Frenesi jazzístico em Natal com show apoteótico de Germaine Bazzle

Até o intervalo que antecedeu o show de Aurora Nealand, uma boa leva de pessoas chegou ao Teatro Riachuelo

Aurora Nealand foi acompanhada por um time de peso, com os mesmos integrantes da 504 Experience e do trompetista Leon ‘Kid Chocolate’ Brown. Foto: Divulgação
Aurora Nealand foi acompanhada por um time de peso, com os mesmos integrantes da 504 Experience e do trompetista Leon ‘Kid Chocolate’ Brown. Foto: Divulgação

Conrado Carlos

Editor de Cultura

 

No instante em que sentei para ver o show do Duo Taufic, dos irmãos Roberto e Eduardo, tive a certeza de que a segunda noite do MPB Jazz seria especial. De cara, vejo na cadeira da frente um sujeito grande, com madeixas compridas e cacheadas. Espero até vê-lo de perfil para confirmar: era Sérgio Groove, o baixista que integra o seleto grupo de músicos potiguares com talento de sobra para tocar em qualquer festival do mundo. “Vai ser a entrevista mais fácil que já fiz”, foi meu boa noite, em seu ouvido. Fiquei animado em tê-lo tão perto, pronto para servir de auxilio luxuoso para minhas impressões sobre o programa que ainda previa a californiana Aurora Nealand e a veterana Germaine Bazzle. A outra comentarista seria minha filha Lis Pinheiro, de seis anos, toda serelepe, vidrada nas luzes e no som que preenchia o ambiente.

Quem conhece Sérgio sabe o quanto ele é simpático. Em fase final de masterização de um novo álbum, em que explora variações de smooth jazz com elementos eletrônicos, ele diz que em menos de um mês o trabalho estará disponível na internet. “Não terá o CD físico, será todo para download”. No palco, os irmãos Taufic nos forçava uma contração do maxilar, com uma coleção de joias autorais e de clássicos da MPB em versões chorinho-jazzísticas. A harmonia da dupla descendente de árabes soa como se o mais velho, Roberto (48 anos), chamasse o caçula Eduardo (37) para brincar no quintal de casa com os presentes recebidos no dia do aniversário, tamanha é a felicidade que exalam. Olhares, sorrisos, gestos, tudo se encaixa na proposta de extrapolar temas conhecidos, como Chega de Saudade, de Tom Jobin, e apresentar repertório próprio, calcado no CD Bate Rebate.

Elogiado por Egberto Gismonti, Ivan Lins e Hermeto Pascoal, o Duo Taufic fez com que um senhor sentado atrás de mim dissesse em duas ocasiões: “Maravilhoso! Maravilhoso!”. Eduardo já tocou em mais de 400 álbuns (inclusive todos os de Sérgio Groove). E Roberto…bem, ele pode ser descrito com louvor por italianos, que tiveram a honra de curti-lo em alguns de seus principais eventos, estúdios e discos lançados, durante quatro anos em que morou na Bota. Ou então por Elza Soares, que o teve como violonista nos anos 1990. O hondurenho de nascimento, no Brasil desde os cinco anos, é daqueles instrumentistas que pavimenta a ponte entre o popular e o erudito com material sólido e acabamento requintado. Como em Apanhei-te Cavaquinho, de Ernesto Nazareth, em que Roberto anunciou a intenção de mesclar o choro com o jazz de Nova Orleans. Sérgio definiu com precisão: “Nós vamos embora com o coração leve, cheio de alegria, depois de ver um show desse. Eles fazem bem para nossos olhos e ouvidos. Os dois são um só”.

O público, como em jogos de futebol em centros urbanos conturbados, aumentou no decorrer da noite. Até o intervalo que antecedeu o show de Aurora Nealand, uma boa leva de pessoas chegou ao Teatro Riachuelo. Outrora vazio, os assentos à minha direita foram ocupados por um quarteto de mulheres. Uma delas usava um perfume adocicado de revirar o paracetamol no juízo, talvez efeito da empolgação com o evento internacional. Feio na quinta-feira, quando aguentei mais de duas horas o aroma acre de uma cabeleira feminina mal lavada, teria de superar essa barreira odorífera para ver uma das melhores exibições de um artista estrangeiro em solo potiguar. Com todo exagero da assertiva anterior, a bonita Aurora tocou um set enxuto (dez números), mas de uma riqueza ímpar. Ela canta, toca e esbanja carisma de quem nasceu para fazer aquilo – em 2010, foi eleita pela Downbeat, ainda a Bíblia do jazz, uma das dez melhores no sax soprano.

