Ficção macabra, 50 anos

Natal, anos 1960. Vestia um paletó que o tornava muito mais velho que os vinte e poucos anos da certidão…

Natal, anos 1960. Vestia um paletó que o tornava muito mais velho que os vinte e poucos anos da certidão de nascimento. Saía de casa, num dos bolsos, com o adorado terço deixado pelo avô. A noite começava a cobrir a cidade e a enfrentar o calor escaldante.

Durante o dia, o cidadão que ainda não era pai, nem casado ou enamorado estava, mas haveria de ter lindos herdeiros tementes a Deus, dava aulas de Educação Moral e Cívica, numa das tradicionais escolas da província.

Defendia os bons costumes, a fé como instrumento de sucesso na vida e a disciplina como rainha da harmonia. Heráldica da ética. Pregava a concórdia, sorria um sorriso sempre igual a cada um dos seus alunos entediados.

Corrigia os desatentos, lamentando não acumular então, a disciplina de Educação Religiosa (na época, só o catolicismo), geralmente sob a responsabilidade dos padres de verdade, ele que sonhara com uma batina até a descoberta de prazeres sexuais solitários. Na maldita noite do pecado, penitenciara-se com os joelhos dobrados sobre caroços de milho, que quase perfuraram sua ossuda pele de coroinha.

Na Igreja, igualmente ajoelhado, arquejado porque tinha quase 1,80 de altura, construía uma visão gótica sob os anjos, arcanjos, santos e santas da velha catedral. Recitava, calado, salmos, versículos, orações, segurando o terço e penetrando mistérios. Deus estava acima de tudo, há, sim, só ele. Em segundo lugar, a família como base irremovível de caráter e em terceiro, a hierarquia, a classificação rígida entre chefes e liderados. Um dia chegaria ao topo das patentes.

A pé mesmo, chegava à livraria onde era tratado como prodígio, pois já lera, rapazinho, Machado de Assis, José de Alencar, Euclides da Cunha e rejeitara blasfêmias como Marx e Engels. “Dionisíacos!”, berrava em certo fim de sarau, empolgado com os vinhos servidos e a matreirice dos velhos frequentadores.

Eram quase todos reacionários, conspiradores, alguns remanescentes espiões nazistas. Homens prósperos e exímios na sensibilidade financeira das simpatias paróquias, literárias e noticiosas. Relações monetárias servindo de borracha sobre o passado nefando.

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Naquele dia, que a noite acariciou e expulsou o calor, ele caprichara na reza solitária na igreja e não beberia. Havia vestido o terno preto, gravata da mesma cor por cima da camisa branca, porque seria iniciado noutra missão. Os velhotes estranharam quando ele saiu mais cedo do que o habitual horário.

O mais antigo, de aspectos nazarenos, relógio de bolso e bengala na mão esquerda insinuava, sentado numa poltrona secular: “Está tramando. Ele vai fazer enorme sucesso, é um dissimulado, um congregado do individualismo”. Brindaram ao discípulo todos em uma só voz e gole unânime de tinto espanhol , casta nobre, sangria dos seus segredos.

Sorrateiro como um vampiro, na quase-madrugada que colocara os últimos boêmios para dormir, bateu na porta de uma elegante residência à rua próxima. Veio um cidadão formal que o atendeu já sabendo da visita. “Ele o espera”.

Por não haver espelho, o solícito professor não viu brilhar os seus olhos nem deles desabrochar um sorriso idiota. “O senhor não sabe a alegria e o prazer de estar aqui”, derramou-se dobrando a coluna quase a ponto de beijar a mão do senhor sisudo a quem entregou uma lista.

Passou a narrar, com o êxtase da luxúria que lhe faltava: “Aqui estão, aqui estão todos, esse é da turma A, esse é da B, esse é da C, agitadores, comunistas. Em nome de Deus, peço-lhe humildemente que cumpra sua missão”. E despediu-se, sem ouvir resposta.

Na manhã seguinte, fez um olhar compungido quando vários carros militares pararam em frente ao colégio e homens armados desceram, algemando e prendendo adolescentes. Gritos, pancadaria e o seu aspecto de monge em contemplação

Alguns dos estudantes, nunca voltariam. Artificial no movimento de contorcer a cabeça, o jovem carreirista fez o sinal da cruz: “Deus os leve”. E foi dar sua aula estranhando com sincera teatralidade a algazarra regida por palavrões. Cena jamais vista por ali. Ao anoitecer, na livraria, embriagou-se até explodir em delírios: “Eu sou a pátria, a moral e a salvação”. Os velhinhos riram discretamente.

PS. Esta é uma história de ficção. Subliteratura de quinta divisão. Qualquer semelhança com personagens, atos ou fatos terá sido mera coincidência. Como fantasia devem ter sido os desdobramentos de 1° de abril de 1964, pesadelo que durou 21 anos. Delações, torturas, assassinatos e exílios. Mera ficção para quem não sentiu na pele e na alma a dor da tirania. E tenta misturar mensaleiro com perseguido político morto ou transformado em trambolho.

ABC na Copa do Brasil

Antes de pensar no América, domingo, o ABC tem pela frente a Desportiva do Espírito Santo no Frasqueirão, pela Copa do Brasil. O ABC precisa fazer 2×0 para garantir vaga. Perdeu por 1×0 a primeira em terras capixabas.

Dá para classificar

A Desportiva é a quinta colocada no Campeonato do Espírito Santo e desde 1994 não consegue passar da primeira fase na Copa do Brasil. Venceu o ABC num jogo onde o goleiro Bruno Fuso falhou feio e em Natal, o Frasqueirão também joga.

América contra o Boavista

O América vai ao Rio de Janeiro enfrentar o Boavista, quinto colocado no Campeonato Carioca. Vai encarar o adversário diferente e desfalcado. A principal ausência será a do meia Cascata, destaque do time no estadual e contratado pelo Sampaio Correia(MA), para disputar a Série B do Brasileiro.

Desfalques

O América não terá o zagueiro Edson Rocha e o atacante Adriano Pardal. Em compensação, contará, mais uma vez, com a ótima fase do meia Arthur Maia, camisa 10 que pinta como ídolo e brinca de fazer belos gols.

Barrar charanga

É o fim dos tempos e a intervenção se superando. A charanga da torcida Fera, do Alecrim, foi barrada no Arena das Dunas. Segundo seu fundador, professor Normando Bezerra, um preposto atribuiu o veto a uma decisão da Fifa. Não será surpresa a proibição da vaia em jogos de futebol em Natal, em sua maioria, sofríveis.

Série B

Enquanto as calças são engomadas no ritmo da canção antiga de Ednardo, restam a partir de hoje, 18 dias para a estreia dos times potiguares na Série B.

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