Fotógrafa potiguar registra suas poesias através de viagens fotográficas

Fotógrafa e procuradora do Estado, Leila Cunha Lima, lança exposição “Areias que são tesouros” com 32 imagens dos Lençóis Maranhenses, bioma com paisagem desértica e com 300 vezes mais chuvas do que o Saara; fotografias ficarão expostas até 20 de setembro

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Conrado Carlos

Editor de Cultura

 

A cerca de 1300 km de onde você está neste momento existe um lugar puro, sano e permanente. Um lugar encravado entre a maior floresta do mundo e o Sertão, com dunas de 40 metros de altura e chuvas abundantes, se pensarmos em sua panorâmica saariana – por lá, o céu despeja 300 vezes mais água do que no deserto africano. Localizado no Estado emblema da vergonha nacional, os Lençóis Maranhenses exemplificam como a natureza é a imagem da razão – em detrimento da emoção onipotente da urbanidade. E uma potiguar, tão familiarizada com paisagens em que a areia e o vento trocam fluidos diários, viu de perto aquele bioma subaproveitado como destino turístico, mas de uma beleza dissolvente para a rotina de trabalho e dos afazeres domésticos. Foi o que encontrou a fotógrafa e procuradora do Estado, Leila Cunha Lima, ao cruzar o Nordeste em busca do desconhecido, em julho passado. O magnetismo foi tão grande que resultou na exposição “Areias que são tesouros”, uma seleção de 32 fotografias, mostradas a partir das 18h de amanhã (19) no Between Coffee & Deli House (Av. Afonso Pena, 895, Petrópolis; em frente ao colégio Atheneu).

Foto: Leila Cunha Lima
Foto: Leila Cunha Lima

Leila, o marido (o oftalmologista Marísio Almeida) e os dois filhos partiram de Natal no mês passado em direção ao Maranhão. Na bagagem, a curiosidade por um cenário supostamente parecido com as dunas do Rio Grande do Norte. “Meu pai [o poeta, professor, jurista e atual presidente da Academia Norte-rio-grandense de Letras, Diógenes da Cunha Lima] achava que eu não ia me impressionar, por termos dunas aqui. Mas é muito diferente. A começar pela imensidão do lugar. Fiz um sobrevoo por dunas e lagoas, que são apenas duas ou três permanentes, e vi também que por lá a água é cristalina, enquanto que nas dunas que temos aqui a água é escura”, diz a apaixonada por ambientes ricos em “flores e água”. O voo foi feito em um avião para seis passageiros, com saída do município de Barreirinhas (distante 260 km de São Luís). O isolamento dos Lençóis Maranhenses e os frequentes acidentes com aeronaves no Brasil se uniram à desconfiança. “Mas a vontade de fotografar me fez perder o medo”. E assim foi. Dedo esperto no obturador e olhar perscrutador no entorno, Leila trouxe a poética daquele paraíso terreno.

Foto: Leila Cunha Lima
Foto: Leila Cunha Lima

“Acho que a fotografia é capaz de tornar um lugar mais belo do que ele é. É capaz, às vezes, de transformar um lugar feio em bonito. Eu brinco com meu pai, que é poeta, dizendo que minha poesia são as fotos. Para mim, elas proporcionam uma segunda viagem ao local. É isso o que sinto quando revelo as imagens e quando as seleciono para alguma exposição. Eu voltei dos Lençóis Maranhenses com os olhos impregnados de beleza e com a felicidade de saber que amigos têm procurado os destinos a partir das minhas fotografias”. Essa é a quinta exposição da magistrada, que aposta na estética da natureza como fonte de inspiração (em 2013, ela lançou o livro Flores Que Encantam o Brasil, com textos do pai e de Nelson Patriota). Se viajar é um dos principais atos humanos em busca da felicidade, pois a surpresa e a expectativa superam a arte, a religião, a psicologia e a química, Leila mostra com suas fotografias como e por que devemos conhecer aquele pedaço de chão – ou a arte fotográfica, assim como relatos de viagem, não nos enriquece ao apresentar experiências alheias? É como a frase feita do desenho animado sobre ter visão além do alcance.

Foto: Leila Cunha Lima
Foto: Leila Cunha Lima

Cada fotografia exposta na noite de amanhã será vendida por R$ 200,00. Preço que Leila acredita amortizar parte do valor investido no projeto – a viagem e a produção das fotos foram bancadas com recursos próprios. “A fotografia entrou na minha vida como uma brincadeira. Eu comecei a postar no Instagram algumas que tinha tirado do mar e de flores e os amigos começaram a elogiar. Eles começaram a ‘brigar’ pelas fotos que coloquei à venda e daí surgiu a ideia de fazer exposições”. Para tanto, Leila modernizou o equipamento e fez um curso básico com Cícero Oliveira, profissional renomado na área de eventos da capital potiguar. “Eu não me contentava, como até hoje não me contento, em deixar a fotografia no computador. Gosto do físico, de tocar no objeto”. O mesmo toque pode atingir quem tiver a apreciação estética proposta pelo trabalho no ecossistema maranhense – através das exigências físicas e psicológicas de uma viagem, sobretudo quando arquivadas em uma memória fértil, o viajante tenta encontrar o ‘verdadeiro eu’, pois a mobília, os cheiros, as pessoas, a paisagem de sua vida comum é quase estática, talvez distante de sua essência.

Foto: Leila Cunha Lima
Foto: Leila Cunha Lima

Com material pronto a ser impresso e exposto sobre a Chapada Diamantina, Leila tem planos de desvelar o país com sua lente – a Amazônia já foi tema de exposição. Assim como lugares distintos, como Cuba, Canadá e Nova Zelândia – a fauna sul-africana também já motivou exposição, com imagens captadas durante um safári. Sem esquecer o desejo de ajudar menores carentes, com a ideia de realizar um concurso fotográfico para meninos e meninas – germinada após ficar em terceiro lugar em um concurso sobre diversidade e inclusão com a imagem de uma deficiente física que trabalha na Assembleia Legislativa. “Mais que tentar mostrar meu jeito de olhar o mundo, o que procuro é despertar nas pessoas a curiosidade, a vontade de viajar e conhecer outros lugares”. Quem cruza o limite da urbe em que reside sabe que corpo e a mente vira cúmplice temperamental do destino. Da Caatinga aos Pampas, do Serrado ao que sobrou da Mata Atlântica, o que é visto entra no arquivo imediato e de longo prazo que carregamos em nossa memória. E receber o incremento de um olhar delicado e minucioso pode completar a fruição que queremos ter com esse tipo de experiência.

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