Greve dos médicos em Natal gera sobrecarga no atendimento

No primeiro dia da paralisação, paciente surta, tenta matar médico e é baleado no Santa Catarina

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Alessandra Bernardo

alessabsl@gmail.com

Apesar da greve dos médicos do município de Natal, iniciada na manhã desta segunda-feira (26) pela categoria, muitas unidades de saúde da cidade funcionaram normalmente. Eles reivindicam melhores condições de trabalho, reajuste e reposição salarial e denunciam falta de material, equipamentos e leitos na rede hospitalar municipal. A Secretaria de Saúde da capital informou que aguardará um novo contato dos grevistas para retomar as negociações.

Durante a manhã, uma equipe do Sindicato dos Médicos do Rio Grande do Norte (Sinmed/RN) visitou hospitais e postos de saúde verificando as condições de atendimento e estrutura das unidades e explicando à população os motivos que levaram a categoria a paralisar as atividades. Segundo o presidente da entidade, Geraldo Ferreira, as informações obtidas durante essas inspeções serão transformadas em um relatório que deve ser entregue ao prefeito de Natal, Carlos Eduardo Alves e também ao Ministério Público Estadual e ao Tribunal de Justiça.

“Um dos principais motivos para a situação em que a saúde de Natal se encontra hoje é a incapacidade gerencial dos secretários de saúde, tanto da capital como do Estado, que reflete diretamente na qualidade dos atendimentos oferecidos à população. O atual secretário municipal é uma pessoa boa, que conhece os manuais, mas não a prática, e isso gera um grave problema de ingerência administrativa”, afirmou Geraldo.

Ele explicou que os atendimentos realizados nas unidades nesta manhã foram feitos todos por médicos vinculados à cooperativa que prestam serviços ao município e que eles tiveram que absorver a demanda gerada pela ausência dos colegas municipalizados. No entanto, a situação gerou uma sobrecarga grande para estes profissionais, principalmente no Hospital Infantil Sandra Celeste, no bairro de Candelária.

Conforme o presidente do Sinmed/RN, em um intervalo de apenas três horas, um único médico cooperado atendeu cerca de 30 crianças e, no domingo à noite (25), outro revelou ter feito 80 atendimentos. “Essa pressão para atender um grande número de pacientes em tão pouco tempo coloca todos em risco real, tanto profissional para o médico, como pessoal e de vida para quem necessita de atendimento. Isso é uma face das condições precárias de trabalho que um médico enfrenta hoje em Natal”, explicou.

Geraldo Ferreira disse ainda que, durante a assembleia geral da categoria, hoje à noite, os médicos municipalizados farão análise do primeiro dia da greve e discutirão todas as informações e dados obtidos para a confecção do relatório. “Também vamos discutir um calendário de mobilizações para os próximos dias. Nossa intenção é mostrar todas as dificuldades, problemas e riscos que os médicos estão correndo, por causa da falta de condições de trabalho e de materiais, equipamentos e leitos”, falou.

Profissionais relatam riscos de agressões

A precariedade das condições de trabalho e falta de material para atendimento são duas das principais reclamações dos 261 médicos do município, que revelam ainda a ocorrência de agressões, físicas e verbais, sofridas dentro das unidades de saúde em Natal. Uma delas aconteceu nesta manhã, durante um atendimento que estava sendo realizado no Hospital Santa Catarina, na zona Norte.

Segundo o comandante do 4º Batalhão da Polícia Militar, major Manoel Kennedy, um paciente, que teria sido esfaqueado pela própria esposa, atacou um dos médicos da unidade com um bisturi enquanto este lhe atendia, por volta das 11h. Assustado, o profissional pediu socorro a um vigilante do hospital, que efetuou dois disparos contra o agressor para contê-lo. “Acreditamos que ele tenha sofrido um surto psicótico durante o atendimento e tentado matar o médico e tirar a própria vida, já que ele ainda teria se cortado várias vezes com o bisturi, até ser contido pelo vigilante”, disse.

Na semana passada, o Sinmed/RN realizou paralisação por 24h em todas as unidades de Natal, em protesto contra as condições de trabalho enfrentadas hoje pelos médicos do município, com falta de materiais simples como luvas, medicamentos, materiais para atendimento de pacientes e até leitos. Eles também reivindicam reajuste salarial e definição do município em relação à portaria do Ministério da Saúde que não define o limite máximo de plantões que um médico deve trabalhar, o que deixa os profissionais à mercê da administração das unidades.

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