Festa emociona os verdadeiros heróis da Arena das Dunas

Em uma noite como protagonistas, seu Francisco e Damião lembram histórias que vão desde a construção do Machadão até o novo estádio

A festa de confraternização dos operários contou com shows da cantora potiguar Khrystal e da banda Brilhantes do Forró. Foto: José Aldenir
A festa de confraternização dos operários contou com shows da cantora potiguar Khrystal e da banda Brilhantes do Forró. Foto: José Aldenir

Juliana Manzano
Editora de Cidades
juliana.manzano@hotmail.com

Sessenta anos, dois estádios construídos e muita história para contar para filhos, netos e bisnetos. Assim pode ser resumida a vida de muito trabalho e suor do carpinteiro Francisco Tomaz de Lemos, um dos quatro mil operários responsáveis pela construção do estádio Arena das Dunas e que já tem seu nome registrado, junto com os demais, na placa feita em homenagem aos trabalhadores e descerrada ontem durante evento de confraternização dos operários com suas famílias.

Participar da construção do estádio considerado como um dos mais belos do país e que sediará quatro partidas pela Copa do Mundo FIFA 2014 já é um orgulho e tanto para a família de seu Francisco. Mas a ‘intimidade’ dele com obras de equipamentos esportivos já vem de longa data: a construção do estádio Machadão, concluído em 1972 e a derrubada do mesmo, em 2011.

Aos 18 anos, o jovem Francisco foi trabalhar na construção do estádio Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, que à época ficou conhecido como Castelão, e depois passou a se chamar João Cláudio de Vasconcelos Machado, o Machadão, palco de tantas conquistas do futebol potiguar. A construção durou cinco anos e ele trabalhou durante o último, em 1972, seguindo o exemplo do pai, que esteve presente à obra desde as primeiras fundações. Na construção da Arena das Dunas, a história se repetiu e o seu Francisco pode ‘colocar a mão na massa’ ao lado do filho, Sérgio Henrique Lemos, de 37 anos, que atua na função de técnico de planejamento da construtora OAS.

Para seu Francisco, ver a Arena das Dunas pronta, inaugurada e participar de uma solenidade em homenagem aos operários junto com a família é inexplicável. “Eu estou muito emocionado porque eu pude participar de três momentos muito importantes. Eu ajudei a construir o Machadão, depois participei da derrubada e ergui esse estádio lindo aqui também. É muito gratificante para mim e ver o orgulho que a minha família está sentindo não tem preço”, afirma o carpinteiro, que participou do evento acompanhado da esposa, do irmão, filhos, nora, genro e neta.

Ao seu indagado sobre qual dos dois estádios teria dado mais ‘trabalho’ para construir, seu Francisco é enfático: o Machadão. “Foi muito mais difícil porque em 1972, nós não tínhamos toda essa estrutura e modernidade que temos agora. Hoje tudo é maquinário e naquela época tudo era manual. Não tinha guincho, não tinha nada. Este, apesar de ser maior e mais moderno, posso até dizer que foi mais fácil. O trabalhador faz menos esforço pesado e produz muito mais”, pontua o orgulhoso pai de dois filhos e avô de quatro netos.

Natural do município de Coronel Ezequiel, Damião Vieira da Silva também foi um dos homenageados na noite festiva. Ele chegou à Arena como servente de pedreiro, quando tudo ainda era barro. Trabalhou durante os dois anos e cinco meses de obra e sempre teve a certeza de que o estádio ficaria pronto e que a arquitetura dele encantaria a todos os natalenses e turistas que viessem conhecer Natal.

Com 49 anos e pai de três filhos, Damião disse que jamais imaginou entrar em um estádio com tal beleza e modernidade. “Saí do interior e nunca imaginei nem entrar em um estádio assim, quanto mais de fazer parte da construção dele. Não consigo descrever o que estou sentindo. É muita emoção estar aqui hoje vendo que eu fiz parte dessa história, sendo homenageado pelo meu trabalho e ter minha família do lado em um momento como este. Mostrar para a minha família algo que eu não pude ter na juventude é muito gratificante”, enfatizou Damião, que ao final da obra passou para a função de auxiliar de serviços gerais e já demonstrou vontade de continuar trabalhando no local. “Se me quiserem aqui, estou disposto a ficar”, concluiu.

