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Fuzuê na seleção

Data: 08 fevereiro 2013 - Hora: 18:09 - Por: Rubens Lemos Filho

É vasta a clientela de Pai Fuzuê, babalorixá de 172 quilos e mogangas variadas, estabelecido numa viela secreta perto do Bom Pastor, bairro da Zona Oeste de Natal. Nascido Françoaldo Nazário da Silva, jamais leu sobre umbanda ou candomblé. Conhece a África pelo Mapa Mundi.

Gostava de brincar de búzios na Praia da Redinha e, desempregado, decidiu faz 20 anos ganhar dinheiro apostando no dom da adivinhação e de profecias banais, lógicas.E na inocência humana.

“Suncê vai ter uma mulher na sua vida. Suncê vai amar essa mulher que depois vai deixar Suncê triste”. Qual o infeliz que nunca teve uma mulher e jamais ficou triste ou com raiva dela, mesmo fazendo as pazes depois?

Pai Fuzuê aposta no óbvio e garante 50 reais a cada consulta. Em seus transes ensaiados, surpreende os crédulos com passos de Demi plié de balé. Sua barriga vai ao chão de terra batida da pequena sala de sua casa.

Maridos traídos, devedores naufragados e irrecuperáveis, alcoólatras, idosos buscando filhos ingratos, filhos abandonados procurando pais perversos. É a base da freguesia de Pai Fuzuê.

Montou um banco de endereços eletrônicos e oferece de forma discreta os seus serviços:”Se você não tem mais o que fazer, venha para o Pai Fuzuê”.

 

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Por semana, a média de atendimentos chega a 50 pessoas. Pai Fuzuê não aceita cheques, depois de levar um calote de conhecido vigarista metido a sabichão. Queria que Pai Fuzuê resolvesse seu eterno processo de crise criativa. “Suncê é burro e recalcado. Suncê deve pular da Ponte de Todos”. Vingativo, o rapazola passou o borrachudo.

Pai Fuzuê é fanático por futebol e desejava a quarta-zaga do Ferroviário, extinto há três décadas, seu clube de coração. Gordinho, foi barrado num teste em que faltaram pretendentes e o seu time jogou com apenas nove.

“Sai, você não tem vaga não. Vá fazer regime”, humilhou o técnico, o finado Cambraia, que morreria assassinado com uma facada nas tripas não se sabe se após a praga rogada por Pai Fuzuê, à época chamado de “França”.

Três dias antes da bisonha partida do Brasil em Wembley contra a Inglaterra, Pai Fuzuê resolveu fazer chacota de si mesmo. Sozinho em casa, suado e sem camisa, sacudiu os búzios no chão.

Ficou tonto, parecia tomado de possessão. Rodopiou numa perna só, fazendo o “quatro”, tremeu da bochecha ao dedão(eqüivale a 16 do meu), gritou “zanzê” por 36 segundos e desmaiou.

Pai Fuzuê se viu em Londres, minutos antes da peleja, dois times perfilados, prontos para os hinos. O Brasil bem diferente. Um escrete de mediocridades dos anos 1970: Jairo do Coritiba no gol; Orlando Lelé,Manguito, Beto Fuscão(foto) e Deodoro do Juventus; Caçapava, Neca e Brecha; Cremilson do Botafogo, Beijoca e Flecha improvisado na ponta-esquerda. A comissão técnica ele não viu diferente.

O English Team com três alterações em relação ao jogo de quarta-feira. No gol,Gordon Banks, vestido como na Copa de 1970, ocupava o lugar de Hart. Bobby Moore(o de 1966), substituía Cole e no meio-campo, luzindo aos 17 anos, Michel Owen trajava a 8, em lugar de Wilshare.

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O árbitro português Pedro Proença apitou e começou a luta. Owen, Rooney e Walcott armam triangulação pela direita. Toques e deslocamentos. Deodoro, atordoado, mira na primeira canela que vê. Owen joga no meio de suas pernas e esbarra em Beto Fuscão.
A bola, contrariada, quica e Caçapava acerta um lançamento digno de Gerson na ponta-direita. Com sua cabeleira black power, Cremílson dança na frente de Smalling, aplica-lhe uma pedalada no primeiro drible de toda sua carreira, dá um balão em Gerrard e consegue – imagine, você que viu Cremílson -, acertar um cruzamento.

Ao mesmo tempo, Beto Fuscão sobe para a área inglesa. Bobby Moore o encara. Beto Fuscão estira o dedo para o antológico craque bretão, dá as costas e mete a bunda na bola.

Banks, distraído ouvindo Beatles num IPod, nem vê a gorducha entrar de mansinho, sem tocar na rede. Gol de Beto Fuscão, de bunda. Enquanto delira, Pai Fuzuê dispara flatulências químicas.

A Inglaterra retoma o controle. Walcott, o Neymar deles, com a vantagem de que funciona, arranca e dá um breque levando Neca, Brecha e Flecha à bandeirinha de escanteio. Deodoro paquera uma loira sentada nas cadeiras e nem presta atenção. Walcott rola para Rooney disparar um míssil no canto direito.

Com sua agilidade de girafa, Jairo tropeça nas próprias canelas, bate a cabeça na trave e o seu calcanhar tira a bola. Que sobra na pequena área com Manguito e Lampard disputando.

Lampard, tigre no instinto, arma o pé para o chute. Manguito saca um 38 guardado no calção e afugenta o inglês. Depois recolhe o revólver, calmamente. A pressão é intensa como um bombardeio em Bagdá.

Os ingleses estão afinados. Owen dribla seis ao mesmo tempo e Caçapava, agora inspirado em Clodoaldo, faz o desarme sem tocar no adversário. Fim de jogo: Brasil 1×0.

Pai Fuzuê desperta como um guerreiro tribal, esmurra o peito e berra, acordando os vizinhos mais próximos, a 15 km de distância: “Fuscão! Fuscão!, chama ele Felipão!”. Repetiu a frase, sem parar, até ontem às 22h38.

Foi internado no hospício. Bolinou enfermeiras. Puseram algemas gigantes em seus pés e mãos. Sedado, ainda tentou subornar o médico: “Quer um ensaio de Margareth Thatcher nua? Eu trouxe de Londres.” Entrou em tratamento de choque.

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Fernandes
A demissão de Roberto Fernandes pode ter surpreendido muita gente. Mas se conheço o presidente do América, Alex Padang, ele compreendeu o poder expansivo do técnico. Resolveu mostrar quem manda. Toda revolução é um ato de coragem e o América está sendo, no mínimo, ousado ao recomeçar quase do zero.

Intocável
Jerson com Jota ficou sem nada.

Quanto mais
Com a chegada do lateral Thiaguinho e dos atacantes Jheymy e Júnior, o ABC engorda o seu elenco. Pela bola redonda de Renato, acho difícil Thiaguinho entrar no time.

Acertando
Givanildo está acertando o ABC com Lopes no gol e Edson de titular mais que absoluto. Time vem ganhando ritmo na hora certa.

A pulga
De contrato renovado com o Barcelona até 2018, Messi segue maravilhando o planeta. Sem enganar contra os Bragantinos da vida.

LC
O técnico Leandro Campos é uma sina na vida do ABC.

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