Fim da festa

Dos pulmões em transe explodia o berro de revolta assombrosa. A massa presente ao Ginásio de Uberlândia (MG), repetia: “Falcão!…

Dos pulmões em transe explodia o berro de revolta assombrosa. A massa presente ao Ginásio de Uberlândia (MG), repetia: “Falcão! Falcão! Falcão!” Gritava pelo seu herói, o mito, o mostro das quadras brasileiras e o maior futebolista em atividade neste país. Na quadra, o canhoto fascinante supera todos os ídolos de barro do campo.

Até as arquibancadas pareciam saltar, engajadas ao torcedor inconformado pela ausência do gênio na derrota do futsal brasileiro para a Argentina, jogo válido por uma caça-níquel Taça das Nações. O Brasil abriu 2×0 e tomou três, o da virada no último minuto. O goleiro levou frango em dois chutes fracos.

O povão extravasava pelo fim do jogo e o sinal do ocaso num raro esporte em que o Brasil sempre mandou e desmandou. O antigo e belo futebol de salão estava para nós como o orgulho proporcionado pelo basquetebol aos americanos.

O Brasil é heptacampeão mundial embora a vampira FIFA tenha cassado os dois primeiros títulos, por não tê-los organizado. Me digam um ato de bondade da FIFA e subirei andores de igreja ajoelhado. É uma confraria negativa, maléfica e sinistra. Por opção e desdém à humanidade.

O futebol de salão apaixonava. Sempre apreciei os clássicos entre ABC e América no ginásio Palácio dos Esportes em igual proporção aos épicos no assassinado Castelão (Machadão). Um bom jogo asfixiava de emoção tensa.

Sou grato até hoje ao destino que me permitiu contemplar em noites alucinantes: Dennis, Sílvio, Juca, Franklin, Mário Sérgio, Gileno, Agamenon, Leonel, Clóvis, Uirandé, Marquinhos, Aladim, Paulinho de Tarso, Josinaldo, Sérgio Boinho, Walter, Nilson Barrote, Scala, Ricardo Lima.

Eles representam tantos outros de talento incrível, como a devoção de técnicos respeitáveis: Arthurzinho do América, Exmar Tavares e Jucivaldo Félix no ABC, Bel no Bandern.

Depois, me meti dentro de uma aventura empolgante de dirigente e, se tenho a certeza de que jamais farei de novo, pela ingratidão que mereci de reconhecimento, me orgulho de ter ajudado a levar o Rio Grande do Norte além das fronteiras regionais, com o ABC conquistando 17 títulos e sendo respeitado pelo país.

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O futebol de salão brasileiro agora está pronto e acabado para ser pronunciado na antipática sigla americanizada: futsal. Agora é futsal. Terminaram os dribles, as pedaladas, as bicicletas, as piruetas equilibristas, a superioridade da técnica sobre a grosseria.

O Brasil do futsal perder para a Argentina hoje é mais do que natural. No passado, nunca houve. Os hermanos sempre voltavam para casa com excesso de bagagem pelas surras exemplares nos olés magistrais de Jackson, Douglas, Leonel, Ortiz, Morruga, Manoel Tobias, Fininho, Choco, Lenísio. Vou citando assim, sem me preocupar com outros tão espetaculares.

Os irmãos Aécio e Serginho estavam em grande fase no ano em que nasci, 1970, e sempre foram usados pelos mais velhos para contraditar minha exaltação aos ídolos que surgiam em produção industrial.

O fato é que o Brasil raramente perdia. Os paraguaios foram nossos primeiros rivais. O título mundial de 1982 foi em cima deles, chute enviesado e cheio de veneno de Jackson, lá da bandeirinha de escanteio do Ibirapuera. Ganhamos em 1985 em 1989 nos resquícios de uma geração premiada e precursora.

Jackson passou a coroa Morruga que a entregou a Manoel Tobias. Falcão assumiu o reinado sem transições. O delirante pela arte logo enxergou em seu pé esquerdo uma varinha mágica. Falcão fez jogadas, gols e ganhou títulos que ninguém descreve em palavras.

Falcão, camisa 12, a simbologia do astro como a 10 um dia foi no futebol, maravilhou os torcedores com a mistura do pragmático e o poético. Do fatal e do virtuoso impossível de ser contido. Recolocou o drible em seu devido lugar de matéria-prima do esporte.

O Brasil perdeu Falcão, que, há dois anos, machucado no joelho e com paralisia facial, destruiu os argentinos e espanhóis na conquista do título mundial lá do outro lado do mundo.

Falcão rebelou-se, acusou a atual diretoria da CBFS de ditadora, foi acompanhado por outros campeões e – imitando o irmão dos campos – o futebol de salão cada vez mais futsal e impessoal abre mão do craque para permitir insanidades de dirigentes.

Claro, Falcão é abusado, marrento e, segundo alguns depoimentos, individualista dentro e fora das quadras. Pouco importa. Falcão representa o encanto de um esporte genuinamente nacional.

Triste nem tanto a derrota do Brasil para a Argentina, de maneira bisonha e sem reação. Terrível foi ver a camisa 12, mitológica, parte do corpo do predestinado, vestida por Genaro. Certamente um correto rapaz, de bons princípios morais e éticos, quase um coroinha, Genaro parece estampar a decadência de um jogo mágico.

Homenagens

O América homenageou jogadores antes da partida contra o Alecrim. O meia Arthur Maia foi um deles, reconhecido pelo gol sensacional da semana passada, quando driblou até almas penadas até marcar um golaço. Arthur Maia retribuiu decidindo e fez um gol bonito de falta decretando o 2×1.

Pantanal

Parecia o cenário da novela Pantanal, da Rede Manchete. Sem a deslumbrante Cristiana Oliveira, a Luma, musa da geração anos 1990. ABC x Globo parecia um jogo dentro de um açude. O gol de Patrick teve o mérito de mostrar que era uma partida de futebol.

Clássico

A vitória do ABC estimula o clássico contra o América no domingo, embora nítida a vantagem do time rubro para ganhar o segundo turno. O ABC, com Zé Teodoro, continua a irritante sequência de testes, sem um time definido.

Queda

O Globo venceu o primeiro turno e parou.

Vascão

Mesmo que seja vice outra vez, o Vasco conseguiu um mérito. Foi mais ou menos a vitória do SUS sobre um poderoso plano de saúde. A empáfia do Fluminense virou pó de mico.

Preparacão da derrota

Há 40 anos, em 31 de março de 1974, o Brasil começava sua preparação para a Copa do Mundo, perdida por merecimento absoluto. No Maracanã, 79.618 pagantes viram a seleção empatar com o México (1×1), gols de Jairzinho e Manzo.

Times

Brasil: Leão; Zé Maria, Luís Pereira, Alfredo Mostarda e Marco Antônio; Carbone, Carpegiani (Leivinha) e Ademir da Guia; Jairzinho, Mirandinha (Enéas) e Rivelino. México: Puentes; Trujillo, Peña, Ramos e Galindo; González, Manzo e De laTorre; Váldez (Anguiano), Borja e López (Damián).

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