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For all, forró, fobó, forrobodó

Data: 12 janeiro 2013 - Hora: 18:00 - Por: Vicente Serejo

Nunca meto o bedelho nas discussões eruditas dos cascudófilos e cascudólogos que pululam às margens desta Aldeia Velha. Deus me livre. Meu ofício é outro. O que me cabe é procurar fontes de referência para citá-las, sem afirmar de boca própria. A cultura das lendas não faz história. É preciso ir aos alfarrábios de ontem e hoje, consultar as fontes primárias. Não boto fé em intelectuais conterrâneos que decoram a vida com o sorriso literário que para Afrânio Peixoto servia apara adornar a sociedade.

Outro dia, por falar nisto, fui provocado por um desses intelectuais da província a respeito do sempre prosaico e nunca esquecido significado atribuído à expressão For all. E tudo por conta de uma lenda nascida aqui, como tantas outras, dando ao aviso dos ingleses, em festas abertas a todos, uma tradução que teria, por prosódia gerado a corruptela forró. Já se sabe, desde algum tempo, que não foi assim, mas a lenda agrada a nossa alma vira-latas que vive a farejar em tudo um pobre naco de glória.

Não há verbete específico no Dicionário do Folclore Brasileiro, de Câmara Cascudo. Registra Fobó e remete a Arrasta-Pé que abona com uma citação de Leonardo Mota, mas em nenhum momento aceita ou rebate sua origem em For all. Cascudo contesta e sei por ele mesmo: no bilhete que escreveu ao compositor Fernando Lobo, pai de Edu Lobo, transcrito seu no livro ‘À mesa do Vilariño’, da Civilização Brasileira, 1991, com um longo e bem humorado prefácio de Guilherme Figueiredo.
Esta é a carta de Fernando Lobo a Cascudo, datada enviada do Rio, em 3 de março de 1983:

Caro Mestre,
Há muito aprendi com os seus ensinamentos que o termo ‘forró’ equivale à designação arrasta-pé, ou seja: baile reles, o mesmo que ‘bate-chinelas’, o mesmo que fobó ou forró. Agora começa a se divulgar uma nova versão da palavra forró, presa a uma idéia de que teria nascido da expressão inglesa ‘for all’. Isso, justificam os inventores, por conta dos ingleses da Great Western nordestina, que, realizando bailes populares, usavam a expressão ‘para todos’ como um anúncio. Já existem discos gravados com esta novidade de título – ‘For all – para todos’, gravação de Geraldo Azevedo, em selo Ariola, onde na contracapa pode-se ter esta afirmativa:

“O inglês da ferrovia
escreveu no barracão
for all, for all, for all
foi então que o pau comeu
nunca mais sentou o pó
eu só sei que o povo leu”.

Gostaria de saber a opinião do grande mestre, pois se a novidade é verdadeira, está muito bem divulgada. Se é falsa, ainda há tempo de corrigi-la.
Com os meus cumprimentos e o meu respeito,
a) Fernando Lobo.

Ele ainda registra e transcreve a íntegra de um artigo de Haroldo Costa, em O pasquim, no qual o grande sambista e pesquisador contesta a origem inglesa antes mesmo da resposta de Cascudo que demora vários dias, chegando às mãos de Fernando Lobo só depois do dia 7 de abril de 1983. E é esta:

Natal, 7-04-83

Fernando Lobo, muito saudar!
Vá perdoando o hieróglifo da minha escrita cabalística. Fui advogado da Great Western em Natal antes de 1930. Nada de for all em barracão. Invenção carioca de jornal. Forro em segundo lugar. O mais autêntico é fobó. Forrobodó no Rio, em jornal e teatro.
As invenções já em 1919, quando estudava no Rio, viviam pulando. O morro do Guedes vinha de to-gether… O morro da Arrelia era de O’Reilly…
Há quem possa enfrentar? Abraço destes 85 dezembros.
a) Câmara Cascudo

É o que existe aqui, Senhor Redator. Tenha todo cuidado com as lendas dos cascudófilos e cascudólogos. É melhor temê-las e cuidar de não mencioná-las sem antes consultar as fontes seguras.

 

GUARAPES
O governo anuncia a concorrência das obras de restauração do casarão dos Guarapes, em Macaíba. É pena que a calamidade na saúde não tenha posto em funcionamento a maternidade da Polícia Militar.

NOVENTA
Dia 14, depois de amanhã, o raid Natal-São Paulo, aquela caminhada a pé que durou de 14 de janeiro a 2 de setembro de 1923, completa seus noventa anos. No tempo em que os desafios eram prazerosos.

ABRAHÃO – I
Nosso Jacob Lamas, velho sesmeiro da Redinha, confirma: Benjamin Abrahão, fotógrafo de Lampião, era primo do seu avô Elias Lamas. Assim Carlos e Amador Lamas, da foto do livro, são seus primos.

LAMPIÃO – II
A foto de Carlos e Amador está no livro de Frederico Pernambucano de Melo sobre Benjamin Abrahão que fotografou e filmou Lampião e Padre Cícero com suas imagens que circularam no mundo inteiro.

PROUST
A edição de janeiro da revista Piauí, já nas bancas, circula com um ensaio do jornalista Mário Sérgio Conti sobre as madeleines Marcel Proust na deflagração de sua busca pelo tempo perdido. Primoroso.

ENSAIOS
Para quem gosta do ensaio impressionista, livres e bem escrito: ‘Chaplin e outros ensaios’, de Carlos Heitor Cony, edição da Topbooks. O grande olhar de Cony para Chaplin, Cervantes, Goethe e outros.

ATENÇÃO
A editora Geração Editorial lança no Brasil este ano a tradução do ensaio que teve seu título censurado pela Apple: ‘Vagina’. É uma biografia com toda a história do seu poder de impacto, de Naomi Wolf.

HEROÍNA
Os evangélicos, liderados pelo pastor Silas Malafaia, almoçaram com o diretor de projetos especiais da Globo, Amauri Soares. Pediram uma novela ou série que tenha como estrela uma heroína evangélica.

ÍCONES
Este 2013 marca os cem anos do poeta Vinícius de Morais. Os 480 anos de Montaigne. Os 140 anos de Eloy de Souza. Os 110 anos de Santa Guerra. E 20 anos da morte do escritor Jayme Hipólito Dantas.

MAIS
Os 140 do historiador Rodolfo Garcia. Os 130 anos do poeta Juvenal Antunes. Os 130 de Moysés Sesyon. Os 60 anos da morte de Jorge Fernandes. E os 120 anos do teatrólogo Sandoval Wanderley.

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