Filho de Telê Santana critica modelo da CBF e fala em kit Dunga

Ele criou o Instituto Telê Santana, a fim de tornar o futebol um modelo de vida para as crianças

Técnico comandou a seleção nas Copas de 1982 e 1986. Foto: Divulgação
Técnico comandou a seleção nas Copas de 1982 e 1986. Foto: Divulgação

Depois da segunda derrota em Copas do Mundo, em 1987, Telê Santana, o técnico que fez o Brasil reencontrar o futebol arte, se refugiou em sua ampla fazenda nas serras do Rio de Janeiro.

Da sacada, conversava com o tempo, com o passado, com as imagens frenéticas das disputas à sua frente. De repente abria os olhos e via o contorno das árvores se misturarem ao breu da noite e aos murmúrios do vento.

Então, ele ouvia passos nos pisos de madeira, um leve ranger da porta e percebia que seu filho, Renê Santana, então com 32 anos, entrava na sala, quieto. Telê se voltava, sentava na cadeira e esperava a chegada dele. E de frente para a mata escura, entoavam uma conversa cujas palavras se confundiam com o cricrilar dos grilos.

A névoa perfumada do jardim convidava à espontaneidade, inspirando, como um lindo drible ou uma jogada magistral, o desabafo do velho treinador. Entre um ou outro gole de cerveja. Entre uma ou outra baforada no cigarro de palha.

— Fiz o que era certo. É importante sempre jogarmos para vencer, mas sabendo o caminho da vitória. Vitória com violência, com deslealdade, com gol roubado, com antijogo, não tem graça, não tem mérito.

O filho ouvia o pai com um misto de admiração e compaixão. Sabia que, a partir daquele momento, teria de conviver com críticas que antes nem faziam parte da pauta do futebol brasileiro. Até então não havia dúvida de que a criatividade pura era o melhor caminho para as conquistas.

Trovões e raios devem ter riscado os céus da fazenda quase trinta anos depois, quando o Brasil foi impiedosamente goleado por 7 x 1 pela Alemanha, nas Minas Gerais de Telê, nas semifinais da Copa de 2014. Depois, na disputa pelo terceiro lugar, contra a Holanda, um time confuso perdeu por 3 x 0.

No banco, o técnico Felipão e o coordenador Carlos Alberto Parreira encarnavam aquele espírito combativo do futebol, que, diante de um time em ruínas, malograva todos os seus sonhos de grandeza e sua ilusão de invencibilidade.

Renê sabe que aquele “maldito” debate que se iniciou na era pós-Telê, quando o Brasil, jogando de forma plástica e ofensiva, foi derrotado em 1982 pela Itália e 1986 pela França, nas quartas, virou a nova sina do futebol brasileiro. Até hoje, o ex-volante Dunga, que retorna ao cargo de técnico do Brasil, insiste em lutar contra os Deuses do Futebol e, no avesso do avesso de Caetano, brada: “Futebol arte é defesa de goleiro e de zagueiro”.

Naqueles tempos, o próprio Telê já antevia com desgosto esse período amargo. Para a revista Placar, contou que ficou indignado ao assistir a uma partida entre Fluminense e São Paulo, no Maracanã. O São Paulo teve um jogador expulso, mas, ainda restanto muito tempo, o jogo se manteve modorrento.

— Nunca vi isso. O Fluminense, com um jogador a mais não pressionava. E o São Paulo, satisfeito com o resultado, só tocava a bola.

A partir dali o país parece ter perdido a identidade futebolística. Carrega esse fardo a cada Copa, viveu uma verdadeira cisão no esporte, uma guerra não declarada entre os adeptos do futebol apenas pragmático e os apaixonados pelo futebol, apenas. Renê foi testemunha da profecia do seu pai.

— Este rumo errado que foi tomado naquele momento está se consumando agora. Depois de quase trinta anos está se vendo quanto mal isso fez ao futebol brasileiro. Veio à tona uma discussão que nos levou a uma tolice. A de vencer a qualquer custo, sem saber como chegar à vitória. Uma vitória conquistada de qualquer jeito ofusca muitas verdades.

Instituto Telê Santana

Em homenagem ao legado do pai, Renê, criou há um ano e meio o Instituto Telê Santana que, a partir deste ano, está formando jogadores desde a infância, em Minas e no Rio de Janeiro. O objetivo, tão defendido pelo treinador, que morreu em 2006, é encarar o futebol como um instrumento de educação e um exemplo de comportamento na sociedade.

— Nestas conversas na fazenda, meu pai sempre falou sobre a preocupação dele em mostrar que o futebol não se resume às quatro linhas. É um modo de vida. Ele era preocupado com desvios de conduta dos jogadores, com a ética, com o respeito. Ele sempre quis encutir essa mentalidade nos jogadores, nunca se omitiu de sua responsabilidade. Em campo, isso tudo se traduz em um futebol bem jogado e leal, como ele gostava de ver. O Instituto Telê Santanta quer formar jogadores com outra mentalidade, uma nova geração.

O filho do lendário treinador encara a derrota na Copa de 2014 como um sinal da necessidade de mudanças. Mas, pelas atitudes da CBF, que chamou Dunga, um árduo crítico das campanhas da seleção em 1982 e 1986, de volta para o cargo de treinador, ele não acredita que a entidade está sintonizada com as necessidades do momento.

— A partida contra a Alemanha foi um presente para quem tem olhos para ver. Mas a CBF achou por bem não ouvir as opiniões, retroceder e contratar um ex-empresário como coordenador e o Dunga como técnico. Não há nenhuma proposta vinda deles. O novo técnico já vem com seus conceitos enraizados: o kit Dunga. Parece não haver outra alternativa, a não ser este círculo de interesses, baseado em pessoas da confiança daquele grupo, que não refletem o anseio da comunidade esportiva.

Renê tem a convicção de que somente o governo federal poderá tomar alguma atitude em benefício do futebol, chamando todas as partes envolvidas para adotar uma política de desenvolvimento e recuperação do chamado “Esporte das Multidões”.

— Além de celeiro de craque, o Brasil era um outro centro de referência tática, de boas ideias no futebol. Não éramos bons apenas pelos jogadores, mas por pensadores como Zezé Moreira e Telê Santana. Houve uma acomodação, em todos os sentidos. Não dá mais para, só o clube, os dirigentes, a imprensa resolver isso. O governo precisa ser o centro de decisão, cabe ao poder central mudar os rumos da política esportiva brasileira.

Na cabeça de Renê, aquelas conversas com o pai, na sacada, não terminaram. Ele sabe que, a partir de Telê, o medo de perder se tornou maior do que o prazer de jogar bem. O futebol brasileiro está em uma armadilha. E Telê, involuntariamente, ajudou a criar este problema. São, porém, os seus conceitos o caminho para resolvê-lo. Na nova Era Dunga, a figura de Telê está mais presente do que nunca. Como o reverso de uma mesma moeda.

Fonte: R7

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