Humilhação histórica deve servir de reflexão para mudanças no país

Derrota eternamente sem vingança foi pior desde a eclosão de Segunda Guerra Mundial, em 1939; simbolismo com fracasso do governo petista foi na casa de Aécio

Conr1

Conrado Carlos

Editor de Cultura

Estouraram rajadas de fogos de artifício em Candelária, Potilândia e Lagoa Nova, logo depois que parei de ver o jogo de ontem, ainda no minuto 37 do primeiro tempo. Isso significava mais gols da Alemanha? Ou que muita gente torcia contra a Seleção? Era o intervalo. De repente, um rojão mais forte. Eram 17h51. Pensei que algum grupo de protestantes estava em vias de sair às ruas, mas não. O ato simbólico de celebrar a maior derrota na história dos esportes sofrida por um grande time de uma modalidade bastava para relembrar que várias vozes foram contrárias a Copa, a Felipão e ao que a turma que comanda o futebol brasileiro faz desde 1990 – Lazaroni, Parreira, Zagalo, Felipão e Dunga são a antítese de uma expressão cultural que encantou o mundo. Feito um zumbi, voltei para frente da tevê por uns minutos.

O Brasil começou à base do mesmo ritual das partidas anteriores. “O campeão voltou!”, cantou o Mineirão. O narrador Paulo Andrade, da ESPN Brasil, confirmava que o grito estava mais alto que das outras vezes. A imagem mostrava os jogadores perfilados no túnel de acesso ao gramado, como guerreiros na iminência da batalha. David Luiz, Maicon, Fred, Luiz Gustavo, o incrível Hulk. Todos com pinta de lutador do UFC, musculosos, sisudos, tensos. Alguns alemães olharam de soslaio. Se queriam glamour, como na final de uma Champions, estava ali. Cenário belíssimo para um momento tão importante. Até então, a Copa era um sucesso. O hino à capela foi entoado com fervor nacionalista, como se do outro lado estivesse uma divisão da Wehrmacht. “Vamos à guerra!”, virou o lema de Felipão.

Penso que a tentativa de criar um ambiente claustrofóbico para adversários é reforço à falta de química dentro de campo. Só que os alemães não tremeram. E após um chute razoável de Marcelo, deram inicio ao massacre. O que Khedira, Kroos, Schweinsteiger, Müller, Lahn fizeram foi injetar agressividade ao tiki-taka espanhol. O futebol alemão adotou ideias de Pep Guardiola, o cara que revolucionou o Barcelona (hoje no Bayern de Munique) e, por tabela, a Fúria, com a posse de bola paciente e qualificada. E o Brasil parou no tempo. Assim que o primeiro gol saiu, em uma falha da defesa, o show de horrores começou. Lembro-me que, durante um ataque com boas possibilidades, o incrível Hulk carregou a bola pela esquerda. Dois ou três colegas avançavam no lado oposto e ele quebrou a bola com um bico para longe de todos.

A cada cruzada pelo meio campo dava para sentir que a tragédia era iminente. Dois, três, quatro, cinco. Com ares de um bobinho recreativo, eles tocavam como queriam dentro da área de Júlio César, um dos emblemas rubros da falta de coragem com o Brasil entrou neste Mundial. Inacreditáveis 5×0 em menos de meia hora fulminaram um país que entrou na onda populista e marqueteira que impregnou em uma instituição para sempre marcada com esta humilhação. A goleada não marcará apenas as carreiras das vítimas diretas, mas todo o futebol brasileiro. Será muito difícil reconquistar o respeito dos rivais. Os rostos petrificados que apareciam no telão deram a noção exata do que acontecia no gramado. Uma bomba atrás da outra implodiu a campanha ufanista, que falava em conquistar a Copa das Copas.

O que teria acontecido se, em vez de motivar garotos como Oscar, William, Bernard (parecia uma criança assustada, em meio aos germânicos impiedosos), a conversa fosse com Kaká e Ronaldinho Gaúcho? No mínimo, teríamos alguém para de encarar os craques alemães com a cabeça erguida. Nem Chile e Colômbia respeitaram a reca de pangarés conduzida pelos antiquados treinadores (Parreira?). Dizem que eles sempre respeitaram a habilidade brasileira, pois força por força, eles são maiores e racionais. Era o mesmo desafio da Copa das Confederações, no ano passado: vencer um time mais talentoso com um jogo atlético, meio que na porrada – revendo os VTs, digo que em todas as partidas, a pressão inicial foi acompanhada por uma falta estratégica, duríssima em um adversário, para intimidar.

Heróis sem overdose

No dois a zero a coisa estava resolvida. Dante e David Luiz, o super-herói da criançada, não sabiam que dança era aquela e pisavam no pé da parceira sem parar. Nem Freud explicaria aquilo. Neuer ficaria noiado se Neymar e Thiago Silva tivessem jogando? Não creio. A derrota era inevitável. O choque de realidade foi tremendo. Foi um erro técnico que inaugurou a tragédia emocional? Ou são fracos psicologicamente por que são fracos tecnicamente? Parece com a política, em que o populismo, os ídolos forjados com o povão, criaram um realismo fantástico que agora começa a ser desconstruído, diante da estagnação econômica e da explosão das piores mazelas sociais. Nunca na história deste país fomos tão machucados por um evento esportivo – a presidente chegou a cogitar ir ao Maracanã entregar a taça do hexa.

A vergonha pelos 7×1 deve ser impressa também na história do Partido dos Trabalhadores (PT). Seus dirigentes, Lula incluso, gastaram nosso dinheiro na festa bilionária para gringo se divertir. Apostavam que o título ofuscaria o desânimo da população com a gestão da senhora Dilma Rousseff. Na terra de Aécio Neves, o projeto ficcional petista ruiu feito uma cidade bombardeada pela Luftwaffe. Pobres, crianças (perceberam a quantidade de comerciais em que elas pedem o Hexa?) e a ‘nova classe média’ compraram o pacote plus dessa rede de transmissão fantasiosa. “Brasil, decime que se siete”, foi o trocadilho do jornal Olé com a musica do Creendence Clearwater Revival que eles adaptaram para zoar o Brasil nos estádios onde Messi e Cia jogam. Nos sentimos mal, Hermanos. Muito mal. Quem sabe torceremos para vocês.

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