Festival de horrores da Copa do Mundo segue em seu segundo dia

Data em que Natal espalhou tapumes, fechou ruas o dia inteiro e varreu mazelas para baixo do tapete; com sorte, viraremos protagonistas de algum documentário vindouro

Conrado---Foto-Heracles-Dantas

Conrado Carlos

Editor de Cultura

De volta ao nosso festival de horrores, como seguimento do texto de ontem, o que houve no Zaire em 1974 tem um simulacro por aqui, com as vistosas arenas adornando paisagens urbanas degradadas – jornais estrangeiros adoram fotografias com o contraste entre as estruturas modernas e a vizinhança depauperada de lugares como Recife e Fortaleza. Natal não foge à regra. Sem favelas na redondeza, moradores de rua contribuem para a noção generalizada de que algo está errado neste reino pseudo-dinamarquês. A massa é afastada da festa feito solteiro que esconde insalubridades domésticas na hora de receber a gatinha – tem diaristas pra todo lado.

Inexiste pessoa que discorde do que foi dito desde 2009 por muita gente boa: o Brasil não tinha condições de sediar esse tipo de evento. Somos bonitos, expansivos e tropicalientes? Por supuesto. Pero esquisitos também – na ordem, as paixões nacionais são cadáveres, drogas e prestações. Só depois aparecem mulheres, automóveis e futebol. Mubutu, como bom tirano, tinha um escrete de garotas para se deliciar; e construía palácios e casas de campo para monarca europeu nenhum botar defeito. Presos a uma ideologia tacanha, como afirma o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, os governos Lula e Dilma trataram a infraestrutura nacional como uma guerra contra ‘O capital’ – a palavra Privatização para essa gente soa como Satanás para um cristão.

Mas soltaram crédito para a classe C acreditar na bonança primeiromundista. “Chegou nossa vez!”, gritou um companheiro barbudo e comissionado. “A elite reclama do trânsito por preconceito com a população que melhorou de vida e agora tem carro”. Certo, eles têm dinheiro para pagar as sessenta prestações que vocês empurraram planilha familiar abaixo, sem que o sistema educacional tenha acompanhado a volúpia consumista. Resultado: 43 mil mortes nas estradas, ruas e avenidas desse Brasil capenga, só em 2012 – some com os 50 mil assassinatos.

A nobreza futebolística é lotada em Zurique, maior e mais rica cidade da milionária Suíça. É lá que fica a sede da Fifa. Às margens do lago que toma emprestado o nome da urbe, decanos do jogo de bola recebem propostas para levar a festa aos recantos mais sombrios do planeta – existe bizarrice maior do que jogar uma Copa do Mundo no Catar, enclave de areia e petróleo cujo território é um quinto do potiguar e tem uma população que mal chega a dois milhões de discípulos de Maomé? Para os cartolas, pouco importa o legado. “Isso é problema de vocês. Queremos o estádio e bons hotéis para nossos amigos”.

O deslumbre que a Copa do Mundo causa nos brasileiros é inevitável. Como a cubana Tânia, encantada por ter ido ao McDonald’s pela primeira vez, tragédia cômica exibida no excelente documentário Surplus, a horda verde e amarela solta rojões com a festa pobre que os homens armaram para nos entorpecer. “Rice, beans, rice, beans”, diz a edição para apresentar o que tem no prato dos fiéis seguidores dos irmãos Castro e contrapor uma mulher que não para de falar em maçãs, peras e xampus, após uma breve viagem à Europa.

O vídeo feito em 2003, com produção sueca e direção italiana (Erik Gandini), concentra-se no choque entre desenvolvimento/consumismo versus meio ambiente/influência da indústria cultural e da linguagem midiática. Mais semelhante ao que estamos vivendo é impossível. A cortina estendida no palco acanhado do teatro brasileiro é feita de material vagabundo, mas promete uma peça colorida e condizente com o clima de euforia proposto pelo governo. As mazelas foram varridas para baixo do tapete e camuflaram uma realidade decantada por meio mundo – com tapumes, como no Pan-2007, no Rio. Com sorte, viraremos protagonistas de algum documentário vindouro, dentro de um pacote exótico e esdrúxulo.

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