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Freios e contrapesos

Data: 02 janeiro 2013 - Hora: 18:04 - Por: Vicente Serejo

Quem leu a entrevista do sociólogo Antônio Lavareda na revista Poder, de Joyce Pascowitch, mesmo dirigida à presidente Dilma Rousseff com o novo mapa político saído das eleições municipais, há de ter compreendido que a fragmentação de siglas partidárias é um desafio de quem governa na democracia. Principalmente, se a soma dos fragmentos não formar unidade de força, mas, ao contrário, exigir do governante uma larga capacidade de negociar sem impor a ninguém o gosto forte da derrota.

E não parece ser esse o sentimento do prefeito Carlos Eduardo Alves. Não bastasse o passado de graves conflitos com o legislativo – na Operação Impacto e a discussão em torno da desaprovação das contas de sua gestão gerando uma demanda judicial – mais uma vez demonstrou não saber vencer. Ao invés de congratular-se com a vitória da verdade, preferiu acusar de ridículo o direito da Câmara de buscar na Justiça, fórum natural da sociedade democrática, um espaço legítimo para discutir e lutar.

Também não se pode esquecer que manter-se na oposição, em obediência ao desejo das urnas, não tem sido a tradição do legislativo municipal. Vício que vem dos anos biônicos, do bipartidarismo, quando o MDB já assumia sua mania governista, e vive até hoje no PMDB, apoiando o Palácio Felipe Camarão. Embora tenha o nome de Frei Miguelinho, herói e mártir da Revolução de 1817, símbolo da luta contra o poder, não tem sido o Palácio com seu nome o melhor o lugar da resistência ao governo.

É sinal de baixa consciência, para não dizer de incúria política, acreditar na superioridade de um poder sobre o outro. E até mesmo imaginá-los donos de uma independência e autonomia acima do interesses maiores da sociedade. Nada foi mais melancólico do que a arrogância juvenil da Câmara de Deputados quando reagiu às decisões do Supremo Tribunal Federal, como se a condenação dos seus integrantes fosse uma disputa de poderes e não um clamor coletivo da Nação interpretado pela Justiça.

Não será muito diferente o desafio do prefeito Carlos Eduardo Alves, por mais fascinante que venha a ser a tentativa de achincalhar a Câmara Municipal. Por seus secretários ou seus asseclas, não importa. Cabe ao executivo propor mudanças, alteração nas leis, argumentar e lutar, tentar conquistar a opinião pública, tudo. Menos pensar que pode fazer da mesa de negociação um ringue ou um campo de futebol. É preciso vencer com competência para que cada vitória não realimente um novo combate.

O coronelismo político da força pela força não constrói alicerces sólidos e duradouros. Talvez nem mesmo contribua para uma boa harmonia entre os poderes. Assim como o governo não pode fazer da vitória uma obsessão a qualquer preço, também a oposição é uma tarefa imposta pelas urnas no ato da escolha do partido e da candidatura. Mas, nesse compromisso de oposição, não cabe a obrigação de ser contra a tudo e a todos. Ferindo o bom senso que ninguém melhor que o próprio povo sabe julgar.

 

CIDADANIA – I
O prefeito Carlos Eduardo Alves assumiu com o advogado Marcos Dionísio, nosso ‘Mosquito’, um compromisso: transformar a Guarda Municipal em Secretaria da Cidadania com atuação e orçamento.

PAPEL – II
A ideia é criar uma secretaria para acompanhar os programas municipais e neles introduzir e fortalecer uma ação voltada para a cidadania. Uma palavra de ordem de quem quer governa bem no mundo atual.

ALIÁS – III
É bom que o advogado Marcos Dionísio consiga realmente instalar a Secretaria da Cidadania sob pena de limitar sua presença na gestão municipal a chefiar a guarda municipal. O seu papel deve ser maior.

ESTILO
Desatenção. Esta a real causa da decepção do secretário Kércio Silva Pinto. Nada do acertado com ele foi cumprido. Chegou a sofrer ordem superior desmoralizando suas decisões. E vem mais coisa por aí.

AUSENTE – I
Só dois quadriciclos dos bombeiros tomavam conta dos banhistas entre Redinha e Santa Rita. A polícia montada não deu as caras. A grande Operação Verão foi em 2010. De lá pra cá vem faltando o apoio.

ALIÁS – II
Numa coisa o governo Rosalba Ciarlini mostrou que é ágil e tem sua caneta cheia: para contratar fogos, shows e balões gigantes da propaganda governamental. Eles ainda flutuam em cores na Praia do Forte.

AVISO
Mesmo que para o governo não tenha lá essa importância toda, é sempre bom avisar: os seis meses de vigência do estado de calamidade na saúde acabam nos últimos clarins de Momo. Depois, virá o caos.

RAIOS
Cientistas da Universidade de São Paulo mostram que o envelhecimento da cachaça é só um mito. É tanto que envelheceram na USP com Raios Gama, sem precisar de anos e anos em tonéis de madeira.

RECEITA
Do filósofo Luiz Felipe Pondé soprando o bolor da vida: ‘Nelson Rodrigues costumava dizer que todas as qualidades que fazem de um homem um grande e desejado homem são inviáveis em bons maridos’.

GOETHE – I
A falsa erudição, auricular e decorativa, levou o prefeito Carlos Eduardo Alves a começar seu discurso citando Goethe. Perdeu a oportunidade de citar um poeta da cidade, hoje tão empobrecida de grandeza.

ALÉM – II
De cometer ato falho revelador do seu espírito que um estilista de formação democrática certamente teria preferido evitar: o seu sonho castrense de ‘comandar’ a cidade ao invés de governá-la com todos.

AUSÊNCIA – I
Nem o medo da vaia justifica a ausência da governadora Rosalba Ciarlini da solenidade de posse do prefeito Carlos Eduardo Alves. Aliás, é de um mossoroísmo lampiônico e consagrador da própria vaia.

PIOR – II
Ao invés de fixar a presença, encerrar simbolicamente todas as lutas e colocar o governo a serviço de Natal, onde teve grandes votações para senadora e governadora, caiu num silêncio típico da omissão.

POESIA
Bela a edição e ‘O Ramo, o Vento’, poemas de Octávio Paz para as crianças e os jovens. Talvez o jeito mais perfeito – em forma de pássaro – de apresentar a poesia a quem precisa descobri-la para sempre.

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