Hospital João Machado sofre com falta de estrutura e superlotação

Além da estrutura antiga, falta de vagas é um dos principais problemas. Felipe Gurgel diz que situação está “menos ruim”. Foto: Heracles Dantas
O pronto socorro do hospital público referência no tratamento de doenças mentais no Rio Grande do Norte, Hospital Doutor João Machado, sofre, constantemente com a superlotação de pacientes. A unidade que chegou a contar com mais de 300 leitos, hoje dispõe apenas de 130 leitos, sendo 35 destinados ao pronto socorro. No entanto, a falta de vagas não é o único problema no setor. A estrutura física do prédio é antiga e bastante deteriorada. No pronto socorro, o espaço físico já não suporta mais a alta demanda de pacientes e os profissionais reclamam das precárias condições de trabalho. Há mais de um ano, a direção do hospital luta para transferir o pronto socorro para uma área onde funcionava a clínica médica para o Hospital Walfredo Gurgel. Hoje, o processo encontra-se na Secretaria Estadual de Infraestrutura, mas ainda não há previsão de quando esta mudança será feita.
Na manhã desta quinta-feira (21), a situação do Pronto Socorro estava complicada, pois os 35 leitos estavam ocupados, muito embora a situação normalmente seja mais caótica. Segundo a direção do Hospital, há dias em que além dos 35 pacientes internados no PS, há uma média de 15 a 20 pacientes extras, esperando, muitas vezes, nos chamados “leitos-chão”. Hoje, eram 18 pacientes, sendo que 14 homens e quatro mulheres, aguardando um leito, e 17 pacientes, sendo 9 femininos e 8 masculinos, em observação. Isto porque para quem precisa de atendimento psiquiátrico tanto em Natal, quanto nos municípios do Rio Grande do Norte, só há um caminho a seguir: o pronto socorro do Hospital João Machado.
O coordenador do pronto socorro do João Machado, o psiquiatra Felipe Teodoro Gurgel, considera que a situação da manhã desta quinta-feira é de superlotação, mas a situação já esteve mais caótica. Segundo o médico, os leitos masculinos estão acima da capacidade, mas os leitos femininos estão sob controle. “A situação é uma média de 15 a 20 pacientes aguardando vagas por dia. Isso mostra que há uma deficiência de pelo menos 15 leitos. A situação hoje não está boa, está apenas menos ruim, pois já chegou a ter mais de 50 pacientes aqui. Esperamos por uma promessa de reforma há mais de três anos, mas ainda não saiu do papel”, desabafa o coordenador.
O Governo do Estado está realizando uma reforma nas dependências do Hospital João Machado, no entanto, esta obra que já está em fase adiantada, nada tem a ver com a atenção a saúde psicossocial. O Governo investiu mais de R$ 967 mil para reformar parte do Hospital João Machado para abertura de 33 leitos clínicos de retaguarda para o Hospital Walfredo Gurgel. Enquanto isso, o atendimento psiquiátrico é realizado nas dependências do João Machado em condições precárias e não há nenhuma perspectiva de quando haverá uma reforma na estrutura física da unidade. O diretor administrativo e financeiro do João Machado, Eugênio Pacelli conta que ontem esteve na Sesap e foi informado que o processo de reforma e transferência do Pronto Socorro encontra-se na Secretaria de Infraestrutura para atualização do orçamento e, em seguida, entrará na fase de licitação.
“Estamos há três anos sem poder fazer nenhum investimento, por falta de recursos. Somos a única urgência psiquiátrica do Rio Grande do Norte, o final da linha no atendimento e fomos completamente excluídos do processo. A reforma que estão fazendo em nada tem a ver com as melhorias que pleiteamos, há anos, para o nosso hospital”, destacou o diretor administrativo e financeiro do Hospital João Machado.
A diretora Myrna Chaves reconhece que a situação precária da estrutura física do Pronto Socorro do João Machado e confirma a luta para transferi-lo para onde funcionava a clínica médica do Hospital Walfredo Gurgel. “Estamos na luta, pois os servidores têm reclamado bastante, para podermos oferecer uma assistência mais digna aos nossos pacientes e uma condição de trabalho mais digna para os nossos funcionários. Espero que o novo secretário seja sensível a nossa causa. Estamos nessa esperança, não iremos ampliar o número de leitos, mas iremos melhorar consideravelmente a estrutura”, afirmou a diretora geral.
O número de leitos de internação para o tratamento de doentes mentais no Rio Grande do Norte é quatro vezes menor do que recomenda a Organização Mundial de Saúde (OMS). O Estado conta hoje com 718 leitos, quando o ideal, seguindo a proporção de um leito para cada grupo de mil habitantes, seria de, pelo menos, 3.168 vagas. A tendência que se apresenta aponta para uma diminuição no número de leitos. O problema, de acordo com a direção do hospital, agravou-se nos últimos anos. O motivo é a portaria 3.088/11, do Ministério da Saúde (MS), que orienta para o fechamento de leitos em hospitais psiquiátricos tradicionais. A diretora geral do João Machado, Myrna Chaves criticou a política do Ministério da Saúde.
“Com essa nova política do Ministério da Saúde em relação à saúde mental, eles não querem mais investir em hospitais psiquiátricos. Estão priorizando leitos psiquiátricos em hospital geral, incentivando com o preço pago com a diária, chegando a ser quase seis vezes maior do que a paga no hospital especializado”, destacou Myrna Chaves. A diária paga pelo MS a pacientes do João Machado é de R$ 49, já em hospitais gerais esse valor chega a R$ 300. A diretora disse que para a Sesap não há o interesse em fechar o Hospital João Machado, mas teme que a unidade seja transformada em um hospital geral. “Tememos que transformando em hospital geral haja redução da quantidade de leitos psiquiátricos e isso não pode acontecer, pois quem vai sofrer com isso é a população do SUS, que serão os grandes prejudicados”, destacou a diretora Myrna Chaves.
A diretora Myrna Chaves acredita que o pronto socorro do João Machado continua superlotado porque os serviços substitutivos extrahospitalares não funcionam a contento, nem numericamente, nem com qualidade. “Inclusive o CAPS III, que era o único Centro de Atenção Psicossocial que funcionava com leitos de internação e dava cobertura a este serviço não está funcionando e, com isso, toda a demanda é absorvida pelo hospital. Os pacientes dependentes de álcool e drogas ainda são maioria e estão aumentando a cada dia”, destacou. “Outro grande problema é a regulação dos pacientes que é lenta. Os pacientes demoram a conseguir a vaga, para cá ou para o Hospital Severino Lopes (que dispõe de 160 leitos destinados ao SUS). Há uma fila de espera que termina tumultuando tudo”, destacou. Além disso, Myrna Chaves conta que foi contrária ao atendimento ambulatorial na unidade, há mais de três anos, que atendia cerca de 500 pacientes por mês. “Se os atendimentos extrahospitalares funcionassem bem, muitas necessidades de internações seriam eliminadas. Agora, se não tem isso, corre para o único local que as portas estão abertas, que é o PS do João Machado”, destacou a diretora médica Regina Miranda.
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