Glórias acima da Copa

O Estádio Beira-Rio em Porto Alegre (RS) está erguido sobre o aterro de parte do Rio Guaíba e a sua…

O Estádio Beira-Rio em Porto Alegre (RS) está erguido sobre o aterro de parte do Rio Guaíba e a sua história é feita do sangue da paixão colorada da torcida do Internacional. Longos anos de edificação peregrina.

O prefeito de Porto Alegre, José Fortunatti (PDT), anunciou que o estádio, reformado, mas não destruído como ocorreu com o Machadão em Natal, corre o risco de ficar fora do Mundial caso providências burocráticas e políticas não sejam tomadas.

Estão previstos cinco jogos para o Gigante da Beira-Rio, como é chamado com orgulho o monumento erguido à base de amor e sacrifício de um povo alucinado. No sorteio da Fifa, caíram para Porto Alegre, na primeira fase, França x Honduras, Holanda x Austrália, Argélia x Coréia do Sul e Argentina x Nigéria. Também marcada uma peleja pelas oitavas de final.

O Beira-Rio merece a Copa do Mundo embora sua história majestosa não seja arranhada se por um acaso ficar de fora. É jogo de cena e ao final, as barganhas de bastidores serão atendidas. É proverbial: nenhum jogo de Copa será maior que as glórias ali vividas.

O Beira-Rio ganhou o reconhecimento e a legitimidade do mundo desde a sua inauguração a 6 de abril de 1969. O Inter, capitaneado pelo zagueiro Scala, da seleção brasileira de João Saldanha, venceu o famoso Benfica, base da seleção portuguesa, sensação da Copa de três anos antes. O Inter abriu o placar num cruzamento do ponta Valdomiro para o gorducho centroavante Claudiomiro. Eusébio empatou e o ponta-esquerda Gilson Porto marcou o 2×1 num balaço cobrando falta.

Scala e Gilson Porto jogariam no América de Natal. Foram campeões da Taça Almir, o Norte/Nordeste de 1973. Scala foi grande amigo de nossa família, comentarista de rádio tal o meu pai e Gilson Porto, nosso vizinho na Rua Juvenal Lamartine, ali nas proximidades da sede da AABB, no bairro do Tirol. Montou até um restaurante, o Bom Baiano. Scala e Gilson Porto estão mortos, meu pai também.

A pujança moral de um estádio é a alma do Beira-Rio. Antes dele, o Inter era um time regional que apanhava do Grêmio, imperando em seu Olímpico. Foi feita uma campanha onde a torcida entrou com amor e dinheiro.

Colorados lançaram-se em cruzada pelo sonho de grandeza, de superioridade sobre o grande rival. O Inter tinha o velho campo dos Eucaliptos, onde houve jogo da Copa de 1950, velhinho, modesto. Precisava de uma casa própria em forma de mansão.

O filme Nada Vai Nos Separar traz depoimentos tocantes de homens e mulheres que saíam de casa carregando sacos de cimento para doar ao clube. Velhinhos mostram cópias do ingresso da inauguração e meninos relembram chorando da paixão transmitida pelos pais fanáticos.

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Como no clássico do faroeste estrelado por Gregory Peck, no futebol também Da Terra Nascem os Homens. De sofredor conformado, quase profissional da humilhação, o Inter se tornou proporcional à obra exuberante e tomou o cetro do Grêmio.

Foi octacampeão gaúcho, de 1969 a 1976. Exibiu ao Brasil um centauro chileno, melhor zagueiro do Mundo, Elias Figueroa, seu capitão e símbolo de superioridade. Figueroa chegou, demarcou a grande área e parece tê-la cercado de fios elétricos. Transformou-a em sua propriedade particular. Domou adversários e impulsionou o Internacional para longe das fronteiras gaúchas.

O Internacional atingiu o topo. Melhor time do país nos anos 1970. O mundo girava e do Chuí sopravam os ventos uivantes de um timaço. Campeão de 1975 derrotando a Máquina Tricolor do Fluminense em 1975 pelas semifinais, Carpegiani no meio-campo anulando Rivelino e provando: um jogador clássico pode ser moderno sem perder a elegância.

Na decisão, o goleiro Manga segurou os chutes potentes e venenosos do lateral Nelinho, barrou até a Inconfidência Mineira. Elias Figueroa subiu na grande área adversária e fez 1×0, resultado do título. Figueroa cabeceou no exato instante em que um raio de sol clareava sobre o seu corpo em elasticidade, referendando a figura luminar.

O Internacional ganhou o bicampeonato brasileiro de 1976 mais nas semifinais do que na decisão. Perdia para o Atlético Mineiro e conseguiu empatar num chute forte do jovem volante Batista.

No minuto final, uma repentina linha de passe até o chute sofrido, matando o goleiro agrentino Ortiz. Virada por 2×1. Contra o Corinthians, 2×0 bocejantes e o bicampeonato coroando um estilo mais do que onze jogadores.

O tricampeonato nem teve graça. O Inter de Batista, Falcão, Jair e Mário Sérgio triturou o Vasco no Rio de Janeiro e respeitou o adversário, vencendo a segundo por 2×1. Título invicto. Eis uma síntese soberba do Inter após o seu estádio.

Onde foram vencidos outros campeonatos gaúchos, a Copa do Brasil e Libertadores das Américas. Ótimo que o Beira-Rio receba jogos da Copa do Mundo. Se não der, permanecerá capital colorada no regime da monarquia. Liderança do Rei que também governou Roma: Paulo Roberto Falcão.

 

Zé Teodoro e Lázaro

Assim que assumiu o ABC, no primeiro treino, o técnico Zé Teodoro deparou-se com assombrações reais. Seis jogadores que estavam no inquilinato do Departamento Médico, voltaram, lépidos e radiantes ao treinamentos. Nem Lázaro ressuscitou tão ligeiro.

Encarar a realidade

O ABC pega o Corinthians hoje à noite e deve ir ao jogo sem tensões. O Campeonato Estadual foi para a Patagônia e não deve voltar mais. A torcida, se for, é para assistir calmamente, como exercício de relaxamento ou de masoquismo.

Agressões

As invasões nos campos de treinamentos do ABC e do Potiguar mostram que a falta de punição severa vai levando os vândalos mais adiante.

Torcer contra

Uma pena que o velho discurso dos “abecedistas que torcem contra “tenha voltado nas entrevistas oficiais. Torcedor não torce contra. E se crítico fosse responsável pelo que faz quem vence e administra, José Serra seria culpado pelos males de Dilma Rousseff.

Reforços

O lateral-esquerdo Wanderson está voltando ao América. Nos últimos anos, foi o melhor com a camisa vermelha. É pensar em Rai e imaginar o quanto é enorme a diferença.

Adiel de Lima

O torcedor guerreiro do Castelão foi enterrado com paletó, gravata e escudo do ABC.

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