Filme coreano mostra que a vingança bate nossa porta em alguma hora

Ele fará de tudo para rever a tática de agressão e atingir o nervo ciático do oponente

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Conrado Carlos

Editor de Cultura

Acredito que alguns leitores tenham visto o filme coreano “Old Boy”. É um transtorno cinematográfico lançado em 2003 que virou Cult por misturar violência, suspense, romance e conspiração. Em uma breve sinopse, eu diria que é a história de um homem que fica quinze anos preso em um quarto apenas com uma televisão, por motivo desconhecido. Ao ser libertado, parte em uma investigação frenética em busca de respostas para tal absurdo.

Sei que narrativas cujos personagens acordam ou ganham a liberdade de uma hora para outra e empreendem investigações contra culpados por seu sofrimento são antigas – A Bela Adormecida que o diga. Mas o que “Old Boy” tem de diferente é exatamente o óbvio que aparece na origem do filme: o fato de ser uma produção oriental, o que quer dizer sensivelmente brutal para nós outros ocidentais.

A vingança que Oh Dae-su procura esbarra em dois problemas: ele é o principal suspeito de ter matado a própria mulher (estava embriagado, na farra, na noite em que foi sequestrado) e não consegue se adaptar facilmente à vida em sociedade. Spike Lee planeja uma versão americana de um dos dez melhores filmes asiáticos de todos os tempos – segundo telespectadores da CNN; Tarantino se diz fã da película.

A analogia dos quinze anos preso em um quarto pode ser transferida para qualquer situação que o expectador tenha vivido. Seja um recomeço de vida amorosa, biológica ou profissional. Quem passou anos em um casamento ou emprego claustrofóbico e limitante sabe o quanto é amedrontadora a perspectiva de pisar em solo desconhecido, após tantos anos de inércia e comodismo. Cada um usa a arma que dispõe.

É o rival do futebol, o ex-conjuge que já está com outra, o vizinho que ganha muita grana. Ninguém quer ‘passar embaixo’ nos conflitos cotidianos. E a vingança, unha e carne com a inveja, bate nossa porta em alguma hora. Até mesmo no desdém (sempre a melhor solução). Nada mais sofrido para um provocador do que ser ignorado. Ele fará de tudo para rever a tática de agressão e atingir o nervo ciático do oponente, nem que para isso tenha que ir às últimas consequências – baixarias inclusas.

E, muitas vezes, falseamos experiências para nosso deleite (ou, no mínimo, alívio). A literatura serve de exemplo. Quem se mete a escrever tem direito a se apossar de histórias alheias para falar de uma que lhe pertence – brigas, traições, diálogos de amigos podem entrar em um contexto sobre um assunto que afeta o dono do teclado. Pois, como preza o jornalismo literário, a mentira atrativa tem predominância sobre a verdade insossa. Ou alguém duvida?

Gabriel Garcia Márquez ria de quem acreditava no poder de sua mente para criar aquela miríade de personagens em “Cem anos de solidão”. Afirmava ter apenas juntado o que ouvia por aí – dando a aprumada de bom escrevinhador; aumenta-se aqui, omite-se ali. Dizem que em jornal não se faz literatura. Pode ser. Mas toda notícia tem um quê de ficção, desde o momento em que ela é pautada. A turma da redação que se manda para a periferia sabe bem disso.

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