 140 quilômetros da Capital, em vão. Ele reclamou a falta do medicamento Evista, indicado para osteoporose e cuja última caixa ele recebeu no final de março passado, ou seja, cinco meses. “As pessoas vão vivendo como podem, com dificuldades e sabendo que, mesmo que o remédio chegue, esse tempo todo que elas ficaram sem ele vai prejudicar e muito o tratamento, infelizmente”, afirmou.

Sesap reconhece falta de medicamentos

Após inúmeras reclamações feitas por usuários que recebem medicamentos na Unicat, a Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap) se pronunciou sobre os medicamentos em falta na unidade, que conforme uma lista circulante na internet e que não teria sido fornecida pela unidade, seriam 34. Pela Sesap, apenas dez remédios não estão sendo distribuídos. Destes, alguns devem ter a entrega regularizada ainda nesta semana.

Conforme nota oficial divulgada pelo órgão hoje, alguns medicamentos dependem do repasse de recursos da Secretaria do Planejamento e das Finanças (Seplan) para o pagamento dos fornecedores. E que há ainda medicamentos com problemas na licitação, cuja cotação não segue o preço estabelecido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “De 143 itens distribuídos e estabelecidos pelo Componente Especializado da Assistência Farmacêutica do Ministério da Saúde, 10 medicamentos estão em falta, o que demonstra que a Unicat está com o percentual de 93% de abastecimento dos itens de dispensação”, diz o documento.

Conforme a Sesap, na relação que circula pela internet, constam medicamentos que estão sendo distribuídos normalmente na Unicat, medicamentos não padronizados pelo SUS, outros itens padronizados para distribuição por parte dos municípios, além de medicamentos que são fornecidos em apresentações diferentes e que estão disponíveis em estoque. “A Sesap reconhece as dificuldades vivenciadas e reforça o seu empenho em regularizar o fornecimento dos medicamentos em falta”, esclarece a secretaria.

 

Sesap corta adicional

de 2,3 mil servidores

A partir deste mês, cerca de 2,3 mil servidores da Sesap que estão atualmente cedidos a outros órgãos das esferas estadual, municipal e entidades filantrópicas, terão o adicional de insalubridade cortados dos seus vencimentos. O ato da secretaria, em cumprimento à notificação 1281 de 2014 do corpo técnico do Tribunal de Contas do Estado (TCE), foi decidido após auditoria operacional que detectou o descumprimento da lei do plano de cargos e carreira da Sesap, número 333, de 2006.

Os valores das gratificações variam entre R$ 80 e R$ 200 para profissionais de nível médio e elementar e entre R$ 1,3 mil e R$ 2,7 mil para médicos. De acordo com o documento, a cessão de servidores da saúde deve ser apenas para a área do Sistema Único de Saúde (SUS). Ou seja, se ocorrer para outros órgãos que não sejam âmbito da Sesap, que aconteça apenas sobre vantagens físicas e não transitória, como é o caso do adicional de insalubridade. A diretoria do Sindicato dos Servidores em Saúde do Rio Grande do Norte (Sindsaúde) se pronunciou contra a medida e exige manutenção do adicional de insalubridade. Para o Sindsaúde, a medida é um ataque aos servidores, motivada pela falta de verbas na saúde estadual.

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