Graciliano, Cascudo e os penicos
As manias, Senhor Redator, se não são mórbidas, levam sempre a boas redescobertas do que ficou esquecido numa margem de página. Com a leitura da nova edição de ‘O Velho Graça’, biografia relançada agora, nos 120 anos de Graciliano Ramos, e que circulou originalmente em 1992, no século do grande romancista, arrastou estes olhos à estante e lá reencontrei, na primeira edição, uma velha anotação feita há exatos vinte anos, de uma conversa do autor de Vidas Secas com Câmara Cascudo.
Nesta segunda edição – Boitempo, SP, 2012 – Moraes mantém o do desabafo sem incluir todo o texto de Cascudo, e outra vez não registra de onde retirou a citação que tanto adorna o capítulo ‘Um marxista no mosteiro’, mesmo com seu rigor de biógrafo impecável. É por curiosidade que transcrevo a anotação completa de ‘O Tempo e Eu’ – UFRN, 1968 – com duas reedições – 1998 e 2005 – também pela Universidade, onde o canguleiro célebre narra como ficou amigo do romancista de Vidas Secas.
Os dois se conheceram no Rio dos anos quarenta. Fizeram parte do elenco de convidados de Lourival Fontes, ideólogo do Estado Novo, do ditador Getúlio Vargas, para a revista Cultura Política. Na biografia, dois outros norte-rio-grandenses são citados como amigos de Graciliano: Jayme Adour da Câmara e Peregrino Júnior. É esta a anotação LXVI completa, em algarismos romanos, tal como ordenada nas suas ‘Confidências e Proposições’, ele que nunca chamou de memórias suas lembranças:
“Conheci Graciliano Ramos (1892-1953) em 1944 no ‘Argentina Hotel’, onde ele ia almoçar com um poeta chileno Arturo Torres Rioseco, professor da Universidade de Berkeley, na Califórnia. Tínhamos permutado livros sem nos avistarmos. Julga-me alto, magro, calvo e vaidoso. A conversa pegou firme e doutras vezes o velho Graça aceitou meu convite. Sabia-me seu admirador pela naturalidade da expressão e vitalidade das figuras evocadas. Eu, criado no sertão, reencontrava nos seus livros o ambiente humano em que vivera. Sofrido e magoado, tinha desabafos originais e súbitos. ‘Ninguém lê nessa terra! Gente rica não compra livro. Você encontra numa casa de luxo vinte penicos, mas nenhum volume. Se os encontrar, estão encadernados e arrumados como enfeites de salão!’. Outra. ‘Eu saio da observação do natural para o ambiente literário. O nosso comum é a imaginação, independente da realidade.
Raramente você vê uma figura de romance na vida cotidiana! Nasce tudo do quengo do escritor’. Contei-lhe da minha velha vontade de escrever uma novela ou um romance e a impossibilidade mental de realizar. Tentara várias vezes, inutilmente. ‘Pois, não escreva! Fique no seu natural até o fim. Esse Rio de Janeiro está fervilhando de romancistas que nasceram para outra coisa!’. E disse a coisa, que não posso repetir aqui. Renan diria o mesmo: – ‘La vraie marque d’une vocation est l’impossibilité d’y forfaire c’est-à-dide de réussir à autre chose que ce pour quoi l’on a été crée”. Numa tradução livre, para efeito de simples compreensão, seria dizer que a verdadeira marca de uma vocação é a impossibilidade de se ter sucesso em algo diferente daquilo para o qual se foi criado.
Da ‘coisa’ que Cascudo evitou mencionar, como um segredo de conveniência, talvez por pura lhaneza, jamais se saberá. Assim como Graciliano Ramos nunca esteve aqui para conhecer a nossa burguesia, hoje travestida de jet-set, com seus penicos de porcelana cheios de suas falsas genialidade. Vaidosas de gargalharem suas literatices com suas próprias nádegas.
TRADE
O prefeito Carlos Eduardo Alves surpreendeu ao aceitar as pressões do trade e desnomear o colunista Antônio Roberto antes que assumisse. Já Antônio Roberto não deve ter ficado surpreso com o trade.
DESAFIO
O maior desafio do jornalista Paulo Araújo à frente da comunicação do governo vai ser provar que a comunicação era, sim, o problema do governo. Sob pena de sua função acabar, na prática, sendo outra.
ALERTA
Um amigo do procurador geral Miguel Josino teria feito um alerta no sentido da procuradoria cuidar de controlar mais de perto dos processos de aposentadoria dos procuradores. Para evitar constrangimento.
MUSEU
Será dia 14, segunda, na Fundação José Augusto, a reunião preparatória do encontro em Natal com o especialista que vem discutir as ideias iniciais para o museu interativo no Memorial Câmara Cascudo.
ATENÇÃO
O advogado Ricardo Sobral vai remeter aos vereadores da Câmara de São Gonçalo do Amarante uma exposição de motivos e razões históricas propondo o nome de Maria Boa no aeroporto internacional.
PIOR
O Correio voltou a piorar. E muito. Andou um tempo eficiente, depois da greve mais recente, ano passado, mas perdeu de novo a eficiência do tempo em que foi um dos melhores do mundo. Uma pena.
GOL
A governadora marca um gol junto aos professores estaduais quando antecipa o pagamento do terço de férias. É um direito trabalhista, é certo. Mas não deixa de ser um belo gesto de convivência respeitosa.
AVISO
Um dos lançamentos dos Jovens Escribas este ano será o livro ‘Como se Fossem letras…’, do jornalista Paulo Araújo que acaba de ser nomeado novo secretário de comunicação do governo Rosalba Ciarlini.
DATA
Foi num 10 de janeiro, como este, há cinquenta anos, em 1963, que a maçonaria do Rio Grande do Norte perdeu a figura de Bartolomeu Fagundes, nome de loja e de escola na Alexandrino de Alencar.
HISTÓRIA
Por falar em data: ninguém sabe o que há na agenda das instituições culturais para o dia 28 de fevereiro próximo, nos 70 anos do encontro histórico Franklin Roosevelt e Getúlio Vargas, na Rampa, em 1943.
SEGREDO
A editora Companhia das Letras guarda no seu cofre o título e o enredo do próximo romance de Chico Buarque de Holanda escrito entre suas temporadas no Rio e Paris. E só deve ser divulgado em março.
LÊDO – I
De Sebastião Nery sobre Lêdo Ivo que morreu em Sevilha: ‘Os poetas sabem da vida e do amor, do tempo e da morte. Foi ali, naquele mundo encantado, que meu amigo Lêdo Ivo escolheu para morrer’.
CRÔNICA – II
A frase está na crônica de Nery sobre o poeta das Alagoas falando de um velho amor em Sevilha e foi publicada no DCI que tem em Sílvio Procópio, acho, seu único assinante nesta Aldeia Velha de Poty.
POESIA – III
De Lêdo Ivo, e nunca é demais citá-lo, estes versos do soneto Aurora, feito aos 20 anos: ‘Que somos nós senão a eternidade? / O amor transfigurou-se como a aurora / e se extinguiu após enfeitiçar-me’.


