“Diário da Guerra do Porco” é tratado psicológico contra ‘bundas certinhas’

Na era de peitos e bundas mais que perfeitas, idosos devem aceitar a falência corpórea e viver com os iguais, pensa a maioria

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Conrado Carlos

Editor de Cultura

Lembro que a repercussão em torno de Marcela Temer, mulher do vice-presidente da República, Michel Temer, permitiu várias interpretações. A primeira delas, e mais óbvia, é que a beleza da loira ao lado de expressões sisudas e assimétricas era destoante. A segunda girou em torno da diferença de idade entre os dois – ele com 72 anos, ela, com 29. Foi comum ouvirmos que “Ela está com ele pelo dinheiro”, “Agora é que não larga o osso”, “Mulher nova com homem velho sempre termina em traição”.

Na era de peitos e bundas mais que perfeitas, um homem na última fase da vida deve aceitar a falência corpórea e viver com os iguais, pensa a maioria. A suspeita coletiva que recai sobre a veracidade de um relacionamento fora do padrão dominante, na verdade, revela o preconceito contra velhos, mesmo que ele seja rico e influente. A regra diz que é inaceitável uma bela e jovem mulher se envolver com um caquético septuagenário – as mais cruéis questionam como seria o sexo.

O tema velhice conduz o “Diário da Guerra do Porco”, de Adolfo Bioy Casares, livro escrito em 1968, quando o argentino tinha 55 anos e começava a perder a estampa de galã. Como um tratado psicológico e crítica social, divagações e vivências de Isidoro Vidal sobre nostalgia, inadequações, saúde, moralismo e sexualidade traçam um rascunho do que está embutido nos comentários depreciativos em relação ao casal Temer – assim como nas ‘estripulias’ de Suzana Vieira e seu garotões.

Vidal é um cinquentão que mora com o filho em um cortiço de Buenos Aires. Enquanto aguarda pelo depósito mensal de sua aposentadoria, frequenta um grupo de amigos (mais velhos) para beber, jogar truco e falar da vida alheia. Uma existência inútil e depressiva, lamentada em palavras como “cheguei a um momento da vida em que o cansaço não serve para dormir e o sono não serve para descansar”. O desespero intensifica com a notícia de que uma brigada de jovens tem matado velhos a chutes e pauladas.

Dois de seus amigos figuram entre as primeiras vítimas. Resta perambular em busca de explicação para o horror, ao mesmo tempo em que a resignação acomete parte de sua turma. Enquanto isso, Nélida, uma jovem moradora do cortiço, desperta o ralo instinto sexual de Isidoro (as reflexões sobre a vergonha que um coroa ou um velho passa ao confundir cordialidade com paquera são geniais). Com o desenrolar dos crimes, a intimidade dos dois aumenta.

Como sugere o título, as confidências de um homem solitário, discriminado, enfraquecido e deteriorado, em uma sociedade alicerçada na imagem da juventude, mostram a falta de perspectivas e os maus tratos que os mais jovens designam a esses seres invisíveis. Ao querer subverter a ordem, o velho é tratado como porco, sujo, imoral, repugnante.

 

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