Francês usa A Divina Comédia como metáfora para “Resultado Bruto”

Obra em que reunião entre executivos na iminência da demissão traz momentos familiares a todos nós

Conrado Carlos

Editor de Cultura

 

A história de “Resultado Bruto” transcorre durante uma reunião da diretoria de uma empresa de comunicação. O recém-contratado Rorty tem a missão de reduzir encargos para aumentar dividendos dos acionistas. Para isso, escrúpulos e maleabilidade estão fora da pauta. Cabeças precisam rolar, custe o que custar. Inclusive de alguns dos outros dez presentes à sala. O chefe quer cortes em cada setor, e ninguém está satisfeito em dispensar amigos de dez, vinte anos de convívio. Pior: a própria sobrevivência está em jogo.

O autor Laurent Quintreau pega emprestado o formato de “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri (além do sobrenome do italiano para o personagem final), ao dividir o livro em três partes (Inferno, Purgatório e Paraíso), sendo a primeira delas com nove capítulos intitulados ‘círculos’, onde cada um revela seus sonhos de vingança, suas iras contidas, preocupações com a saúde e fantasias sexuais – enquanto Rorty expõe as novas diretrizes. Na tensão da assembleia, e na iminência da demissão, pululam devaneios e inquietações.

A bonita e viciada em calmantes, Dominique Meyer, relembra que um antigo relacionamento poderia ter evitado aquela pressão. Por covardia, optou pela rotina e o convencionalismo de um casamento que o conduziu ao atual trabalho. “[...] faz tanto tempo que não ocorre nada entre nós, será que a vida de casal obedece às mesmas leis das empresas, com seus contratos por tempo parcial, contrato por tempo integral, demissões por incompetência profissional [...]“.

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Enquanto isso, do outro lado da mesa, Pujol é pura luxúria. Olha com fome para os seios fartos de Meyer e perpassa episódios libertinos. O desdém com boa parte dos colegas vem da garantia de possuir a maior conta da empresa (um plano de saúde dirigido pelo cunhado). Já a gorda e complexada Brémont clama por um relacionamento sério. A solidão é acompanhada pela paranoia de estar com AIDS. “[...] eu sou apenas um quebra-galho, uma leitoa para o fim de noite quando as moças bonitas se foram [...]“. Gradativamente, surgem os tormentos individuais.

A narrativa de Quintreau não contem pontos ou parágrafos. É a pauleira do fluxo de consciência de cada diretor permeada pelas palavras vazias e afetadas de Rorty. O Inferno, vivido por nove pessoas, é interrompido pelo Purgatório apresentado por Roussel, funcionário ainda no período de experiência, perfeito para ser excluído – e sem envolvimento pessoal.

E o enigmático, tranquilo e zombeteiro Alighieri destrói tudo em um Paraíso pra lá de sarcástico e questionador da relação empregatícia, por vezes, distante e implacável. “[...] querido Rorty, minha odiosa putinha a soldo do grande capital, meu viadinho malvado sob as ordens da máquina de fazer dinheiro, eu flutuo acima do seu discurso, eu cavalgo sobre o seu entusiasmo [...]“.

 

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