Famoso por “A Insustentável Leveza do Ser”, Kundera é exímio ensaísta

Em “Um encontro”, ele traz observações políticas e literárias sobre nomes, como Philip Roth, Garcia Marquez e Francis Bacon

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Conrado Carlos

Editor de Cultura

Um escritor é um intelectual, certo? E como tal, trava uma luta contra observações alheias sobre sua conduta moral e posições políticas, em oposição ao que lhe interessa revelar: sua capacidade de produzir boa arte. Engajado ou ‘alienado’, ele, às vezes considerado uma reserva de probidade e retidão, sobretudo em períodos de agitação social, serviu de oráculo para muitos movimentos nacionais do passado. Quando natural, a participação de um artista em reuniões populares é, no mínimo, admirável e inspiradora – ao contrário da turminha global que embarcou no oba-oba dos protestos no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Filiado ao Partido Comunista Tcheco e um dos articuladores da Primavera de Praga, em 1968, Milan Kundera ilustra o primeiro exemplo. Sem radicalismo ou adesão fervorosa ao marxismo-leninismo que assolava o leste europeu, uma fuga para Paris, em meados dos 70s, o alijou do conforto de sua terra natal, mas abriu um leque de possibilidades em uma nação livre e predisposta a acolhê-lo sem delongas. Foi na capital francesa que ensaios sobre música, pintura e literatura ganharam retoques sociológicos e filosóficos, em uma produção que mostra a polivalência do autor de “A insustentável leveza do ser”.

Parte dessa produção está agrupada no livro “Um Encontro”, recém-lançado no Brasil pela Companhia das Letras. São comentários lúcidos e peculiares sobre a obra de medalhões, como Francis Bacon, Doistoiévski, Céline, Philip Roth, Gabriel Garcia Marquez, Rabelais, Beethoven e Schönberg. Mas também aponta o dedo para o desconhecido (e até obscuro), em textos sobre o islandês Gudbergur Bergson, o polonês Marek Bienczyk e a conterrânea Vera Linhartová. A força dos ensaios forja uma curiosidade imediata no leitor, quanto às peças analisadas – já anotei “O Cisne”, de Bergson, que Kundera grifa como um dos romances que melhor aborda a infância.

De sacadas, como “os protagonistas dos grandes romances não tem filhos”, o mítico “Cem anos de solidão”, aquele cortejo de indivíduos originais de uma mesma família, é usado como base para questionar a modernidade. Através de Roth, “o professor do desejo”, o “historiador do erotismo americano”, o sexo chega até a ficção sem romantismo (perfeito para quem ‘faz amor’). E da música de Janácek, seus genes estéticos foram marcados para sempre como resultado do amor a pátria, ainda que distante.

Milan Kundera um dia acreditou em socialismo com face humana. Pensava em transformar seu país em modelo dentro do esquema soviético, em que liberdade, democracia e progresso coletivo seriam palavras registradas no dicionário. A carta aberta ao mexicano Carlos Fuentes compara sua Tchecoslováquia com a América Latina, caldeirão cultural que, vai e volta, abraça ditaduras disfarçadas com humanismo barato e populesco. Publicado no exterior em 2009, “Um Encontro” foi o jeito sensível que um escritor poderoso ‘encontrou’ para sugerir caminhos à espera de visitantes.

 

Um Encontro

Autor: Milan Kundera

Editora: Cia das Letras

Preço médio: R$ 37,00

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