Fest Bossa & Jazz provoca delírio musical em frequentadores de Pipa

Noite do último domingo (24) encerrou Fest Bossa & Jazz 2014 com um dos melhores shows apresentados em solo potiguar, com o guitarrista americano Eric Gales; Sambossamba Blues (RN) e Jaques Morelenbaum & Cello Trio (RJ) completaram lista de atrações do festival que sacudiu praia do Litoral Sul

Foto: Conrado Carlos
Foto: Conrado Carlos

Conrado Carlos

Editor de Cultura

 

Jorge Ferreira estava agitado, na noite de domingo passado. Na companhia da chef Rosário Galvão, ele se virava para atender clientes e conversar sobre como saiu de Curitiba e foi parar em Pipa, após um périplo que incluiu uma temporada na Nova Zelândia e outra como garçom na Disney, na Flórida. Entre esfihas, kibes e kebabs, sua eloquência chamava atenção pela velocidade e conteúdo, dentro do quiosque do Árabe da Pipa, restaurante que mantém na praia com sucesso. Um estabelecimento que às sextas-feiras tem o Cabaré do Saber, cujo palco aberto recebe poetas, músicos e quem tiver alguma ideia na cabeça. Sarau de poesias eróticas costumam ser organizados, enquanto a Quinta do Vinil e as 1001 Noites atraem colecionadores e simpáticos à cultura oriental. “Está sendo um ano ruim. Teve Copa e tem eleição. Muita gente passa, mira e anda, sem comprar nada. E ainda tem festa de forró acontecendo direto, o que não tem nada a ver com a imagem de Pipa. Eu não quero vender para o playboy gordinho que escuta Garota Safada e não sabe o que é uma esfiha”. Estávamos no intervalo antes do show de Eric Gales e eu tentava anotar as palavras de Jorge.

Para muita gente, essa mistura de tribos é que cria o Ambiente Pipa. Como se do contato entre o riponga e o cara da camisa de jogador de polo e óculos estiloso saíssem vivencias únicas. Mas para uma parcela expressiva dos nativos, ver uma enxurrada de meninas maquiadas feito boneca e sujeitos que amplificam o stereo do carro para circular na rua principal soa como uma afronta. É como se gritassem: “Nós fugimos da sociedade de vocês e criamos a nossa no meio do nada, tempos atrás. Então fiquem onde estão e nos deixem viver em paz”. Polêmica instaurada, lembrei de Jorge ao ver outdoors da festa Pipa Paradise, com Wesley Safadão e Bell Marques, no trajeto de volta para casa. Talvez a onipotência da balada caipira-baiana tenha incomodado o paranaense que em 2009, ano em que visitou a praia quatro vezes, decidiu vir de mala e cuia – ele frequentava desde o começo da década passada. Sua expectativa com o Fest Bossa & Jazz é sempre grande, por ser “o evento mais esperado pela comunidade daqui, que atrai um público interessante, que gosta de um som erudito. Não aqueles maluquinhos que só vem fumar um. Mas, sim, o pai dele”.

Por R$5,00 comi uma esfiha de espinafre com ricota que ainda persiste em minha memória gustativa. Nas duas horas anteriores, entretanto, a fome que senti foi outra: de ver e ouvir boa música. E assim como a comida árabe de Jorge, tanto o Sambossamba Blues como o Jaques Morelenbaum & Cello Samba Trio saciaram meu apetite. O primeiro é uma turma de Natal que apostou em um repertório em versões de gêneros e estilos variados, como o rock nacional (“Pro dia nascer feliz”, do Barão Vermelho) e internacional (caso de “Roxanne”, do The Police”). A coesão da banda e talento dos músicos contribuiu para que a suavidade imprimida em alguns temas mantivesse o vigor do original. O charme da cantora Michelle Régis foi outro fator decisivo para a apresentação ganhar aplausos efusivos – assim como o vocal e a guitarra de Wagner Andrade, convidado especial que soltou o vozeirão em clássicos como “Georgia On My Mind”, do mito Ray Charles. O público reduzido (por ser domingo e ainda no começo da noite) foi contemplado com um bela releitura de músicas universais, com a bossa nova no comando criativo.

