Histórico: Rei da Espanha, Juan Carlos I, anuncia abdicação ao trono

A notícia da abdicação pegou os espanhóis de surpresa, até mesmo de pessoas próximas que o ouviram o rei dizer: “Morrerei com a coroa”,

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O rei da Espanha, Juan Carlos I, que viu sua imagem abalada nos últimos anos por vários escândalos, anunciou na manhã desta segunda-feira sua abdicação, depois de 39 anos de reinado, com um desejo “de renovação, de superação e de corrigir erros”. Na terça-feira, o Conselho de Ministros se reunirá para dar andamento ao processo sucessório, que exige a aprovação de uma lei orgânica, o qual levará ao trono o príncipe de Astúrias, Felipe de Borbón. Especula-se que o monarca tenha renunciado devido a uma combinação de fatores que envolvem pressão política, problemas de saúde, escândalos de corrupção na realeza e baixa popularidade.

— Decidi colocar fim ao meu reinado e abdicar da coroa da Espanha — afirmou Juan Carlos em um breve pronunciamento ao vivo na TV espanhola, ressaltando “um impulso de renovação, de superação e de corrigir erros”, pelo qual “hoje uma geração mais jovem merece passar à primeira fila”. — Quero o melhor para a Espanha, a qual me dediquei a vida inteira. Meu filho encarna a estabilidade e tem a maturidade e a preparação necessárias para assumir com plena garantia.

De acordo com o jornal “El Mundo”, citando fontes do palácio real, o rei tomou a decisão de abdicar em janeiro depois de completar 76 anos. Mais tarde, em março, ele comunicou tanto ao presidente do Governo, Mariano Rajoy, quanto ao líder da oposição, Alfredo Pérez Rubalcaba. Analistas dizem que o conservador Partido Popular (PP), de Rajoy, estava ansioso para colocar o moderno Felipe no trono, numa tentativa de tentar combater o aumento do sentimento antimonárquico, após partidos anti-establishment (contra as instituições oficiais) obterem surpreendentes resultados nas eleições do Parlamento Europeu.

A abdicação foi anunciada primeiramente por Rajoy e vem semanas antes de a Justiça espanhola decidir se mantém o indiciamento contra a princesa Cristina, filha de Juan Carlos, no caso de corrupção protagonizado por seu marido, Iñaki Urdangarin, acusado de desvio de verba pública. Em uma histórica declaração institucional (não foi entrevista coletiva, aberta a perguntas) convocada com urgência, o presidente do Governo disse esperar dos espanhóis serenidade, tranquilidade e agradecimento ao monarca. Ele afirmou que “em breve” o atual príncipe Felipe de Borbón, de 46 anos, será proclamado rei com o nome de Felipe VI.

O herdeiro do trono, ao lado da futura rainha, a princesa Letizia, ocupa há vários anos um espaço cada vez mais preponderante na monarquia espanhola e até agora conseguiu manter sua popularidade.

Nos últimos meses, o monarca intensificou sua aparição em eventos públicos com a rainha Sofia. E a notícia da abdicação pegou os espanhóis de surpresa, até mesmo de pessoas próximas que o ouviram o rei dizer: “Morrerei com a coroa”, “Os reis não abdicam, morrem na cama”.

As frases foram recordadas por José Ortega, que trabalhou em vários departamentos da Casa do Rei, entre 1983 e 1995, e viajou com a família real por todo o mundo, primeiro como membro do departamento de Protocolo e depois como chefe do Escritório das Infantas, o mais próximo da Rainha.

— Fiquei muito surpreso — disse Ortega, acrescentando que ainda mantém estreito laço com muitos dos empregados do monarca. — Alguma coisa deve ter acontecido no fim de semana ou na semana passada. É verdade que ele foi profundamente afetado pelo escândalo com Corinna (suposta amante) e estava prestes a jogar a toalha para viver do modo como queria os últimos anos de sua vida, mas nunca o fez, sempre disse que morreria rei.

Um dos rumores que ecoa é o de que o rei teria tido 1.500 amantes, entre elas sua amiga Corinna zu Sayn-Wittgenstein, segundo o jornalista britânico Andrew Morton, biógrafo de Lady Dai e especialista em realeza. As especulações renderam ao rei a fama de don Juan. Morton diz em seu livro “Ladies of Spain. Sofía, Elena, Cristina e Letizia: entre o dever e o amor” que por conta das aventuras amorosas, o rei e a rainha estão separados desde 1976, mantendo uma vida de aparências.

Um dos piores momentos da trajetória de Juan Carlos ocorreu em 18 abril de 2012, quando ele surpreendeu o país ao falar diante das câmeras de televisão e fazer um pedido de desculpas histórico depois da luxuosa viagem para caçar elefantes em Botsuana, que teria permanecido secreta se o rei não tivesse sido repatriado em caráter de urgência após uma queda.

À FRENTE DA TRANSIÇÃO DEMOCRÁTICA

Coroado aos 37 anos após a morte do ditador Francisco Franco em 22 de novembro de 1975, Juan Carlos construiu sua popularidade ao liderar a transição da Espanha para a democracia. O foco de seu reinado foi trazer a reconciliação entre os espanhóis de diferentes vertentes políticas e regiões.

Muitos consideram o melhor momento do rei sua posição decisiva para deter um golpe militar de direita em 1981, quando ele foi à televisão para dizer que a monarquia não toleraria tentativas de interromper a democracia pela força.

Nascido em Roma, em 1938, Juan Carlos não pôs os pés na Espanha até que ele tinha 10 anos. Na Espanha de Franco, realizou treinamento militar e se tornou o primeiro oficial espanhol no posto de tenente em todos os três ramos das forças armadas

Em 1969, foi investido como príncipe herdeiro e sucessor designado de Franco. Com a morte do ditador, a monarquia foi restaurada depois de 44 anos.

 

Fonte: O Globo

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