 

Seguindo os passos do pai

O filho de seu Francisco, Sérgio Henrique Paiva de Lemos, trabalha na empresa OAS há 12 anos e já participou de obras para a construção de barragens, pontes e adutoras. Mas ver a Arena das Dunas ser erguida no coração da capital potiguar teve um gostinho diferente por dois motivos: esta foi a primeira obra que ele participou em sua cidade de origem e também primeira a trabalhar ao lado do pai.

Este sentimento, que envolve emoção, orgulho e gratidão, não é lá muito fácil definir, segundo ele. “Essa foi a primeira obra que trabalhei junto com meu pai. Acompanho o grupo OAS há 12 anos, mas nunca tinha trabalhado na cidade que eu nasci, que é aqui em Natal. Mas foi uma experiência incrível e hoje estou muito orgulhoso de ter contribuído com isso tudo e, ainda mais, por ter tido meu pai sempre perto de mim.

Realmente, é um sentimento que não é muito fácil de explicar”, ressalta o técnico de planejamento.

A caminhada, porém, foi longa e trabalhosa, mas o otimismo jamais deixou de existir na família Lemos. Para eles, não importava se este tinha sido o último estádio a começar a construção, muito menos, as críticas e o descrédito de boa parte da população.

“Foi um desafio tremendo, foi muito suor. Nós, que trabalhamos aqui, sempre acreditamos que a Arena ficaria pronta no prazo determinado pela Fifa. Mas a cobrança, a pressão da sociedade sempre foi muito grande. Entre nós também nos cobrávamos muito para atender às expectativas da população. Esta era uma obra completamente desacreditada e por isso a gente teve que correr atrás. Mas conseguimos e mostramos que era possível”, conclui Sérgio Henrique.

 

Confraternização e placa homenageiam trabalhadores

A festa de confraternização dos operários que trabalharam na construção da Arena das Dunas foi realizada na noite de ontem (23) e contou com shows da cantora potiguar Khrystal e da banda Brilhantes do Forró. A segunda cerimônia realizada no estádio teve a presença de mais de sete mil pessoas, entre trabalhadores, familiares e convidados. A primeira foi a inauguração oficial que aconteceu na última quarta-feira (22) com a presença da presidenta da República Dilma Rosseuff, da governadora Rosalba Ciarlini e do secretário geral da Fifa, Jérôme Valcke.

Durante o evento de confraternização, a governadora e os operários Francisco Tomaz de Lemos e Damião Vieira da Silva descerraram a placa em homenagem aos mais de quatro mil operários responsáveis por erguer o estádio. O secretário Extraordinário para Assuntos Relativos à Copa, Demétrio Torres, o diretor presidente da Arena das Dunas, Charles Maia e o diretor presidente da OAS Arenas, Carlos Eduardo Barreto também participaram deste momento.

Em seu discurso, a governadora parabenizou os operários acompanhados de seus familiares e agradeceu pelo empenho e pelo trabalho realizado por cada um deles. “A Arena, antes de mais nada, é de quem lutou, suou, trabalhou e colocou aqui os seus esforços e seus sonhos. Essa placa ficará em um local privilegiado e, no futuro, os seus filhos e netos passarão por aqui e vão localizar o nome de vocês e dizer que vocês fizeram parte dessa história. Construíram essa obra maravilhosa, elogiada por todos, esse gol de placa, esse templo do esporte e da cultura, que vai impulsionar o nosso turismo e gerar mais emprego e renda. Vencemos a descrença, vencemos aqueles que achavam que o Rio Grande do Norte não era capaz. Somos capazes, é a força do trabalho, a força da nossa gente. Operários, vocês são os heróis dessa história”, afirmou Rosalba Ciarlini.

ESTRUTURA

A estrutura do estádio conta com 39 camarotes, dois mega-telões digitais, dois vestiários, área de aquecimento, centro de imprensa, sala de conferência, controle de segurança com sistema de monitoramento de vídeo, sistema de sonorização, sistema de bilhetagem, 25 concessões de alimentos e bebidas, arena indoor para pequenos shows, 22 mil m² de área externa para realização de eventos, espaço VIP com assentos exclusivos, lounges de hospitalidade, escritórios, áreas comerciais, centro de mídia e TV, sala de conferência/auditório para 250 pessoas com cabine de som e tradução simultânea, 21 entradas para o público com controles de acesso, cinco elevadores, 120 banheiros, além de modernos conceitos de acessibilidade (estacionamento, assentos, rampas, banheiros e elevadores para portadores de necessidades especiais).

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