Homo inventivus
Poucos artistas imprimiram sua marca na indústria do entretenimento como David Bowie. Mesmo sem lançar material inédito há dez anos, ele continua escalado entre os titulares do time das estrelas do rock. Nesse período, tributos, regravações e livros mantiveram fãs abastecidos – e assustados, com a suspeita de que o astro teria uma doença terminal.
Depois da ótima Bowie – A Biografia, de Marc Spitz, lançada em 2010, chega às livrarias um misto de almanaque, editorial de moda e crítica musical: Estilo Bowie (Madras Editora), do jornalista americano Mark Paytress – autor de brochuras sobre a vida de Syd Vicious, Patti Smith e Marc Bolan.
Rico em fotografias, o livro de Paytress (também repórter da revista Mojo e do jornal The Guardian) revela como o menino tímido se transformou em um eurófito sofisticado que cruzou duas gerações e inúmeros modismos, como o movimento hippie, o punk e a disco, sabendo explorar (e influenciar) cada uma deles de forma estudada, milimétrica.
Com o fim dos Beatles e o exílio forçado dos Stones, a cena inglesa estava aberta para experimentalismos e ávida por revoluções, no começo dos 70s – o desemprego endêmico era apenas um dos sintomas da irrelevância nacional no pós-2ª Guerra. Foi nesse cenário que Bowie surgiu como um espectro multicolorido para espalhar polêmica e estupefação.
Se Bolan foi o pioneiro no glam rock, Bowie radiclizou ao brincar com sua sexualidade, “sou gay, mas talvez não seja”, e acrescentar conceitos da moda, da pintura e do teatro em sua arte, cujo auge criativo, entre 1972 e 1980, produziu uma penca de álbuns antológicos.
Mas, além de composições espertas, com fatias de rock and roll, rhythm and blues e jazz, e letras que falavam de solidão, alienígenas e abandono, a grande sacada de Bowie foi apostar em uma imagem multifacetada, com figurinos bizarros e um conflito de gênero que soava como o protesto mais veemente contra uma sociedade preste a explodir.
Estudante de arte, o Camaleão do Rock misturou expressionismo alemão (captado após longas temporadas em Berlim), dadaísmo e o visual do filme Laranja Mecânica para criar personagens como Ziggy Stardust, Aladdin Sane (foto) e Thin White Duke, alto-egos protagonistas em seus trabalhos mais relevantes.
Relacionamentos com atrizes, coreógrafos, diretores e demais bípedes funcionaram de alimento para uma alma nem tão atormentada, mas profundamente inquieta e criativa. O principal deles foi com o Andy Warhol, avalista do capital intelectual e fundamentos da moda utilizados a cada mudança de pele.
Estilo Bowie tem seções que abordam desde famosos colaboradores (Brian Eno, Mick Ronson, Tony Visconti) até o contato com a química, através de quatro carteiras de Marlboro Light diárias e montanhas de cocaína. O apetite sexual, porém, sempre foi o principal adorno às canções. “Eu tinha todas essas garotas tentando me levar para o outro lado, ‘vamos, David, não é tão ruim, eu mostro para você”.
Com habilidade para reconhecer novas tendências e dar seu toque pessoal, David Bowie saiu do folk dos primeiros discos para a consagração roqueira e new wave nos anos 1970 e 1980. “Eu acho que a música deveria se tornar provocativa, ser uma prostituta, uma paródia de si mesma”. Como as profissionais do prazer, volúpia, adaptação e entrega era sua filosofia.
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