George R. R. Martin fala do suposto estupro em Game of Thrones

A série baseada nas Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, traz cenas de virar o estômago.

Foto: Divulgação
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Decaptar um protagonista ao fim do primeiro episódio é uma jogada arriscada para qualquer série, mas foi assim que Game of Thrones fincou sua espada na terra e anunciou que não está no ar para brincadeiras. A produção desde então flerta com os limites morais, com violência gráfica, sexo depravado, castração, homens queimados vivos, prostitutas sendo atravessadas por flechas, etc.

Assim, não é de hoje que a série baseada nas Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, traz cenas de virar o estômago. Mas, para alguns, o último episódio foi longe demais. E as redes sociais foram tomadas por críticas, revoltas e reclamações sobre uma sequência que, dizem, passou do limite moral aceitável.

A cena em questão é o aguardado reencontro carnal de Jaime Lannister com sua irmã gêmea, Cersei, no velório de Joffrey, fruto da relação incestuosa dos dois. Após muito tempo separados, os dois consumam o ato ali, ao lado do corpo ainda morno do filho dos dois e, até então, rei de Westeros.

Se alguém achava que Jaime havia se convertido em bom moço nos anos de exílio, enfatuado por sua relação com Brienne, a decepção foi certeira. E houve gente que visse no ato um estupro puro e simples.

Não há um episódio de Game of Thrones que eu assista sem repercutir com Roberto Godoy, respeitado jornalista do Estadão e profundo conhecedor da obra de Martin. (Ele assinou este texto publicado no Caderno 2 na ocasião da estreia desta temporada. Leia aqui.)

Godoy me contou que, no livro, não fica exatamente claro se a relação foi consensual ou não, uma vez que ela é relatada do ponto de vista de Jaime, mas que essa é uma forte possibilidade que o autor deixa no ar. Até porque Cersei não perdoou o irmão por ter sido capturado, e é forte a tensão sexual entre os dois com o retorno dele – por mais que ela tenha um amante nos livros (um personagem que está na série, e que não revelarei quem é para não estragar a surpresa caso ele apareça). Nas páginas, a relação trata mais do reencontro de duas pessoas pertubadas.

Mesmo o ator protagonista da cena reconhece o peso moral de filmar uma sequência assim. “Foi muito difícil entender a psicologia por trás daquele ato e os motivos pelos quais Jaime vai tão longe no que faz. Em que momento o desejo físico toma conta de alguém? Ele tem se segurado por tanto tempo que, quando é tomadopela raiva, pelo instinto, ele se entrega. Ele diz: ‘Não me importo’. Porque ele não quer se importar, ele quer se conectar com ela, mas, naquele momento, ele sabe que é a única maneira disso acontecer. É um ato de impotência”, afirmou o ator Nikolaj Coster-Waldau, que interpreta Jaime, ao The Daily Beast.

Ele conta que foi uma das cenas mais difíceis de filmar e diz que, do seu ponto de vista, é e não é um estupro ao mesmo tempo, já que há momentos em que ela luta contra ele e outros em que ela cede. “Demorei um tempo para entender tudo, porque achava que, para alguns, aquilo pareceria um estupro. Mas a intenção não é essa: é abordar duas pessoas que tiveram muita conexão, em boa parte física, por muitos anos, e que têm de manter isso em segredo”, afirma. E completa: “A cena mostra ele tentando forçá-la a voltar para ele e torná-lo inteiro mais uma vez por causa da droga da mão que ele perdeu”.

Inflamados, os fãs da série foram questionar o único homem capaz de responder definitivamente se a cena foi ou não fiel ao que se passa nos livros: George R. R. Martin. E o autor está usando os comentários de seu blog pessoal para falar do assunto (mostrando estar irritado com o fato de essas questões aparecem em posts que não têm nada a ver com o assunto). Leia a seguir o comentário do autor:

“Nos livros, Jaime não está presente quando Joffrey morre e, de fato, Cersei teme que ele mesmo esteja morto, que ela tenha perdido o filho e seu pai/amante/irmão. De repente, Jaime está diante dela. Mudado, mas ainda Jaime. Apesar de o local e de o momento serem extremamente inapropriados, e de Cersei ter medo de serem descobertos, ela o deseja tanto quanto ele.

A dinâmica é muito diferente na série de TV, na qual Jaime está de volta há semanas, no mínimo, talvez há mais tempo, e Cersei e ele já estiveram na companhia um do outro em diversas ocasiões, normalmente brigando. A situação é a mesma, mas nenhum dos personagens está no mesmo local em que está nos livros. Deve ser porque Dan e David alteraram o roteiro. Mas essa é a minha visão, e nunca discutimos esta cena em particular, que eu me lembre.

Além disso, escrevi a cena no livro do ponto de vista de Jaime, então o leitor estava dentro da cabeça dele, lendo seus pensamentos. Na série de TV, a câmera é por definição externa. Não se sabe o que alguém está realmente sentindo ou pensando, apenas o que estão fazendo e dizendo.

Se o roteiro manteve alguns dos diálogos de Cersei dos livros, deve ter deixado uma impressão levemente diferente – mas o diálogo é basicamente moldado pelas circunstâncias do livro, ditas por uma mulher que está revendo seu amante depois de muito tempo, depois de pensar que ele havia morrido. Não tenho certeza de que isso funciona no novo roteiro.

Isso é tudo o que posso dizer sobre o assunto. A cena sempre teve a intenção de ser perturbadora… Mas sinto muito se ela perturbou as pessoas pelas razões erradas.”

Ou seja, o modo cínico como o programa escancara dilemas morais e a sede pelo poder, antes de ser um causador de repulsa, é o motivo pelo qual não conseguimos afastar os olhos de Game of Thrones. E tem funcionado: este episódio foi visto por quase 8 milhões de norte-americanos. Cinco por cento a mais do que o público da semana passada e um empate com a recordista estreia desta quarta temporada.

 

Fonte: Estadão

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