Filho de Dado Villa-Lobos, Nicolau, já acumula cerca de R$ 3 milhões

Filho do ex-legião urbana, Nicolau começou no pôquer quando um problema no coração o forçou a ficar de molho em casa

No dia 27 de maio de 2013, Nicolau Villa-Lobos ficou aproximadamente US$ 472 mil mais rico. Esse era o montante pago ao vice-campeão – no caso, ele – do Spring Championship of On-line Poker (Scoop). Trata-se do maior prêmio que um brasileiro já ganhou com pôquer on-line em todos os tempos. E Nicolau abocanhou a bolada jogado no sofá de casa, de cueca, com uma janela do iPad aberta no jogo e outra num episódio de Os Simpsons.

“E aí, Nicolau, como foi virar milionário de uma hora para outra?” “Bem”, ele ri, meio acanhado, “tecnicamente eu já era antes.” A afirmação não tem nada a ver com o fato de ele ser filho de Dado Villa-Lobos, ex-guitarrista da Legião Urbana. Nicolau se refere a conquistas anteriores a essa, em competições tanto on-line quanto presenciais, como o primeiro lugar no UK Ireland Poker Tour, realizado em janeiro do mesmo ano em Edimburgo.

Seu resultado mais vultuoso, no entanto, viria em outubro último, quando sagrou-se vice-campeão do High Roller World Series of Poker Europe (WSOPE), na França, perdendo apenas para o canadense Daniel Negreanu, para muitos o melhor do mundo. Nicolau arrematou mais US$ 620 mil. E terminou 2013 como o melhor jogador do Brasil, segundo o ranking do Global Poker Index. Nada mau para quem começou no jogo há apenas seis anos, quando um problema no coração o forçou a ficar de molho em casa. Não tardou para o rapaz se revelar um ás no esporte e mergulhar de cabeça nele, deixando o curso de cinema da PUC-RJ que fazia para depois.

Com aproximadamente R$ 3 milhões acumulados em prêmios até agora e um salário de R$ 5 mil pago pelo site 888poker, Nicolau poderia muito bem parar de jogar agora, aos 25 anos, que sua vida já estaria resolvida. Mas a hipótese está fora de cogitação. “Não é pelo dinheiro. Quero conquistar mais”, diz.

A seguir, Nico, carioca, namorado da Vick e ávido torcedor do Fluminense, dá outras cartadas certeiras.

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Como o pôquer entrou na sua vida? Em 2007, descobri um problema no coração. O sangue venoso misturava com o arterial. Um lado do coração estava trabalhando muito mais do que o outro.

Como você descobriu? Tive uma crise de ansiedade em Londres, o coração pulava na boca. Quando cheguei no Rio, fiz exame e descobri. Fiz uma operação de 4 horas, mas menos de 24 horas depois já estava em casa. Foi tranquilo, mas eu não podia fazer nada, tinha que ficar de repouso. Sempre jogava bola, surfava, andava de skate… De repente, não podia fazer mais nada. Então começou a rolar pôquer em casa, com os amigos.

Você nunca tinha jogado? Só de brincadeira mesmo, com meu pai, na praia.

Quando deixou de ser só brincadeira? Um amigo me chamou para jogar num clube no Rio. Duzentos reais para entrar. Paguei e ganhei.

O lugar era legalizado? Não. Era bicheiro que controlava. Voltei no dia seguinte e ganhei de novo. Frequentei um ano esse clube, depois saí. O clima era ruim, você ouvia falar de gente morta, umas histórias bizarras.

Olhavam estranho para você? Mais ou menos. Eles sabiam que eu estava ali pra ganhar. A maioria dos caras estava ali curtindo, jogando dinheiro fora.

E jogava on-line também? Também, em um site chamado JogoBrasil. Ganhei 15 mil euros em três meses. Até que o dono do site me cortou. Ele não tinha como me pagar.

E aí? Aí eu parei. Depois conheci outro clube, o Carioca, onde jogo até hoje. Vão as mesmas pessoas de quando eu comecei. O legal do pôquer é que você aprende mesmo com quem não sabe jogar. E ele é muito democrático também. No tênis, você nunca vai ter oportunidade de jogar contra o Nadal. No futebol, nunca vai trocar passe com o Messi. No pôquer você pode não só jogar contra o Negreanu como pode ganhar dele.

Não é um jogo de azar então? De jeito nenhum. Mas também não é apenas matemática, como dizem por aí. É muito mais um jogo de lógica do que de estatística. As cartas valem menos do que a análise de comportamento dos oponentes: o timing, tamanho das apostas, agressividade, o quão ativo está…

Você é preocupado com a imagem do jogo? Muito! As coisas estão mudando. A Poker Star [maior sala de pôquer on-line do mundo] contratou o Ronaldo Fenômeno para ser embaixador, a Band vai transmitir campeonatos este ano… Estamos saindo do gueto. Advogados e jogadores estão lutando por uma legislação adequada. A coisa toda vai ficar mais controlada. E isso é ótimo.

