Fora das obras da Copa, Alecrim espera por algum projeto de melhoria

Prefeito Carlos Eduardo recebeu proposta de entidades

Comercio-do-Alecrim--HD

Marcelo Hollanda

hollandajornalista@gmail.com

Lá não existem estacionamentos suficientes em suas ruas estreitas, apesar delas receberem mais de dois milhões de consumidores todos os anos. O bairro do Alecrim, que completa o 104º aniversário em outubro, não foi beneficiado pelas obras de mobilidade que tiram o sossego da cidade, apesar de corresponder a quase 40% da arrecadação de ICMS e somar 40% de todos os estabelecimentos comerciais da cidade. Ganha de longe do segundo colocado, o bairro de Lagoa Nova, com 27% do adensamento de empresas comerciais que representam 75% da presença varejista do município, segundo dados da Prefeitura de Natal publicados ainda no final da última década.

Mas tudo isso pode mudar caso o projeto de design urbano elaborado pelo Sebrae do Rio Grande do Norte seja concretizado. A proposta já está nas mãos do prefeito Carlos Eduardo. Além do Sebrae-RN, entidades como a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do RN (Fecomércio), Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) de Natal e a Associação dos Empresários do Bairro do Alecrim (AEBA) participaram da entrega do projeto.

“Se uma iniciativa dessa magnitude vingasse, faríamos justiça ao bairro popular mais importante da cidade e certamente um dos mais conhecidos entre as capitais do Nordeste”, afirma o presidente da Associação dos Empresários do Bairro do Alecrim, Dernerval Sá. Mas para que isso se torne realidade seria preciso contar com todas as melhorias preconizadas no projeto do Sebrae – ruas sinalizadas, estacionamento para veículos, novas paradas de ônibus, bancos e iluminação pública, além de um espaço para convivência que inclui teatro e museu.

Elaborado desde 2009, o projeto foi criado a partir do desenvolvimento do programa Agentes Locais de Inovação (ALI), uma iniciativa do Sebrae que leva até as empresas uma consultoria especializada, que, no primeiro ciclo, foi dedicado ao Alecrim. Nesse mesmo período, o projeto foi apresentado à gestão municipal na época.

Além das alterações na comunicação visual urbana, na engenharia de trânsito e no mobiliário urbano, o projeto prevê a substituição do camelódromo por uma estrutura a ser erguida na Avenida 9. “A informalidade ainda é um grande problema do bairro”, destaca o presidente da Associação dos Empresários do Bairro do Alecrim (AEBA), Francisco Denerval de Sá.

“Natalenses de todas as esferas sociais frequentam o bairro, que é a cara do comércio de rua desta cidade. E é também um bairro, que infelizmente, vem sendo negligenciado em alguns aspectos. Com o projeto, iremos mudar a geografia humana e o visual do bairro, tornado-o mais aprazível e digno para todos os que frequentam e para os que tiram de lá o sustento de suas famílias”, completou durante a reunião de apresentação do projeto o presidente da Fecomércio RN, Marcelo Queiroz.

Outras mudanças contempladas pelo projeto são a revitalização da Praça Gentil Ferreira que terá áreas verdes e caminhos para circulação e descanso. O teatro e museu incluso no projeto compreendem a mesma área da praça que terá ainda um café e um centro de informações. “O projeto vai beneficiar os empresários, camelôs e público circulante. Vamos passar a ter uma área boa de humanização”, esclarece Francisco Derneval de Sá que há 30 anos trabalha no bairro do Alecrim. “O Alecrim faz parte da minha vida e tenho a esperança de vê-lo diferente daqui a um tempo”.

Importância

Para se ter uma idéia da relevância econômica do bairro, muitas lojas do Alecrim também estão nos shoppings e não se pode dizer que os preços das mercadorias sejam muito diferentes entre um ponto e outro. É claro que a possibilidade de comprar um artigo a preços mais convidativos sempre será primazia do comércio de rua, onde as taxas condominiais são mais baratas ou, no caso dos ambulantes, simplesmente não existem.

O que seduz na aparente desorganização do Alecrim é o que se pode conseguir andando pelas estreitas calçadas do bairro. É nesse diferencial que reside a grande importância comercial do Alecrim – nascido na sombra do centro de Natal, mas que como todo o bom discípulo, um dia, tomou o lugar do mestre.

“Aqui, no Alecrim, não tem esse negócio de olhar vitrines, passear no ar condicionado , fazer uma boquinha na praça de alimentação e ir embora”, diz ele em tom de brincadeira. “Aqui, as pessoas vêm para comprar nem que seja um grampo de cabelo”, comenta.

Denerval Sá, o único a vender chapéus panamá importados e manter venda e manutenção de malas e mochilas de marcas consagradas em Natal, diz que vende os mesmos artigos preferidos da classe A e B para consumidores da classe C.

No Alecrim, a presença familiar comanda os negócios, embora um número crescente de empreendedores vocacionados já venha ocupando o seu espaço. Enquanto 23,5% das empresas nasceram dentro das famílias, 20,3% saíram da pura vocação. Desse oceano de empreendedores, 35,83% têm o curso médio completo; 26,11% concluíram a Universidade e 10,12% conseguiram passar pelo ensino fundamental.

Foi nesse ambiente que nasceu o projeto ALI – Agentes Locais de Inovação -, plantado pelo Sebrae em pouquíssimas capitais brasileiras para auxiliar o comércio popular a se desenvolver.

Em pouco mais de um ano e meio, 30 agentes do programa visitaram mais de 1.500 negócios no Alecrim que permitiram a entrada deles na intimidade das empresas. Muita gente, por pura timidez, não permitiu. Quando mudaram de idéia já era tarde, o programa estava fechado.

De cara, os agentes encontraram muita desorganização, estoques expostos na parte central das lojas tomando espaço e dificuldades na forma de gerir o negócio. O legado da passagem do ALI pelo Alecrim se materializou em forma de um projeto arquitetônico para o bairro, onde os camelôs deixarão as ruas e serão reacomodados num prédio público já identificado pelos autores, todos voluntários.

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