Home runs, mafiosos e Sinatra’s

Parte deste post foi inspirado na biografia Frank – A Voz (Companhia das Letras), de James Kaplan, novo livro que…

Thomson Branca

Parte deste post foi inspirado na biografia Frank – A Voz (Companhia das Letras), de James Kaplan, novo livro que conta a vida de Sinatra e que comentarei até o final da semana na página de cultura de O Jornal de hoje.

Como brasileiro penso que ainda temos jeito ao saber da bandalheira que imperou nos Estados Unidos durante todo o século XX. Eles mataram presidentes, heróis nacionais e os próprios irmãos, nos últimos dois séculos, dois séculos e meio – mesmo com tanto carrego, promoveram um desenvolvimento econômico sem precedentes na era Moderna. Sobretudo nas décadas que demarcaram as duas Grandes Guerras, o esporte também era dominado pela pilantragem, com lutas de boxe e partidas de beisebol envoltas em jogatinas escusas que manipulavam resultados, valores apostados e deixariam Eurico Miranda e Ricardo Teixeira com cara de menino, tamanho engenho criminoso.

Um dos episódios esportivos que mais impressionou a opinião pública do Gigante do Norte foi a final da National League de beisebol (o futebol deles) em 1951, entre New York Giants e Brooklyn Dodgers. Nos três primeiros dias de outubro daquele ano, houve uma disputa que entrou para os anais da modalidade. Com uma vitória para cada lado, especificamente a terceira partida registrou o home rum mais famoso da história, quando Bobby Thomson, um batedor popular e experiente, soltou o taco na bola no final do jogo e correu as quatro bases para decretar a vitória e o título para os Giants.

Acontece que descobriram um espião em um prédio ao lado do Polo Grounds, um dos templos do beisebol em Nova York, lacrado em 1963, com um telescópio, observando sinais que o pintcher (lançador) do Dodgers emitia para colegas, e avisando o banco aliado com um rádio amador. Ambos os times tinham terminado a temporada regular com o escore de 98 vitorias e 56 derrotas e vencer a National daria a chance de disputar a World Series (a super final), que envolve o campeão da American League, a outra liga importante por lá – o ‘mundo’ para os ianques ia, até então, da Nova Inglaterra à Califórnia; hoje, com o Império capenga, a coisa mudou.

Milhões de dólares foram perdidos em apostas surpreendidas pela maracutaia monocular. Mas um dos perdedores ficou revoltado e decidiu suspender o pagamento na casa de apostas. Era Guarino Moretti, ou Willie Moretti, mafioso italiano de Bari, baixinho, gordo, careca, simpático e perigoso que ajudara Frank Sinatra no começo da carreira em sua área de jurisdição: Nova Jersey. Eles foram vizinhos em Hasbrouck Heighs, um subúrbio de bacanas localizado a meros 16 km de Manhattan. Moretti também tinha ligação com os atores e comediantes Dean Martin e Jerry Lewis, muito por suas conexões em Hollywood e por ter um carisma acima da média para quem vivia de arrancar a cabeça dos inimigos.

A final tinha sido jogada no dia 03 de outubro e Moretti tomara a decisão na manhã seguinte. Ele comia em um restaurante de Nova Jersey com alguns recrutas do crime quando dois homens entraram no estabelecimento vazio àquela hora – cerca de 11h. Em uma época de verdadeiro glamour em torno dos mafiosos, cujos nomes de Bugsy Siegel, Lucky Luciano, Meyer Lansky, Frank Costello, Joe e Charles Fischetti, Carlo Gambino e Sam Giancana geravam medo e admiração, o corpo de Moretti com a cabeça estourada pelos dois pistoleiros (foto abaixo) ganhou as páginas dos principais jornais do país. E a ligação de Frank Sinatra com a máfia voltou à pauta.

Aquele ano fora péssimo para A Voz. Sem discos ou músicas nas paradas há um bom tempo, ele agonizou um processo de divórcio com a mulher Nancy, e caiu nos braços de Ava Gardner de forma legal (e midiática). O caso já durava vários verões, com a imprensa no pé do casal de estrelas, tratando-os como demônios que atormentaram a vida de uma família exemplar – Nancy era ordeira, cristã e dedicada ao lar. Depois de um episódio em Cuba, quando Sinatra foi flagrado com uma maleta cheia de dólares em plena conferência dos mafiosos americanos e virou manchete mais uma vez como um carcamano amigos de assassinos, ter o nome vinculado a um chefão morto em plena luz do dia era tudo que ele não precisava.

Moretti e Sinatra, além de vizinhos, tiveram ‘negócios’ em sociedade. O estouro do cantor magricela e arrogante veio do trabalho junto a Tommy Dorsey, líder de uma das melhores big bands do mercado e sumidade como trombonista, compositor e maestro.  Na década de 1940, só Benny Goodman, Artie Shaw e Glenn Miller tinham envergadura para confrontá-lo como máxima expressão nos tempos do swing. Sem ele, Frank jamais teria virado Sinatra. Mas o sucesso como cantor da orquestra incomodou Dorsey e o pedido de rompimento do contrato o deixou furioso, a ponto de criar barreiras judiciais, sem querer liberar o discípulo rebelde.

Foi aí que Moretti mostrou o quanto gostava de Frank. Famoso por ser tagarela e fanfarrão, o bandido fino tinha sífilis e pouca noção do que era articular contratos. Sua vontade era feita por bem ou por mal. Emissários foram enviados para uma conversa com Dorsey. Versões destoantes falam em ameaças de morte, caso o maestro impedisse a saída do cantor – Sinatra se deu mal durante a conferência dos chefões em Havana; hospedado no hotel Nacional, que pertencia a Meyer Lansky e ao ditador cubano Fulgêncio Batista, ele foi flagrado por um jornalista americano que estava na capital cubana para entrevistar o escritor Ernest Hemingway.

Fotografia do corpo do mafioso Willie Moretti correu de costa a costa

Morte de Willie Moretti

New York Giants x Brooklyn Dodgers (1951):

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