Há palavras

Sonhava ser narrador de futebol. Razão lógica: era um perna de pau, nunca teria chance de copiar meus ídolos. Incapaz…

Sonhava ser narrador de futebol. Razão lógica: era um perna de pau, nunca teria chance de copiar meus ídolos. Incapaz de um drible, zagueiro medíocre, admirava a categoria dos domadores de multidões em estádios lotados. Queria ser Marco Antônio Antunes, o Garotinho da Copa, gostava do jeito comunicador de massa de Hélio Câmara e da voz afiada do pernambucano Jaime Cisneyros. Os três, companheiros de jornada do meu pai, o “Comentarista de Classe”.

O jeitão rococó e empolado da TV Tupi, com velhos remanescentes preocupados em exibir conhecimento de vocabulário sem vibração, me levava à idolatria do rádio. Aqui e no Rio de Janeiro, sintonizador pulando entre a Nacional de José Carlos Araújo (o melhor de todos os tempos) e a Globo de Waldir Amaral e Jorge Cury.

O narrador sempre protagonizou vitórias amplificadas e impossíveis. No silêncio vazio e amargo das tardes perdidas no Castelão, quando o América vencia por 1×0, criava, na insônia do domingo para a segunda, bordões e jogadas fáceis de acontecer na imaginação maior que a sentença do clássico.

No quarto mais escuro de tristeza, desenhava como se minha fosse a latinha: “Atenção, Danilo Menezes, Rei do Castelão, limpou um, fintou o segundo, lançou, falhou Argeu, entrou Noé Silva, atirou é gol!” O 1×1 se restringia ao meu silêncio e ao conforto sem efeito algum. O narrador dentro de mim significava a alegoria do carnaval particular perdido. Narrador, sujeito mágico a transformar voz em visão da catarse.

Emoção nas transmissões de TV chegou com Luciano do Valle, estabelecendo o bom meio-termo entre a eletricidade fantasiosa de quem descreve para quem está em casa, refém angustiado e o ritmo tenso que parecia contagiar os times em campo.

O primeiro gol que vi narrado por ele foi de Roberto Dinamite batendo o pênalti decisivo para o título carioca do Vasco em 1977. Vascaíno sobrevive do que já passou, do que é memória, nostalgia.

Me ganhou em outro grito de legítima verdade – relação que deve prevalecer entre o locutor e o ouvinte ou telespectador. O gol de Rivelino aos 44 minutos do segundo tempo, quase caindo, ex-Maracanã lotado, no empate em 1×1 contra a poderosa Alemanha Ocidental campeã mundial na época.

Em 1977, estava selada a minha fidelidade a Luciano do Valle. Enquanto seus colegas se esgoelavam narrando o gol de Basílio, libertador dos 23 anos sem título do Corinthians no Campeonato Paulista, ele transmitia profissionalmente com a alma doída. Torcia com fanatismo fora do microfone pela Ponte Preta e cumpriu sua missão com voz grave.

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Hoje a melhor diversão dos homens em paz reclusa (opcional e prudente) é ficar em casa. Refugiados por tédio e violência. O futebol se vê no Led da tela do aparelho moderno, o esporte se multiplica por canais inteiros, repetitivos e salgados no preço.

Nos anos 1980, Luciano do Valle nos oferecia tudo desse jeito e de graça. Claro, jogos do Brasileirão eram raros. Fartos para nós, adolescentes da escala distante dos deslumbramentos, por opção e circunstâncias, sempre foram os shows dominicais. O boxe virou rotina com o caricato Maguila e o ótimo Tomaz da Cruz, o basquete encantava com Hortência e “Magic” Paula, Oscar e Marcel.

O voleibol da geração de prata, Renan, Bernard, Montanaro e o suspiro de nossas recatadas namoradinhas, fãs de Paulo Ricardo e do RPM. Sinuca virou febre. Saiu dos botequins para as telinhas. Rui Chapéu tornou-se ídolo, surrado por um caboclo canavial, ao vivo, no ginásio da Escola Doméstica, rua em que nasci, cresci e mandaria ladrilhar se fosse minha. Em Natal.

Os masters de Rivelino, Edu, Marco Antônio, Cafuringa, Djalma Dias, a arte ensinada como programa educacional de futebol, Norte a Sul. No Castelão, eles sofreram aos pés de Hélcio Jacaré, ídolo do América e do deus Alberi. Foi um 4×2 injusto, num domingo revivido em colagens de paciência.

Luciano do Valle, porta-voz do timaço brasileiro de 1982. A cabeçada de Oscar, defendida na linha do gol pelo italiano Zoff. O grito que a ele faltou. Explosão represada. Garganta representando milhões de esperanças perdidas. Nem o pênalti perdido por Baggio em 1994 compensou.

Talvez os dribles seriais de Zico em 1986 no Arruda, um, dois, três cartas humanas de baralho caindo até o toque sensual na perfeição contra a Iugoslávia, resumam o que a minha geração repete, inconformada, no clichê inútil: “Não há palavras para descrever! “Luciano do Valle viveu de sangue nas veias e morreu de um coração costurado em gomo e quatro linhas coronarianas. Tecendo emoções nas palavras.

Almas poluídas

De apologia à desgraça. Morreu Luciano do Valle e não falta quem escreve em rede social esculhambando com o narrador Galvão Bueno, da Rede Globo, desejando-lhe mal. O que Galvão tem de culpa na perda de Luciano do Valle, que doeu no Brasil inteiro?

Pra frente

Analisar as estreias de América e ABC na Série B é tarde. O América demonstrou futebol alegre e ofensivo. O ABC poderia ter vencido o Santa Cruz no Arruda. Faltou criatividade no meio-campo.

Reposicionar

O técnico Zé Teodoro, para o jogo contra o Boa Esporte (MG), quando vencer será ponto pacífico tem de arrumar o time. Daniel Amora não dá. Pode ser um bom rapaz, de princípios éticos, mas é muito fraco para o ABC, não liga um interruptor, quanto mais o meio-campo e o ataque. Otávio também deve ser titular, mas jogando na sua posição verdadeira, criando e não escondido, jogando de costas para o gol. No ataque, Gilmar e Dênis Marques pode ser uma boa.

Max

Está maximizando a predestinação e a capacidade de decidir.

Gilvan e Fernando Henrique

Sei não. Tomara que não.

Rumo ao bi

O Brasil goleou o Paraguai por 6×0 no ex-Maracanã (96.825 pagantes) iniciando preparação para o bicampeonato mundial em 1962. A formação indicava um misto de Santos e Botafogo, os melhores times da época. Hoje não há Santos, Botafogo nem milagres. Naquela noite, os gols foram de Didi, Pelé, Coutinho, Nilton Santos, Vavá e Garrincha.

Times

O Brasil: Gilmar; Djalma Santos, Bellini, Zózimo e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Coutinho (Vavá), Pelé e Pepe. Paraguai: Mayregger (Aguilar), Nuñez, Monnin (Amarilla) e Monges; Cecílio Martinez (Arambulo), Bobadillha e Diógenes; Insfrán, Ferreira, Cabrera (Rodrigues) e González.

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