Filha e neta de Cascudo falam da dificuldade em manter o Casarão

O rosa salmão da fachada da outrora casa do maior intelectual potiguar merecia respeito

Uma programação especial foi preparada por Anna Maria Cascudo Barreto e Daliana Cascudo, filha e neta que defendem com unhas e dentes o espólio do polímata natalense. Foto: Divulgação
Uma programação especial foi preparada por Anna Maria Cascudo Barreto e Daliana Cascudo, filha e neta que defendem com unhas e dentes o espólio do polímata natalense. Foto: Divulgação

Conrado Carlos
Editor de Cultura

Ao estacionar o carro em frente ao Ludovicus – Instituto Câmara Cascudo, na última quarta-feira (18), senti raiva e decepção.  O casarão construído na alvorada do século XX, tinindo de novo após uma recente restauração, o que aumentou sua beleza, é mais uma vítima dos pichadores, esses seres incômodos e espectrais, meio invisíveis, feito ratazanas, que sentem prazer em emporcalhar residências, prédios públicos e monumentos históricos. Para eles, quanto mais sujo melhor.

O rosa salmão da fachada da outrora casa do maior intelectual potiguar merecia respeito – chega de impor penas brandas, como mandar limpar a área riscada ou trancafiá-los durante meses; a lei contra essa prática incompreensível deve ser revista. O portão aberto e o sorriso de uma funcionária no alto da escada trataram de conter minha bronca. “Esqueça isso e pense no que veio fazer”, soltou minha parte do cérebro guardiã da razão, grande rival da emoção que começava a tomar conta de tudo.

A guia Cilene Alves me convida para uma jornada por quartos, salas, banheiros e o espaço onde ficava a biblioteca de Luís da Câmara Cascudo, o homem que inseriu o Rio Grande do Norte no mapa brasileiro em uma época de isolamento econômico, geográfico e cultural. Ver a assinatura de Mário de Andrade, Juscelino Kubitschek, Ary Barroso e Heitor Villa-Lobos na parede azul de seu gabinete de trabalho é como testemunhar que a coisa poderia ter dado certo para o nosso lado, caso um único chefe do executivo promovesse uma espécie de New Deal papa-jerimum e educasse o povo. Para um paulista ou carioca das décadas de 1930 e 1940, se corresponder ou, melhor, visitar um nordestino para além da Bahia e de Pernambuco era como manter contato imediato de terceiro grau com um marciano. E Cascudo foi integrado, procurado, atendido por todos eles. Sem direito a recorrer da sentença, os pichadores deveriam saber disso.

Exposto o mobiliário, as entranhas caseiras e a atmosfera quase mística, faço uma breve incursão na lojinha do Instituto, onde vejo oito cópias do monumental História da Alimentação no Brasil e parte da ampla e variada bibliografia de Câmara Cascudo. Metros adiante, também com pressa, entro no Pavilhão Dáhlia Freire, ‘a flor sem espinhos’ do folclorista, onde 30 mil livros de sua biblioteca particular chamam a atenção. Aqui abro um parêntese para reproduzir dois ‘mandamentos’, dos dez que ele escreveu para a amada companheira. Antes que a turma do politicamente correto jogue as primeiras pedras, lembro que o machismo constituía um dos alicerces sociais do Brasil arcaico. “Não pedirás três vezes o que negarei duas vezes seguidas” e “Serás sempre meiga, falarás muito e terás ciúmes” não fez muito sucesso com minha mulher, mas provocam sorrisos incontidos até no xiita de esquerda que milita redes virtuais para atacar qualquer frase alheia a sua cartilha – “Não pedirás três vezes…” virou brincadeira de toma lá da cá entre eu e Carol.

No próximo dia 30, Câmara Cascudo completaria 115 anos, se estivesse vivo. Uma programação especial foi preparada por Anna Maria Cascudo Barreto e Daliana Cascudo, filha e neta que defendem com unhas e dentes o espólio do polímata natalense. Vai ter lançamento de livro de cordel, apresentações de poetas e grupo de caboclinhos e, sem dúvida, a presença de boa parte da intelectualidade do Estado. Ainda sob efeito da dor causada pela morte do irmão Fernando, em setembro passado, Anna Maria demonstra empolgação com projetos futuros, como o novo livro de 100 pequenas biografias, intitulado Mulheres Especiais 2 (o outro volume é de 2003). Cafezinho e água à mesa, a imortal da Academia Norte-rio-grandense de Letras relembra a dificuldade psíquica para começar a escrever. “Herdei de meu pai o bom humor, mas eu tinha um medo grande da comparação. Só depois que alguns amigos me incentivaram, como Valério Andrade e Diva Cunha, foi que perdi esse medo”.