Como você ficou tão bom com tão pouco tempo de experiência? Eu sempre fui péssimo em matemática. Quase repeti dois anos seguidos na escola justamente por causa disso. Mas sou muito competitivo, sempre fui. Até hoje jogo o campeonato carioca de futebol amador só pela adrenalina. E estudei muito o jogo também.

O pessoal do pôquer no Brasil é unido, troca ideia? Cara, tem rixinhas, mas a galera fecha. Conversa muito sobre o jogo, debate mãos, situações… No fim, pôquer é só análise de situação. E é por isso que os jovens estão dominando o esporte atualmente. Os mais velhos estão acostumados a jogar apenas torneios presenciais. Em um ano inteiro, eles jogavam 70, 80 torneios no máximo. Hoje um moleque que bate cartão 10, 11 horas por dia on-line joga 80 torneios num mesmo dia, mil num mês, 15 mil num ano. Imagina quantas mãos ele já viu, quantas situações já viveu…

Tem muito moleque jogando 12 horas por dia? Porra, é o que mais rola. Tem muito profissional no Brasil hoje. Gente que é pedreiro mesmo, peão. Existe uma estatística de retorno financeiro. O cara pode bombar numa época, ter o big hit dele. Isso não se mantém, claro, mas dá para ele ficar ali ganhando o dele. Você apanha muito, então tem que ter um puta psicológico. Por mais que o saldo seja positivo no final do mês, você pode ter perdido 28 dias e ganhado só dois. Eu fiquei nesse esquema, acordando 6 da manhã e indo pro computador, até 2009. Depois desisti, achei que o pôquer ia ser só um hobby mesmo.

E o que você fez da vida nessa época? Trabalhei um pouco na Conspiração [produtora de vídeo] e no estúdio do meu pai. Foi foda, gravamos o disco da Vanessa da Matta, o Kassin era o produtor. Eu era assistente do engenheiro de som, carregava cabo, montava microfone.

Você nunca considerou viver de música? Eu toco guitarra desde criança, já tive banda… Mas sempre achei estranha essa coisa de ficar na sombra do meu pai.

Mas você sentia uma cobrança por ser filho dele? Não, era uma parada minha mesmo. Não quis entrar de cabeça. Mas gostei da coisa do estúdio.

E o que seus pais acham de você jogar pôquer? Assim que eu comecei a ganhar grana jogando, meus pais cortaram minha mesada. Ainda moro na casa deles, tenho cama, comida e roupa lavada, mas não recebo R$ 1 há cinco anos. Nem presente de aniversário mais eles me dão [risos]. Mas eles nunca proibiram. Minha avó não proibiu meu pai de ser músico, então eles não podiam fazer diferente comigo.

O que você faz com a grana que ganhou? Antes de tudo, estou me consultando com um advogado tributarista para deixar tudo certinho. Se eu quiser reclamar do governo, ser reconhecido, comprar um apartamento, tenho que fazer tudo certo. Mas é foda, não tem legislação própria ainda. Às vezes você tem que pagar dinheiro por um dinheiro que nem tem mais.

Mas você guarda tudo? Tenho um planejamento. Inves­ti em um amigo que está com uma pequena fábrica de brownies, a Brownie do Luiz.

Com o dinheiro que já ganhou, você poderia muito bem parar e viver bem para o resto da vida. Não pensa nisso? De jeito nenhum. Não é pela grana. Quero conquistar muito mais. Além disso, R$ 1 milhão para um jogador de pôquer é diferente de um R$ 1 milhão para, sei lá, um médico. Você usa parte do dinheiro para continuar jogando, né?

Mas no que mais você gasta dinheiro? Sou pouco esbanjador, cara. Nem tenho carro, ando de bicicleta até hoje. Gosto só é de comer. Gasto uma fortuna com delivery de japonês [risos].

 “Não tenho por que perder a cabeça. Meu maior ganho com isso tudo é viver do que gosto. Isso não tem preço”

Você encarna um personagem na mesa? Como é sua poker face? (Risos.) Não tenho, não. Mas tem gente que vai até de capacete [risos]. Eu sou eu. Falo pouco. Vou com esta calça aqui e sempre guardo a camisa do Brasil para a final. Fica na mala até a final. WSOP foi assim. É um jogo no qual a longo prazo a habilidade vai prevalecer.

Tem um ritual antes de jogar? Escuto música, só. Fico escutando os mesmos discos em loop. Em Londres, escutava o Random Access Memories, do Daft Punk, sem parar. Em Punta del Este, Blur direto.

E a coisa do vício? O risco de perder tudo no jogo? Eu te garanto: nunca vou perder fazenda na vida. Sou controlado. A disciplina é muito importante no jogo se você quiser chegar num nível alto. Mas muita gente perde a cabeça, claro. O cara não tem nada, aí ganha US$ 10 mil numa semana. Primeira coisa que vai fazer é fechar um camarote numa night. Bem ou mal, sou muito privilegiado, nasci e cresci no Rio, numa família incrível. Não tenho por que perder a cabeça. Continuo fazendo tudo igual ao que sempre fiz. Meu maior ganho com isso tudo é viver do que gosto. Isso não tem preço.

 

 

Fonte: Revista Trip

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