Harmonize a Páscoa com o “O Clube do Suicídio e Outras Histórias”, de Robert Louis Stevenson

No século XIX, ele foi bater na Polinésia e escreveu alguns dos contos mais famosos do gênero suspense

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Conrado Carlos

Editor de Cultura

No ensaio “A penúltima versão da realidade”, Jorge Luis Borges, com a elegância e a luminosidade de sempre, destrói o argumento de um crítico conterrâneo, vendedor da ideia de que a vida tem três dimensões, comprimento, largura e profundidade, como autoestradas até um destino traçado pelo Supremo. “[...] quão suspeita é uma sabedoria que se funda não sobre o pensamento, mas sobre uma mera comodidade classificatória”.

Foi na luta contra esse comodismo que Borges enxergou em Robert Louis Stevenson a excelência estética. O escocês, autor de “O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hide” (ou “O Médico e o Monstro”) e “A ilha do tesouro”, geralmente é reduzido a mero ilustrador de relatos de viagens e contos policiais. Sua influência e profundidade, porém, surge da valoração estilística e conceitual camuflada por uma escrita econômica e precisa.

Morto aos 44 anos, depois de uma hemorragia cerebral, ato final de uma tuberculose que o atormentava há anos, Stevenson é ‘reapresentado’ em “O clube do suicídio e outras histórias” (Cosacnaify). A luxuosa edição tem os principais contos do autor, além de comentários, verdadeiras odes, de Vladimir Nabokov e Henry James – a introdução é feita por Davi Arrigucci Jr. Diante da importância do mago de Edimburgo, item indispensável em uma biblioteca particular.

A facilidade com que ele nos faz refletir, ao descrever cenários, criar um clima de mistério e explorar o fantástico confirma o que Borges dizia sobre amar Stevenson “como a um amigo” – o britânico morreu (1894) cinco anos antes de o portenho nascer (1899). Apesar da narrativa que intitula o livro e do clássico emprestado por Hollywood, ambos geniais, foi em “Markheim”, “O ladrão de cadáveres” e “O demônio da garrafa” que fixei minha atenção.

No primeiro, um homem mata um antiquário com uma adaga, em plena negociação de uma peça, e rumina sobre o crime, enquanto aguarda a chegada de uma funcionária. Ao se olhar no espelho, sua imagem trava diálogo sombrio e definidor dos atos subsequentes – algo de “Crime e Castigo” no ar? Já em “O ladrão…”, anatomia, ganância e egocentrismo atormentam um jovem especialista na dissecação de corpos, como um preâmbulo da série “Os Sopranos”.

E “O demônio da Garrafa” apresenta o artefato mágico e tenebroso como suposta solução das agruras mundanas. Robert Louis Stevenson insere o medo e a incerteza no leitor, ao mesmo tempo em que nos tranquiliza com sua fluidez textual. “O Clube do Suicídio…” dispensa datas comemorativas para ganhar status de presente a ser dado para quem gostamos. Harmoniza muito bem com ovos de páscoa, vinhos e demais quitutes da Semana Santa.

 

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