Na madrugada que antecedeu a morte de Cascudo, um exemplo de sua postura para com a vida. “Ele vinha perdendo a audição, e nessa noite eu levantei e vi que ele estava acordado, assistindo a uma ópera com o volume da tevê muito baixo. Eu escrevi um bilhete perguntando como ele conseguia escutar a música daquele jeito. Ele respondeu: ‘Minha filha, sou professor de musica. Todas as notas estão em minha cabeça’. Ele tinha uma felicidade constante”, diz uma emocionada Anna Maria, Procuradora de Justiça aposentada e primeira mulher a atuar em um júri potiguar. A conversa com mãe e filha oscila entre a vida de Cascudo e o porvir do Instituto. Daliana enumera situações desagradáveis para um administrador. A falta de parceria com o poder público é a principal delas – o casarão de Câmara Cascudo fica na área do corredor histórico e cultural da cidade; teoricamente era para estar no pacote de R$43 milhões destinados pelo Governo Federal para a revitalização do entorno, dentro do PAC das Cidades Históricas.

A família se desfez de patrimônio pessoal para empreender a restauração do prédio, que consumiu cerca de quatro anos e milhares de reais para manter as características originais. “Foi feito com verba própria e com a ajuda de meu ex-sogro [já falecido], que era dono de uma construtora e nos ajudou muito. Sem ele, não teríamos feito nada. Nós cobramos R$3,00 de entrada, mas liberamos para estudantes, é claro, porque entendemos que eles devem conhecer isso daqui”. Daliana também informa que a saúde financeira do Instituto é mantida com os direitos autorais da produção de Cascudo, o que nem sempre garante o suficiente para a planilha mensal. “Da Prefeitura, nem o guarda municipal que ficava aqui nós temos mais”. De vez em quando, algum desocupado perambula pelos cômodos com um olhar curioso demais sobre as peças expostas – são quadros, esculturas e móveis, verdadeiras relíquias com valores incalculáveis.

Saímos do escritório da direção e voltamos à sala onde Câmara Cascudo, notívago confesso, produziu boa parte de sua obra – foram mais de 40 anos de moradia no casarão da rua que toma emprestado seu nome. É a hora das fotos. Enquanto isso, aproveito o tema do livro previsto por Anna Maria para ser lançado no segundo semestre do ano que vem e toco no assunto das biografias. Ela revela que já tem 74 narrativas prontas, que vão de anônimas garis e padeiras, até esposas de ministros, caso de Denise Pereira Alves, cara metade de Garibaldi Alves Filho, e gente do meio artístico, como Marina Elali e Titina Medeiros. Ela é a única nordestina aceita como sócia do Instituto Biográfico Brasileiro e para justificar seu voto contrário às revelações integrais, cita um episódio constrangedor que envolveu seu pai e uma suposta traição conjugal.

“Acho que a privacidade é uma coisa muito importante. Minha opinião sobre esse caso das biografias não é das mais aceitas. Acho que não acrescenta nada saber o que fulano fez em sua vida privada. Outro dia, eu estava em um evento e um produtor cultural, embriagado, bem conhecido aqui em Natal, veio dizer que meu pai tinha chupado os peitos de uma mulher num cabaré. Olhe, aquilo me chateou muito, me abalou mesmo. E me fez pensar no que isso contribuía para a história de meu pai. Pouco me importa o que ele fez ou deixou de fazer por aí”. A tradição católica era mantida em família, ainda que a curiosidade pelo candomblé tenha levantado suspeita de que Cascudo era adepto da religiosidade africana que sofreu uma simbiose com o catolicismo tropical. “Eu não podia nem passar na rua de Maria Boa [folclórica casa que abrigava moçoilas animadas, dispostas a agradar qualquer sujeito com a carteira recheada].

Nosso encontro renderia um dia inteiro de reminiscências. Afinal, como observamos praticamente todos os dias na imprensa local, falar em Luís da Câmara Cascudo (ainda mais para este escriba de parcos conhecimentos sobre a cultura local) é descobrir novos horizontes para um lugar posicionado na esquina do continente e no quintal do desenvolvimento. É raro uma semana em que faltem artigos ou reportagens com a figura máxima do saber nascida neste pedaço de chão com 51 mil km² e desenho de paquiderme. Daqui a duas segundas-feiras, lembraremos com orgulho de sua força de pensamento e obstinação de pesquisador nato. No entanto, a data poderia suscitar um questionamento quanto aos valores vigentes e às políticas públicas de (1) incentivo à leitura, (2) qualificação do ensino e (3) ocupação frutífera para uma juventude transviada. O “carinho e o bom humor’ com o próximo, notórios em Cascudo, seria um ótimo ponto de partida.

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