Aurora Nealand foi acompanhada por um time de peso, com os mesmos integrantes da 504 Experience e do trompetista Leon ‘Kid Chocolate’ Brown, ambos atrações do dia anterior. Então, já viu, né? Monstros no palco capitaneado pela loirinha que um dia cismou de percorrer os Estados Unidos de bicicleta para colher áudios e imagens dos rincões ‘profundos’. Daí sua incursão por Nova Orleans, cidade onde mora desde 2004. Além da carreira solo, ela mantém participação ativa em duas bandas, uma de rockabilly, chamada Rory Danger and The Danger Dangers, e outra uma tradicional jazz band, a The Royal Roses, com quem gravou um tributo ao trompetista maldito Sidney Bechet – creole errático, preso várias vezes por agredir mulheres e se envolver em tiroteios, mas um dos solistas embrionários do gênero, na primeira metade do século passado; ele é o compositor da sublime Si Tu Vois Ma Mère, trilha de Meia Noite em Paris, de Woody Allen.

Cada vez que eu via Sérgio Groove acompanhar o ritmo com a cabeça e demonstrar espanto com o show, vinha a certeza do acerto da curadoria em trazer Aurora a Natal. Os olhos do baixista natalense oscilavam entre o centro do palco e o gigante Gerald French, baterista que elogiei no comentário de ontem e que volto a destacar. Impressionante desde seu aspecto físico, o líder da Original Tuxedo Jazz Band (uma instituição musical formada em 1910 para formalizar a história do gênero em Nova Orleans, com apenas quatro outros comandantes em mais de um século de existência; seu pai, Bob French, foi um deles) costuma brincar em entrevistas com o fato de a família ser cheia de músicos, todos “bons cozinheiros”. Por isso o tamanho da galera descendente de caribenhos – entrou para minha lista da fina flor dos bateras atuais, ao lado de Greg Hutchinson, membro do quarteto do saxofonista Joshua Redman. Caribe, por sinal, uma das fortes influências de Aurora. Os temas Shake It and Break It e Tropical Moon Rhumba (Sidney Bechet) são exemplos.

Assim como a música francesa, cujo legado é um dos pilares do som que se ouve na Louisiana. Após a formatura no Oberlin College & Conservatory, no Ohio, Aurora ganhou uma bolsa para estudar um ano na Ecole du Theatre Physical Jacques Lecoq, em Paris. A fã de Stravinsky, Pixies e Joaz Baez trouxe na bagagem os alicerces que a ajudariam a entender a cultura de rua de Nova Orleans. A ‘sabrosa’ Nous Les Cuisiniere, de Alain Jean-Marie & Robert Mavounzy e o standard Ne me quitte pás, do Belga Jacques Brel, empolgaram os presentes – esta cantada na íntegra por alguém na fila de trás. Nessa hora, Lis começava com uma pescaria dorminhoca, dando ininterruptas cabeçadas no ar. Sua referência quanto ao Teatro era a peça que encenou com a turma do Colégio Contemporâneo no ano passado, relativa ao centenário de Vinícius de Morais. As palmas vigorosas ao final de cada música a despertavam, ainda que a vitória do sono fosse questão de tempo.

 

Irrequieta

Por causa do sono da pequena, fui embora no inicio da segunda parte do que Germaine Bazzle tinha preparado para o cardápio. O que não me privou de ver o quanto a mulher de 82 anos é irrequieta. Repito: com mais de oito décadas de vida, ela, que veio da escola de Sarah Vaughan e Ella Fitzgerald, ainda canta que é uma beleza e mostra um vigor sugestivo de que a coisa está só começando. Com uma longa saia branca e uma blusa vermelha, a simplicidade de quem nunca procurou os holofotes e aceitou a coadjuvância no universo das divas, mesmo sendo apontada pela crítica especializada como uma delas, contagiou quem saiu de casa na noite de ontem com o intuito de ter duas ou três horas de puro deleite –e pensar que tudo começou com um contrabaixo, sua paixão musical quando engatinhava na carreira.

Famosa por seus scats, aquele macete na voz que cantores usam para simular instrumentos improvisados sobre a melodia principal, ela disparou sentimentos extremos, ora dançantes, como em It’s All Right With Me, imortalizada numa versão de Ella com Nat King Cole, ora introspectivos, caso de A Beautiful Friendship, também interpretada por Miss Fitzgerald. Perdi as quatro últimas músicas. Via assessoria, soube que Germaine e o público cantaram juntos It Don’t Mean A Thing If It Ain’t Got a That Swing, mais um standard que Louis Armstrong trocou figurinhas com Duke Ellington. Foi o encerramento adequado para a terceira edição de um evento que entra de vez no calendário da cidade, e que deve ser observado por empresas privadas e pelo poder público como investimento para uma sociedade cada vez mais brutalizada e carente de cultura digna da alcunha. Ano que vem tem mais. Segundo Valéria Oliveira, curadora e uma das organizadoras, a ideia é expandir o intercâmbio com as demais capitais brasileiras, além da estabelecida com o berço do jazz mundial.

 

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