Grafiteiros potiguares ganham espaço em galeria na Capitania das Artes

O inconsciente humano é um dos temas trabalhados pelo artista Binho Duarte

Expografite---Robson-Rodrigues-Duarte-WR

A expressão artística ainda considerada marginal por alguns vai ocupar a galeria Newton Navarro na Capitania das Artes, uma das mais tradicionais da cidade. As obras de cerca de 20 grafiteiros terão destaque no espaço cultural a partir desta quinta-feira (27), Dia Internacional do Grafite, até o dia 11 de abril.

Essa exposição é um dos eventos da 2ª Grafitti Expo Natal, que será abertura hoje à noite, às 19h. Segundo o diretor do departamento de Artes Integradas da Fundação Cultural Capitania das Artes (Funcarte), Flávio Freitas, o evento foi completamente aberto para grafiteiros interessados em participar.

O primeiro a chegar hoje pela manhã para organizar suas obras foi Robson Rodrigues Duarte, de nome artístico Binho Duarte. Sua entrada no mundo do graffiti se deu despretensiosamente nos anos 90. “Tinha feito uns trabalhos na rua sem me preocupar se era grafite ou não”, declarou.

Na década seguinte, começou a utilizar a arte com conceito e sua primeira obra foi no Setor 1 da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Duarte realizou trabalhos até em praias do Ceará, como Icapuí, com seu trabalho baseado em temas como caos, heavy metal e punk. “No meu caso, retrato um pouco da crítica social e o inconsciente humano, a nossa psiqué”, explicou. Ele também utiliza material reciclado para fazer as telas. O exemplo disso é uma calota de roda de carro que ele vai expor na galeria.

Na verdade, o diferencial da Graffiti Expo é apresentar essa arte urbana de uma maneira não habitual: fora dos muros. Diante disso, as técnicas também variam muito. Binho Duarte, por exemplo, utilizou giz de cera, verniz, látex e papel, além dos mais comuns spray e estêncil.

Expografite-WR

Ainda recente no Brasil (introduzido na década de 1970 pela cidade de São Paulo), a prática do grafite ainda é confundida com pichação, considerada crime e muito menos colorida que o graffite. Por isso, os artistas eventualmente são vítimas de preconceito. “A maioria das pessoas têm recebido bem, já que a arte é feita para embelezar. Algumas ainda têm uma visão pequena e acham que o graffiti é uma arte marginal, mas isso é uma pessoa em cada 10″, comentou Binho Duarte.

Conforme o artista, a regra geral para grafitar uma parede é pedir autorização, ou ser convidado para tanto. Porém, ele confessa que também produz arte de muros de imóveis abandonados.

No evento de abertura hoje à noite haverá apresentação de vídeos por Gustavo Borges e de dança de rua com B Boys e B girls. Também terá pocket shows com os grupos Cabocas MC’s, Carcará na viagem e Chico Bomba e ZéBaga.

Artista convidado

No começo dos anos 80, quem produzia graffiti em Natal e ainda não sabia era artista plástico, cenógrafo e figurinista Carlos Sérgio Borges. Primeiro, os desenhos surrealistas eram feitos no caderno da escola com canetas esferográficas nos idos de 1978. Depois ganharam os muros. “Os meus amigos surfistas pediam para eu desenhar os cogumelos na parede do quarto deles”, contou.

“Quando ia a São Paulo, ou em cidades mais urbanizadas, eu dizia: eu faço isso nos meus quadros”, relatou. Suas referências surrealistas embasaram o seu trabalho, como Mirot, Salvador Dali, o próprio Newton Navarro e Dorian Gray. Borges também valoriza a cultura popular e traz referências do cordel.

Aos 52 anos de idade, ele se empolga e se identifica com as novas gerações. “Minhas intenções é unir esse pessoal novo, trocar conhecimento, vivência e emoção”, disse. Ele enfrentou o mesmo preconceito no início da trajetória de muitos artistas, seja ele grafiteiro ou não. “O meu pai dizia que não era pintura de homem. Ele dizia que tinha que pintar cavalo e vaca”, expôs. Agora, Borges se tornou o principal figurinista dos balés clássicos e contemporâneos de Natal.

Homenageado

A segunda edição da Graffiti Expo Natal terá como homenageado o artista plástico Marcelus Bobs. Marcelino William de Farias (nome de registro civil) é natalense, nascido no Passo da Pátria, em 3/03/1958, e criado no morro de Mãe Luiza. Foi membro do atelier da Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte (ETFRN), atualmente Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do RN (IFRN), e aluno de Thomé Filgueira. Marcelus Bob é um artista autodidata e sua principal marca é a criação dos humanoides, é um dos percussores do graffiti no Rio Grande do Norte.

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