Já a proposta do violoncelista, compositor, arranjador, maestro e produtor Jaques Morelenbaum foi em direção a atmosfera que a arena do Fest Bossa & Jazz exalava. Na edição de ontem (25) falei sobre a estrutura armada em meio as árvores e ter o tamanho ideal para a fruição musical. Juntamente com seu Cello Trio (juntos desde 2003), Jaques fez a plateia transcender com a sonoridade do instrumento (violoncelo) que traduz a natureza como poucos. Em certo momento, ele pediu silêncio ao público, comparando a situação com uma folha em branco para um arquiteto na iminência de começar um projeto. Qualquer tinta extra, qualquer rabisco feito por terceiros, quebra a harmonia. Na música que ele propõe é a mesma coisa. Se existia alguém desacostumado com o que ouvia, o respeito foi imediato. Quase em transe, todos acompanharam sua leitura para “Coração Vagabundo”, de Caetano Veloso, para quem Jaques trabalhou por 14 anos como diretor musical, e “Outra vez”, de Tom Jobim. Acompanhado por Lula Galvão no violão e Rafael Barata na percussão, ele causou ótima impressão e revelou porque Milton Nascimento e David Byrne (Talking Heads) o convocaram para gravações.

Eric Gales

Peço licença ao assessor de comunicação do Fest Bossa & Jazz, Gustavo Farache, para uma grata discordância. Em conversa via telefone, ele destacou o show de Glen David Andrews, no sábado, como um dos melhores das cinco edições do festival. Sem dúvida que o showman de Nova Orleans sacudiu a praia de Pipa com seu soul-jazz-funk festivo. Mas o que o guitarrista Eric Gales fez no encerramento foi para entrar nos anais da música ofertada aos potiguares. Comparado a Jimi Hendrix pela mídia especializada (Gales é canhoto e toca o instrumento sem inverter a posição das cordas, o que aumenta a dificuldade e demonstra técnica elevada), o blues-rocker de Memphis, no Tenessee, cidade onde Elvis Aaron Presley virou rei, entorpeceu os presentes com solos e riffs em sua Fender Stratocaster. Em plena lua de mel com a mulher, uma bonita backing vocal com quem juntou as escovas de dente dois anos atrás, ele brincou com o fato de estar pela primeira vez em Pipa – sendo a terceira no Brasil. Foi um show digno de qualquer festival mundo afora.

“Sonzeira da p…”, falou Erivaldo ‘Caicó’, colega lutador que trabalhou na organização e segurança do evento, com a filhinha de dois anos no colo e extasiado com uma miscelânea de riffs que foi de “Back In Black”, do AC/DC (do sétimo álbum de estúdio dos australianos, o primeiro após a morte do vocalista Bon Scott, em 1980, interpretada pelo substituto Brian Johnson) e “Kashmir”, do Led Zeppelin. Eu estava congelado com a mirada no palco, quando um sujeito passou a meu lado e disse empolgado: “Esse cara é bom pra c….!”- como a energia visceral do futebol, o rock estimula o lado proibido da língua portuguesa. Destaco duas faixas autorais de Gales que mereceram o repeat depois que cheguei em casa. Ambas do disco “Crystal Vision” (2006). “Hush” e “Me and my guitar” tem melodia, suingue e energia suficiente para animar até o mais cansado dos seres. E foi o que aconteceu, com a unanimidade estampada em bocas abertas e cabeças sendo batidas para todo lado. Gales poderia tocar a noite inteira que ninguém arredaria pé do festival que terminou com a certeza de que os 365 dias até a próxima edição serão aguardados por amantes da boa música.

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