Fernando Chiriboga lança livro com 340 imagens de prédios históricos do NE

A ideia de traduzir o Nordeste em fotografias surgiu durante uma viagem à Quito, sua terra natal, cujo centro histórico é o maior e melhor preservado da América do Sul

Da Bahia de Todos os Santos, onde Brasil começou, a São Luís do Maranhão, Chiriboga percorreu 11 mil km para desvelar engenho humano. Foto: Fernando Chiriboga
Da Bahia de Todos os Santos, onde Brasil começou, a São Luís do Maranhão, Chiriboga percorreu 11 mil km para desvelar engenho humano. Foto: Fernando Chiriboga

Conrado Carlos

Editor de Cultura

Na hora em que autografar o primeiro livro na noite de amanhã (20), o fotógrafo, artista plástico e designer gráfico Fernando Chiriboga fechará um ciclo de dois anos. Responsável por imagens que vendem hotéis e Natal como destino turístico mundo afora, ele usou esse tempo para conceber seu 11º livro, a estreia fora do espaço geográfico potiguar. Relíquias – Patrimônio Arquitetônico do Nordeste do Brasil o fez percorrer os noves Estados da região, para registrar edificações que compõem a história nacional. Feito um amante excitado a caminho de um encontro com amada, ele rodou mais de 11 mil km para apresentar ao público o fruto do tempo investido na idealização, elaboração do projeto, captação de recursos e, claro, das fotografias. Em uma sessão especial de lançamento na Livraria Saraiva, a partir das 19 horas, os 340 cliques escolhidos a dedo ganharão vida.

A ideia de traduzir o Nordeste em fotografias surgiu durante uma viagem à Quito, sua terra natal, cujo centro histórico é o maior e melhor preservado da América do Sul, com mais de cinco mil imóveis. “Foi aqui que o Brasil começou e sempre achei o Nordeste lindíssimo, com uma história em cada lugar, mas muito mal preservado. Então, quanto viajei a Quito, o que faço todo ano, vi que poderia ajudar a mudar um pouco essa mentalidade com um livro sobre a arquitetura dos centros históricos”. E ele foi para a Bahia de Todos os Santos. Em Salvador teve início à expedição organizada em família – sua esposa Leila Maria, os dois filhos e um sobrinho formam a ‘Trupe Chiriboga’. Pesquisas antecipadas e nos locais retratados foram feitas pela equipe, que viajou no próprio carro do fotógrafo.

De origem basca, Chiriboga mora em Natal desde 1985 – ano em que veio estudar arquitetura e urbanismo, através de um intercambio cultural. No curso, lapidou o olhar para formas geométricas e a estética de construções antigas, hoje sufocadas pela rudeza do cimento das urbes modernas. Para evitar a autodestruição em curso, ele jogou luz em cenários que parecem ter os dias contados. “História sempre fascina, e a arquitetura tem papel fundamental nisso. Se houvesse educação para explicar isso às pessoas desde pequenas, seria mais difícil de vermos a destruição de alguns centros históricos. São Luís, por exemplo, precisa de um maior cuidado”. Fernando acredita que, em algum momento, os monumentos do passado deixarão de existir. Daí a relevância de seu trabalho – por outro lado, capitais, como Recife e Salvador souberam explorar sua paisagem construída com restaurações exitosas.

Ao ser bem recebido pelos natalenses, naquela época de profundas mudanças políticas, sociais e culturais (Diretas Já, Sarney, Rock In Rio, etc), Fernando conheceu uma faceta do povo nordestino que ele costuma valorizar: a hospitalidade. Mesmo assolada por uma onda de violência sem precedentes, a região surrealista por natureza foi explorada com tranquilidade, durante os seis meses de peregrinação. “Claro que eu não arriscava em certos lugares, mas foi um dos trabalhos mais agradáveis que fiz. Até nos centros abandonados, o nordestino é muito receptivo” – em Quito, cujo complexo de casarões, sobrados e igrejas clássicas, barrocas e neogóticas de origem espanhola, declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco em 1978, a simpatia da população é similar. Nem os fortes terremotos sazonais e a fragilidade econômica de antanho degradou monumentos, como a Iglesia de San Francisco e a Basilica del Voto Nacional.

“Foram duas ‘viagens': uma de reconhecimento e captação, outra na hora de editar”. Apaixonado pela arte surgida no século XIX, Fernando Chiriboga fala sobre o prazer no instante em que selecionou o que seria publicado e da possibilidade de arcar com custos que beiraram os R$250 mil, para todo o projeto (já inclusas as três mil cópias de Relíquias, dentre as quais 600 serão doadas para bibliotecas publicas e cursos de artes de todo o país, como determina a Lei Rouanet, utilizada com o patrocínio do Grupo Neoenergia). “Sem a lei de incentivo, o livro não sairia ou custaria uns R$300,00. Minha mulher sempre brinca que não paro de ‘ver’ fotografias. Eu vejo em todos os lugares e, para isso, recomendo ler livros sobre o tema e ver fotos, pois isso é o mais importante”. Irrequieto com seu obturador, ele anuncia um novo projeto para o final de 2014: “Quero fazer uma ligação, através da fotografia, entre os arquipélagos de Fernando de Noronha e Galápagos”. Feito uma espécie em evolução, postou parte da obra de Charles Darwin em sua cabeceira – e nós esperamos mais este presente.

 

 

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