Home > Cidade > Destaque sem miniatura > Fissuras labiopalatinas: mais comum do que muitas pessoas pensam

Fissuras labiopalatinas: mais comum do que muitas pessoas pensam

Data: 06 fevereiro 2013 - Hora: 18:20 - Por: Carolina Souza

Esperar nove meses para conhecer o rosto do bebê é uma das situações que deixa as mães mais inquietas durante a maternidade. É comum as mulheres imaginarem diversas vezes e até sonhar com o momento pós-parto, quando finalmente o barulho do choro sinaliza que o filho chegou ao mundo. Nessa hora, inconscientemente, as primeiras palavras ditas – ou pensadas – são relacionadas à integridade física do bebê. “Ele é perfeito”. Tudo o que os pais mais desejam para seus filhos é que eles nasçam perfeitos, com a configuração normal do ser humano: olhos, nariz, boca, orelhas e membros. Tudo no seu lugar.

Um problema causado por uma má formação craniofacial pode fazer com que esse momento de encanto, logo no primeiro contato dos pais com seus filhos, torne-se uma preocupação. Trata-se da fissura labiopalatina, uma anomalia congênita pouco conhecida, porém mais comum que a Síndrome de Down. A anomalia consiste no não-fechamento do lábio e/ou do palato (céu da boca) durante a formação do embrião na barriga da mãe, e pode ser identificada pelo ultrassom geralmente entre a sexta e a oitava semana de gestação, período em que se concluí a formação da face.

O desenvolvimento do nariz inicia-se juntamente com o da face, a partir da quarta semana, estando completo no final da oitava semana. A fusão labial completa-se na sua sexta semana, e a do palato por volta da 12ª semana de gestação. É nesse período que ocorrem essas fissuras. As fendas podem ser parciais ou completas, unilaterais ou bilaterais e envolver o lábio, nariz, rebordo alveolar, palato duro e mole, isoladamente ou em conjunto.

Os dados estatísticos mundiais revelam que a prevalência das fissuras labiopalatinas representa uma ocorrência a cada 650 nascidos vivos. Essa prevalência pode variar nas diversas regiões geográficas e nos diferentes grupos étnicos. Segundo o cirurgião plástico Leonardo Spencer, um dos poucos profissionais que lidam com o tratamento da anomalia no Rio Grande do Norte, a fissura labiopalatina não é considerada uma doença com notificação compulsória, situação que dificulta fazer um relatório de incidência nas diferentes regiões.

“Há uma discussão em alguns estados para que a fissura labiopalatina seja considerada uma doença compulsória e assim podermos ter uma real noção de incidência no Brasil. Mas os estudos que se tem, principalmente no Rio Grande do Sul, onde o pessoal leva essa questão estatística mais à sério, a prevalência é mais ou menos essa de um indivíduo para cada 650 nascidos, indo de encontro com a demanda mundial”, disse.

Leonardo explica que o paciente com fissura se enquadra nas condições de um paciente multidisciplinar. Para o tratamento, o médico cirurgião aponta a necessidade da atuação de um “tripé básico de profissionais”, que inclui a participação do cirurgião plástico, do fonoaudiólogo e do ortodontista. “Não existe um único profissional que trata tudo em um fissurado. O paciente precisa ter atendimento em um centro de tratamento multidisciplinar e interdisciplinar. Os profissionais têm que saber um pouco do trabalho um do outro e interagir entre si para que o paciente tenha o melhor resultado possível”, explicou o cirurgião.

Não existe uma causa única para a formação das fissuras labiopalatinas. De acordo com especialistas, elas podem estar associadas a fatores genéticos e ambientais, tais como doenças infecciosas durante o período de gestação, como sífilis, rubéola e toxoplasmose; etilismo; tabagismo; deficiências nutricionais; drogas com potencial teratogênico e outros fatores materno-fetais, a exemplo da hipóxia e trauma mecânico.

Estudos demonstram que o baixo nível socioeconômico também é um fator de risco para anomalias congênitas, tal como as fissuras. Uma possível explicação para isso é que o baixo nível socioeconômico esteja relacionado a um déficit nutricional. O fator genético também pode ser uma causa. Se uma pessoa tem algum parente na família, até o segundo grau, que teve algum tipo de fissura, a probabilidade dela ter um filho fissurado aumenta em 25%. Daí a importância do aconselhamento genético sobre a possibilidade de herança familiar.

Os resultados de pesquisas sobre o assunto apontam que muitos fatores podem levar ao nascimento de uma criança fissurada. Entretanto, o médico Leonardo Spencer aponta uma razão que pode explicar a maioria dos casos: a deficiência de ácido fólico durante a gestação. Essa deficiência acarreta má formações craniofacial como um todo, sendo uma grande responsável pela fissuras labiopalatinas.

“Normalmente as mulheres não procuram suas ginecologistas quando querem engravidar. Isso acarreta em um problema relacionado ao ácido fólico. O ideal seria ir a ginecologista e dizer a médica que quer engravidar. De cara, a ginecologista irá indicar que a mulher passe a tomar doses do ácido, para poder repor a quantidade, e minimizar o risco de má formação embrionária”, disse Leonardo. “Entretanto, isso não é comum de acontecer. A mulher só procura sua ginecologista quando já está grávida. Se o bebê já estiver no período de formação da face e com a fissura, não há mais como tentar reverter”, afirmou.

“Não existe uma relação causa/efeito direto relacionado ao ácido, do tipo: se não tomar as dosagens, o bebê irá nascer fissurado. Não é assim. Mas quem tem deficiência de ácido fólico tem a probabilidade bem maior de ter um filho fissurado ou com má formação crânio/facial”, reforçou Leonardo. O médico também alerta as mulheres que usam fenitoína, fármaco utilizado para tratamento de epilepsia, e quando pretendem engravidar, não atentam para a importância de solicitar ao neurologista a mudança da medicação.

Diagnóstico Precoce

É possível ter o diagnóstico do problema durante fase gestacional, com a utilização da ultrassonografia. Esse recurso é muito importante porque permite a abordagem da família precocemente, durante o período pré-natal, de forma gradativa, garantindo uma redução do estresse familiar – fato constante quando o conhecimento da má-formação só ocorre durante o parto.

No período pré-natal toda a equipe que envolve profissionais de obstetrícia, pediatria, fonoaudiologia, psicologia, cirurgião e enfermagem pode oferecer informações e segurança à família de que o problema da criança será resolvido de forma a proporcionar-lhe uma vida normal, igual à de outras crianças que nascem sem a presença de fissura labiopalatina.

“É muito bom quando os pais ficam sabendo da anomalia do filho ainda na gestação. Eles já podem ir conhecendo o problema, conversando com especialista e psicólogos, procurando os tipos de casos e tratamentos, sem ter aquele susto de ver o filho nascer com uma deformidade. Quando a mãe descobre no pós-parto, ela acha que é o fim do mundo. Existem milhares de mães nessa mesma situação”, disse Leonardo Spencer.

“Mas é importante lembrar que a fissura labiopalatina é uma deformação isolada. O paciente não tem déficit mental, problema de coração ou problema renal, por exemplo. É uma má formação isolada. Anatômica. Corrigindo isso, tudo fica resolvido. É óbvio que existem certas síndromes, onde a criança tem vários problemas conjuntos. Mas esses casos são mínimos”, avalia o cirurgião plástico.

Notícias Relacionadas
  • TAGS: