Geraldo Azevedo faz show em Natal para quem gosta de sertanejo e MPB

Com abertura de Nara Costa, Geraldão se apresentará neste sábado no Teatro Riachuelo, às 21 horas

Conr3

Conrado Carlos

Editor de Cultura

Acredito no método de sempre ouvir o primeiro álbum de um artista que nos chega consagrado, antes de fazermos um julgamento tortuoso sobre sua carreira. Ainda mais se ele for considerado datado ou ‘regional’, como gosta de citar parte da crítica. Sem vivenciar o momento em que eles surgiram, temos chance de cairmos na armadilha camuflada pelo tempo, que tudo transforma e degrada. Ouvimos temas famosos, encaixamos em um modelo estético e o estrago é consumado. Com isso, limitamos o que mentes privilegiadas queriam expandir em várias direções. Um desses casos é o de Geraldo Azevedo, que se apresentará amanhã (26) no Teatro Riachuelo, às 21 horas. Com abertura da cantora Nara Costa, ele fará um daqueles shows de voz e violão que sintetizam décadas de experiências criativas.

Para toda uma geração, Geraldo é o mais sensível dos partícipes d’O Grande Encontro, a reunião com Elba e Zé Ramalho, e o eterno parceiro Alceu Valença, que, em meados dos anos 1990, ecoou em todas as esquinas deste continente chamado Brasil. Foram três discos de enorme sucesso, a ponto de promover um resgate da obra dos envolvidos. “Táxi Lunar”, “Bicho de sete cabeças”, “Dia Branco”, “Chorando e cantando” logo entraram no stereo de quem desconhecia o caboclo de Petrolina que aos 12 anos já dominava o violão. E, como é costume para a maioria do público massificado, ver a origem daquilo tudo foi esquecido. Depois de uma segunda metade dos anos 1960 de alta produtividade, com inúmeras parcerias e inserções em bandas alheias, vieram os 70s, e Geraldo flutuou em voo solo.

Portanto, se você pensa em vê-lo em ação amanha, escute o disco homônimo de 1977, com fone de ouvido e algumas cervejas ao lado. Inovação e lirismo sobram em faixas, como “Cadê meu carnaval”, cujo violão e coral a la Os Afrosambas de Vinícius de Morais e Baden Powell é viciante; ou no pot-pourri “Correnteza”, com “Caravana”, “Talismã” e “Barcarola do São Francisco” mostrando com quantos paus se faz boa música nordestina, sertaneja, brasileira e universal. Em “Cravo Vermelho”, ele diz: “Eu sou daqui, mas vim de longe”, para os cariocas de Copacabana que o acolheram, primeiro com indiferença, depois, com respeito. Uma vida meio riponga que, se fosse norte-americana, ganharia tributos e videobiografias – o cinema nacional não sabe vender o peixe de nossos músicos.

“Essa turma aí, Geraldo, Alceu, Zé Ramalho compôs uma parte da história da música brasileira. Genuinamente brasileira. Não só quem é do nordeste se identifica com suas letras, mas qualquer um que nasceu no interior, que seja romântica ou simplesmente goste de boa música, que ainda valoriza aquela coisa pura que tem no campo”, teoriza Marcos Barreto, um oficial do Exército da reserva que resolveu se aprofundar na cultura nativa. Mineiro de nascimento, mas radicado em Natal desde 1997, o ingresso comprado para a noite de amanhã significa mais que um simples programa com a esposa. “Eu já fui a vários shows do Geraldo, mas sempre vejo coisas novas nas letras e nos arranjos que ele faz” – além dos números notórios, uma série de inéditas composições, previstas para um novo disco a ser lançado ainda este ano, fará parte do setlist.

Marcos conheceu o som de Geraldo com uma coletânea presenteada por um amigo. No entanto, ao contrário dos consumidores desse formato de produto, foi em busca do passado do pernambucano. Ao se deparar com a riqueza sonora do dedilhado fácil, suave, uma espécie de cool do Agreste, veio o arrebatamento. “Fiquei fascinado pela beleza de suas músicas. Minha família é do interior de Minas. Quando mandei alguns CDs para eles, isso, sei lá, uns dezoito, vinte anos atrás, quando comecei a vir ao Nordeste, eles adoraram”. Agora é só esperar as próximas 24 horas, o que será feito com uma retrospectiva do provável repertório apresentado no Teatro Riachuelo. “Nos dias anteriores a um show, acho legal ouvir bem o artista, para chegar afiado. Não só para cantar junto, mas para criar a familiaridade que completa o show”.

 

 

Compartilhar: