“Fui estuprada pelos militares”, diz filha de general cassado

Filha de um dos quatro generais a ser contrário ao golpe militar de 1964 conta que foi estuprada pelos militares durante visita à sua mãe presa; Eugênia Zerbini tinha 16 anos

Eugenia Zerbini, estuprada por um agente da ditadura, aos 16 anos, decidiu contar a história, aos 60 anos (Divulgação)
Eugenia Zerbini, estuprada por um agente da ditadura, aos 16 anos, decidiu contar a história, aos 60 anos (Divulgação)

A filha do general Euryale de Jesus Zerbini, a advogada Eugênia Zerbini, prestou depoimento durante audiência pública da CNV (Comissão Nacional da Verdade), na Assembleia Legislativa de São Paulo, e relatou os momentos de medo vividos quando foi violentada por militares.

O caso ocorreu em fevereiro de 1970, na sede da Operação Bandeirante, na Vila Mariana (zona sul), local onde sua mãe –a fundadora do Movimento Feminino pela Anistia Therezinha Godoy Zerbini– estava presa havia poucos dias.

Já seu pai já havia sido cassado por ser um dos quatro generais a ser contrário e resistir ao golpe militar de 1964. Aos 16 anos, ela contou que foi levar roupas para mãe na sede da operação. “Ao chegar lá, me perguntaram como estava minha mãe. E eu disse: ‘vocês é que devem saber’. Me arrependo. Não era para ter dito aquilo”, afirmou.

A advogada relatou que, naquele momento foi violentada. Sem apresentar detalhes, ela conta que sofreu muitos anos sem contar o caso, mas sabe que o interesse dos militares não seria com ela.

“Agora que tornei isso público, fiquei mais leve. Sei que não foi a mim, eles estavam fazendo isso para atingir meu pai e minha mãe. E eu fui um veículo que estava a mão”, afirmou.

A então adolescente disse que não teve coragem de contar o caso a familiares à época.

“Não tive coragem de falar pra ele [meu pai], não falei a minha vó. Ela estava com a outra filha presa. Ia falar para quem? Telefonar para o Rio de Janeiro? A gente fica com mais vergonha daquele que fez do que da gente”, disse.

Zerbini contou ainda que viveu momentos de horror ao deixar a sede da operação apos ser violentada. “Não sei como eu sai daquelas coisas. De repente eu estava na rua, no bairro Paraíso, e eu tinha que sair dali e lembrava: ‘não olha pra trás’. Parecia um pesadelo”, explicou.

 

Fonte: Revista Brasileiros e site Pragmatismo Político

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