Geraldo Melo, o vento que soprou forte há 27 anos no Rio Grande do Norte

15 de março de 1986, governador do PMDB toma posse no Palácio Potengi

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Rubens Lemos Filho

Especial

Repórter aos 20 anos tinha (hoje não), inconseqûencia no lutar. Aprender. Em casa eu dispunha de meu pai, um professor, dignidade, qualidade, senhor texto. Dele, escolha pessoal, o nome de batismo. Desde a derrota de Radir Pereira para Jessé Freire ao Senado em 1978, derrota que fez o meu pai chorar, havia o sentimento de vindita. A ditadura torturava nos porões e cortava esperanças nas sublegendas eleitorais.

Meninote, minha arma era uma uma baladeira e com ela derrubaria divisões alemães pela democracia. Democracia foi um direito negado a mim. Aos meus pais, trancaram as mínimas condições de sobrevivência. Salvas por Aluízio e Agnelo Alves. Meu pai, o epitáfio, estava longe do Rio Grande do Norte no tempo em que eu era do contra. Contra o que restava de um período sofrido em nossas cicatrizes.

Os cataventos sopraram, o tempo girou e um baixinho, técnico, criativo, inteligência irmã de Aluízio Alves, venceu. Era o Tambor das novas danças. Geraldo Melo, grande campanha, maior que o governo, onde teve que conciliar com adversários em nome das circustâncias do poder, da governabilidade. Poder que o enojava pelos malas bajuladores , que pela ternidade , formarão mediocridade adulatória e suprapartidária.

Eleito, mandando porque nasceu para mandar, Geraldo Melo bateu na porta de minha casa sem eu nem votar. Claro que ele não foi, mandou buscar. Os jornalistas João Ururahy e Afonso Laurentino me alegraram com a bela notícia para o casado novo, crediário aberto e desde então, mesma família. Fui convidado para ser repórter do governador repórter. São quase três décadas, impolutos de araque.

Voltando ao tempo. Aos 16 anos, sonhos no peito e rebeldia magriça, corri, corri atrás do Impacto Cinco na mais linda campanha eleitoral desde que sou vivente. Geraldo Melo contra João Faustino. Homens acima do radicalismo que ferveu. Ao cumprimentar Geraldo, reafirmo a saudade de João.

Morto e indefeso. A campanha de Geraldo Melo eletrizou quando ele reconheceu que perdia – por muito-, nas pesquisas e venceria olho no olho, voto a voto. Discurso de macho, brabo e desafiado. “Sopra. Sopra um vento forte/no rio grande do norte/ vento diferente/que traz alegria” assim começava.”Agora encontra com Geraldo Melo/ Nova esperança pra a gente viver urra/esse vento traz Geraldo e a nossa sorte vai mudar/

O Tamborete na campanha mostra agora o seu valor( trecho de outra marcha de exaltação, como toda ela paupérrima na criação). Atribuo ao governador, uns 28,5% (né assim, doença percentual?) da minha gastrite ulcerativa. Implacável, impiedoso ao detonar o que não gostava. Era ele, puro. Um triturador nas cobranças.

Nos reencontramos em 1994. Ele candidato a senador – eleito em primeiro lugar na chapa do governador Garibaldi Filho. Quase puxa o sindicalista agricultor Francisco Urbano. Giramos o Elefante bovino de trás pra frente.Discurso em João Dias, faroeste soturno a 400 km daqui.

Geraldo conversando com o eleitor. Me atrevi. Fui até ao locutor Ely Santos (craque de palanque) e comentei, dias depois do tetracampeonato.Fui também na corda do deputado estadual Leonardo Arruda: “Ely, rapá, todo baixinho é enjoado e todo enjoado é Romário (ganhou a Copa carregando mais 22 nas costas) e Geraldo”. Ely, malandro, maior gestor de emoções políticas, temperou o mote: “Vai falar ele, o governador do leite, da segurança, da duplicação da Ponte de Igapó, vai falar o Romário Potiguar!” Gostou sem dizer. Um elogio de Geraldo Melo é tão normal quanto bater papo com Barack Obama.

Ajeitou a manga da camisa, deu 16 esbregues no conjunto musical e na assessoria, atitude tão corriqueira quanto um drible de Garrincha e pigarreou antes de recitar. Geraldo não discursa, declama: “Meus amigos de João Dias (eram inimigos e aderiram 24 horas antes), quem toma atitude libertária tem coração e quem tem coração, arranca o medo da caixa dos peitos. Vocês estão livres. E já que estão me chamando de Romário, ele é mais chato”. Desci do palanque pra tilintar o texto na máquina Olivetti Lettera 32 (juntem Macboks) e prefiro ela, me olhando suplicante. Ao tentar um lugar livre pra cuspir laudas, vi chorando homens rurais castigados pela seca da época.

Hipnotizados pela maior oratória depois de Aluizio Alves. Tinha que dar esse depoimento. Geraldo Melo está tomado por um desencanto natural da política. Fez um bom governo.Que não vi começar. Que vi terminar, repórter novo e maravilhado nos papos de sábado.

Geraldo, João Ururahy, Zé Wilde, Afonso Laurentino Ramos, Benivaldo Azevedo, Luciano Herbert, Aluisio Lacerda. Filho de exilado e a contragosto, perdi sua posse. Lacrimejava ao telefone, de ouvinte a minha saudade renitente, mãe-avó Maria do Carmo Carneiro de Melo, comadre de Maria Eugênia, tia de Geraldo e madrinha de minha mãe.

Vovó morreu em 2011. Quando viajei, 11/03/1987: virei exilado dolorido de tortura nostálgica em Cuiabá(MT), para onde fui me debatendo, resistindo, Chorando. O amor ao seu chão só tem valor na distância. Natal é minha pátria e o meu distanciamento, é sossego aos 43 anos.

Hoje vivo em minha casa pelas viagens dolorosas que não escolhi.E não fui, foram me levando, menção honrosa ao compositor Dosinho. Dia 15/03/1987. Geraldo Melo implantava um tempo novo que lhe custou caro. Dia 15/03/2014. Geraldo Melo faz falta à política. Gosto muito dele. Sou grato a ele. É abusado, eu sei. Melhor que melífluos.

Haverá uma procissão de palanques saudosistas, pedindo pra ele voltar.

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