Felipão, óbvio

Felipão, show de pragmatismo. Aplaudi empertigado igual vereador de interior em sessão de entrega de 200 títulos de cidadania. Usando…

Felipão, show de pragmatismo. Aplaudi empertigado igual vereador de interior em sessão de entrega de 200 títulos de cidadania. Usando paletó lascado atrás. Felipão estava compenetrado ao analisar os adversários da seleção brasileira e deu uma juntada do zagueiro grosso que foi, no repórter afoito após pergunta sobre Espanha ou Holanda como adversário nas oitavas. “Se pensarmos nas oitavas, esqueceremos os primeiros adversários”.

Perfeito, Felipão, perfeito. Bola pro mato, que a batalha é de Copa do Mundo, Copa que você ganhou com Anderson Polga e Vampeta entre os 23, portanto, tem estampa para fazer mágica. Felipão respeita Croácia, “um time que joga certinho”, Camarões, “seleção que já aprontou com muita gente” e especialmente o México, “pela tradição”.

Mexicanos merecem atenção reverencial do técnico brasileiro. Os mexicanos antes levantavam seus sombreros em resignação contemplativa quando colecionavam goleadas tomadas do Brasil que driblava e tabelava em ritmo de chorinho ou samba de raiz. Hoje o ritmo é de rock pesado, metaleiro ou funk, porrada, pancadão, pegada de agressividade.

Felipão reagiu sorrateiro. Nada de Espanha ou Holanda agora. Agiu até parecido com Garrincha, que nunca ligou para adversários futuros. Nem presentes. Garrincha estranhava a comoção dos companheiros quando acabavam as copas que ele ganhava destruindo defesas com Pelé e Didi. Achava um torneio “mixuruca e sem segundo turno”. Preferia enfrentar Olaria e Bonsucesso pelo Campeonato Carioca.

Depois que Felipão encerrou sua entrevistas e os teóricos engravatados retornaram a decifrar os resultados do Mundial de 2014, imaginei um encontro surreal entre Mané Garrincha e Felipão.

Um Botafogo e CSA de Alagoas, time pelo qual o técnico da CBF foi capitão e xerife. Em 1962, pouco antes da Copa do Chile. Garrincha arrancando e Felipão indo para quebrar. Furioso, pernas abertas. Nem seria preciso puxar a bolinha do pote. Fernanda Lima e Elza Soares, ansiosas. Felipão, óbvio.

 

Segurança
FBI, SWAT, CIA, Mariners, navios de guerra. Estaremos seguros com os Estados Unidos jogando partida de Copa do Mundo em Natal. Aparato de intervenção.

História
Pelos quatro títulos mundiais da Azzurra e os dois da Celeste, Itália x Uruguai no dia 24 de junho de 2014 já está na história como um dos maiores eventos do Rio Grande do Norte desde sua fundação.

Cidade mudará
Natal será outra com os jogos que receberá. Culturas distintas, povos apaixonados por futebol, miscigenação. Gregos, italianos, japoneses, norte-americanos, mexicanos, africanos, uruguaios. Talvez a Fifa providencie um crachá para que possamos sair de casa sem precisar passar por revista rigorosa: Natalense. Escrito em letra maiúscula.

Estrutura
É agora que se mostra uma verdade: A Copa exigirá muito mais do que uma luxuosa Arena das Dunas.

Costinha na CBF
“Mas espie, esse homem é a cara do finado Costinha.” Era Neta, nossa assessora especial para assuntos internos, ao focar o sorteio dos grupos da Copa. O dito que ela lembrava era Costinha, o humorista. Ela recordava na hora da entrevista de Carlos Alberto Parreira, coordenador da CBF. Neta achou as queixadas iguais.

Daniel
Quando Daniel era simplesmente Daniel, fez um bom Campeonato Estadual pelo América. Quando lhe puseram o Amora de sobrenome, apagou no Brasileiro da Série B. Jogador com nome composto transforma o futebol em catálogo antigo de empresa telefônica. Tem jogador com nome de praça, de biblioteca e de alameda. Gostava dos Didis, Zicos e Dedés. Daniel agora é do ABC e poderá somar se voltar a apresentar a boa cadência que virou sonolência no segundo semestre.

De cinema
Amora é um tipo de fruta. Uma das mais famosas inspirou um clássico do cinema: Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman, Oscar de Melhor Roteiro Original em 1960. Produção sueca em preto e branco, nova conjunção de cores da camisa de Daniel, o volante que tenta voltar a florescer.
 
Pontos corridos
Muita gente culpa a fórmula de pontos corridos pela desmotivação do Campeonato Brasileiro. É um equívoco proposital. Não existe ingenuidade no futebol. No mundo inteiro, a competência é premiada pela fórmula do melhor sendo campeão pelo maior número de pontos conquistados ao longo dos anos.

Enganoso
O sistema de mata-mata, criado nos anos 1970, com fases intermináveis, era enganoso. O começo do campeonato tapeava o torcedor com quase 100 clubes participando. Quando os 20 que realmente decidiam se cruzavam, perdiam-se meses e atendia-se aos desejos politiqueiros da Ditadura.

Casos
Times com melhores campanhas foram prejudicados sem os pontos corridos. O Atlético Mineiro em 1977 fez uma campanha muito melhor que a do São Paulo. O Coritiba foi campeão em 1985 decidindo contra o Bangu egresso de uma segunda divisão disfarçada. O Vasco em 1988 pontuou mais que o Bahia e perdeu uma prorrogação sendo eliminado. Os pontos corridos premiam a competência.

Falta talento
O que a ingerência do dinheiro na mídia nacional impede de ser dito pela força dos grandes contratos de merchandising é que o futebol brasileiro murchou. O Cruzeiro, campeão por antecipação este ano, não passaria do 10 ou 15º lugar nos bons tempos de craques sobrando.

Comuns em alta
Hoje, uma mesa-redonda dedica duas horas a um jogador comunzinho do tipo do meia-atacante William, igual a duzentos que passaram por times mediados na Era Castelão dos anos 1970 enfrentando ABC e América. É a mediocridade. O Cruzeiro de William levaria de 9×0 do Cruzeiro de Dirceu Lopes e Tostão. Para não fechar na humilhação dos 10.

Falcão 2×0 Rivelino
No dia 7 de dezembro de 1975, a Máquina Tricolor montada pelo presidente Francisco Horta perdeu uma das semifinais do Campeonato Brasileiro para o Internacional em pleno Maracanã por 2×0, gols de Lula, criado nas Rocas, e Carpegiani.
 
Competição x arte
O futebol competitivo do técnico Rubens Minelli superando a arte do Fluminense do genial Rivellino e dos bailarinos Carlos Alberto Pintinho e Paulo Cézar Caju diante de 97.908 torcedores. Na outra semifinal, disputada no Arruda, o Cruzeiro, com exibição exuberante do meia-atacante Palhinha, eliminou o Santa Cruz dos atacantes Nunes e Ramón: 3×2.

Flu e Inter
Os times de Flu e Inter. Fluminense: Félix; Toninho, Silveira, Edinho e Marco Antônio; Zé Mário (Pintinho), Rivelino e Paulo Cézar Caju; Gil, Manfrini e Zé Roberto (Cléber). Internacional: Manga; Valdir, Figueroa, Hermínio e Chico Fraga; Caçapava, Carpegiani e Falcão; Valdomiro (Jair) , Flávio e Lula.

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